Medicina e sociedade: o olhar sobre o corpo intersexo

Ontem, 18 de abril, aconteceu algo que está engasgado até agora e que preciso comentar. Pensei em compartilhar isso em algumas páginas, mas parece que a pauta não agrada (já mandei várias mensagens para pedir que abordem a questão da intersexualidade, não me responderam de volta).

Ontem na rádio da Universidade de São Paulo foi entrevistada a Dra. Berenice Bilharinho (Especialista em endocrinologia pela mesma Universidade ) para falar sobre intersexo. Você pode ouvir o debate neste link.

Achei importante, mas algumas falas precisam ser destacadas e pontuadas pela minha posição de militante intersexo, e já que a rádio não ouviu também os pacientes, ocupo este espaço:

1- A entrevistadora fala da importância de se discutir a questão. Disse que antigamente o paciente levava a vida tentando administrar a sua condição intersexo aos trancos e barrancos, hoje já se pode acompanhar desde a gestação até a vida adulta nos centros médicos “a doença” . Berenice falou da importância dos centros de referência para tratar a questão intersexo no país e a falta de divulgação desses centros para a população em geral.

Como militante, acredito na importância de trazermos o tema da intersexualidade a baila. Observo que não estar sendo discutido na sociedade é porque vemos a sexualidade como tabu, e por o indivíduo afligido não ter forças psicológicas suficientes para enfrentar o segredo de sua condição intersexo. Por ser resolvido nos consultórios, mesmo antes de sua capacidade de fala e consciência integral de corpo e sexualidade, torna-se papel da militância trazer o debate pro dia-a-dia e pra fora da sala de cirurgia.

2- Berenice fala da raridade da doença e da necessidade de uma equipe multidisciplinar pra tratar do paciente intersexo. Além disso fala da Hiperplasia adrenal congenita virilizante – condição intersexo que, segundo um outro médico com quem conversei, “precisa ser diagnosticada, sob o risco de a pessoa ter uma crise de desidratação aguda, com sódio baixo, potássio alto, e morrer, ou da desidratação, ou por arritmia pelo excesso de potássio.”

Esta condição intersexo, segundo a entrevistada, já pode ser detectada pelo teste do pezinho. Ela também destacou que por causa da condição ser virilizante, isso significa que a criança “pode ter genitais que levem a ser confundida como menino, mas é uma menina e o teste ajuda a definir o sexo nos níveis hormonais, definindo o sexo adequadamente para que ela seja educada como menino.”

Quem me acompanha sabe o quanto milito sobre a importância da autodeterminação de gênero dos indivíduos.

Apesar do HAC ser uma condição que necessita de uma ação por parte dos médicos, tanto nesse caso quanto no do diagnóstico de genitália ambígua, é preciso levar em conta o futuro da criança e o respeito à sua identidade de gênero. Além disso, a medicina precisa tratar integralmente o paciente, e este deve estar integrado no processo.

Portanto pedimos: PAREM COM A MUTILAÇÃO GENITAL INTERSEXO. Isso é feito ainda em bebês e crianças, e não por motivo de saúde, mas (muitas vezes) por questões morais – pela noção limitante de gênero feminino ou masculino – e estéticas, que causam sequelas físicas e psicológicas.

A decisão final deve ser do PACIENTE e essa será sempre a minha defesa.

3- A entrevistada comentou de forma dúbia, quando perguntada se as condições intersexuais são doenças ou má formação, mas destacou depois que era uma doença. Além disso, questionou o acesso a informação sobre a questão pelo Google e internet em geral, e destacou que a informação correta está na clínica médica

Berenice foi a signatária brasileira do consenso de Chicago, que alterou o nome intersexo para anomalias das diferenciações sexuais. O consenso reuniu especialistas do mundo todo, foi patrocinado por uma farmacêutica americana e medicalizou o movimento intersexo nos EUA, que hoje volta a engatinhar. Berenice adotou o olhar da resolução 1664/2003 do Conselho Federal de Medicina, que também nos vê como anomalia.

A internet me informou e me empoderou, coisa que o segredo médico nunca fez. A internet mostrou que não estou só, e me possibilita militar por uma causa que a medicina tenta abafar e esconder. Ainda nas salas de aula de medicina se fala de escala de transexualidade, e vigora o olhar salvador do médico, e se pratica uma medicina que não OUVE o paciente.

É papel da militância trazer o debate pro dia-a-dia e pra fora da sala de cirurgia.

Diante de tudo isso faço minhas considerações finais.

NÃO SOU UMA ANOMALIA
EU EXISTO
INTERSEXOS EXISTEM E RESISTEM

Chamo a sociedade brasileira a ouvir o outro lado da moeda e nos auxiliar e apoiar na militância intersexo e em nossas reivindicações, que são:

  • PAREM COM AS MUTILAÇÕES GENITAIS INTERSEXO que são feitas ainda em bebês e crianças
  • Alteração da lei de registros públicos 6015/73 com a inclusão de artigos com especificidades para o nascimento de pessoas intersexo
  • Exclusão ou modificação da resolução 1664/2003 do CFM que trata das práticas médicas para pessoas intersexo inclusive orientando para a correção cosmética
  • Inserção na questão jurídica civil de dano continuado a pessoas intersexos
  • Adequação do código civil brasileiro com itens referentes a identidade de gênero
  • Inclusão de comissão ou representante permanente na secretaria nacional e nas secretarias estaduais e municipais de direitos humanos.
  • Inclusão do intersexo na lei João Nery, ou criação de leis específicas
  • Regulamentação do SUS e preparo permanente dos profissionais de saúde para o tratamento de pessoas intersexo em hospitais de grande e médio porte.

Precisamos criar uma nova sociedade mais aberta à pluralidade dos corpos. Como possibilitar a transformação do olhar social sobre o corpo intersexo, se não permitirmos que eles existam? Permitir essa pluralidade é urgente e provocativa do diálogo.

Por Amiel Vieira
Imagem destacada: Hermafrodita Dormindo, de Gian Lorenzo Bernini (1620)

Comments

Comentários