Big Little Lies e o abuso na burguesia

E é por ser o Outro, que o Sujeito — homem — não consegue sentir empatia. É muito difícil tu tentar se colocar no lugar de algo que tu não entende como humano, como igual.

Big Little Lies fala sobre muitas formas de abuso que são camufladas pelas camadas que o dinheiro pode comprar em uma cidade à beira mar, onde a maioria dos moradores possuem muitos bens materiais.

A série é uma adaptação para TV do livro com o mesmo nome escrito por Liane Moriarty — o que nos ajuda a entender porque a presença feminina é tão forte na história.

Visto rapidamente, o enredo parece simples: fala sobre a vida de três mulheres: Madeline, Celeste e Jane — que se aproximaram por compartilharem silenciosamente seus abusos.

Acho que a palavra mais importante desse seriado é o silêncio. Em uma cidade onde todos se conhecem e a muito custo se constrói uma imagem — se tu já morou ou entende um pouco como é viver no interior se torna fácil compreender por quê — não falar conforta. É da negação que se mantém a vitrine perfeita que essas mulheres possuem.

Casadas, com filhos, lindas, inteligentes, independentes, praticamente sem problemas, uma receita para os vizinhos se meterem em suas vidas — ou confabularem sobre o acontece dentro de suas casas à beira mar. O difícil de acordar todos os dias e ter que manter esse personagem é que ele corrói cada uma dessas mulheres lentamente, levando um pouco de suas identidades com ele.

A forma como essas histórias são contadas transporta para a pele do espectador a dor. Não há linearidade. Os flashbacks revelam os traumas de cada uma delas. E no meio disso tudo há crianças, filhos, famílias.

Nicole Kidman, Reese Witherspoon e Shailene Woodley são as protagonistas dessa história. As duas primeira são, também, produtoras executivas da série. Há outras personagens com papéis importantes e representados por mulheres fodas da indústria áudio-visual, mas eu queria me ater nessas três.

Na vida real, muitas são as mulheres que já sofreram algum tipo de abuso. The Huffington Post Brasil afirma que, segundo pesquisa da ONU, 70% das mulheres no mundo sofrem algum tipo de violência no decorrer de sua vida. Mulheres com idade entre 15 e 44 anos correm mais risco de serem estupradas e espancadas do que de sofrer de câncer ou acidentes de carro. Em 60% dos casos o agressor é um conhecido da vítima.

As mulheres são ensinadas que os relacionamentos são suas responsabilidades. Ou seja, se algo der errado, se você perder seu marido, tiver um casamento fracassado, apanhar, é tudo culpa sua.

Pensando na sobrevivência, se aproximar de seus iguais faria sentido no caso das mulheres, se unir para se ajudar. Mas até isso nos foi tirado. Nos ensinam que temos que competir, lutar entre si para ter um macho ao nosso lado que nos proteja.

Aos homens foi dada a liberdade de viver como bem quiserem e a responsabilidade de proteger aos demais. Se todos tivessem os mesmos direitos ninguém iria precisar “cuidar” de ninguém.

Mas voltando a série.

Quando uma mulher é estuprada e escolhe ter o filho resultado daquela relação (em países onde o aborto é uma escolha — em alguns estados dos EUA e onde acontece Big Little Lies é), muitas são as dúvidas que passam pela cabeça da mulher.

Será que meu filho herdou o DNA abusivo do pai?

No momento em que essa criança é apontada como abusiva na escola, todas essas perguntas voltam à tona. Isso é o que acontece com Jane. Ela não sabe o nome do pai do seu filho e mudou de cidade com medo de que ele aparecesse de alguma forma na sua porta.

Por não saber nada deste homem, que até chegar ao hotel parecia uma pessoa muito agradável, Jane não pode denunciá-lo. A forma que encontrou para poder dormir um pouco à noite foi se armar — algo que também é possível nos EUA. Focada em proteger seu filho, ela foi internalizando seu trauma e nunca foi em busca de ajuda.

É interessante pensarmos sobre esses comportamentos controversos que alguns homens tem. Estes costuma ver os relacionamentos como jogos com fases. Primeiro tu conquista a mulher, faz com que ela confie em ti, se apaixone — no melhor dos cenários — e aos poucos tu vai revelando quem tu realmente é, quando ela estiver bem envolvida.

Não quero dizer que isso acontece sempre conscientemente. Mas em casa, muitos jovens aprendem que esse é o jeito de se conquistar alguém: “no cansaço”.

Com uma relação “estável” a sua parceira não vai querer te deixar mesmo conhecendo o pior de ti, ainda mais se houverem crianças envolvidas. Nesse momento o macho acredita que ganhou a presa para o resto de sua vida. Inclusive, que ele pode fazer o que quiser com ela.

Corta a cena. Celeste está em um casamento visto de fora como perfeito. Em um relacionamento com um homem mais jovem, aparentemente, apaixonado por ela e os filhos. O que mais ela poderia querer?

Talvez, não ter sua cabeça pressionada contra uma parede. Não precisar abafar seus gritos de dor para que seus filhos não ouvissem. Não ter que sempre revisar sua pele em busca de hematomas que precisa esconder com maquiagem.

Madeline, por outro lado, sofrera no passado, quando seu ex-marido decidiu que não estava preparado para ser pai e a deixou sozinha para criar a filha. Ela é o elo que une as três, pois sabe como é acordar todos os dias com os próprios traumas.

É muito difícil imaginar o que se passa pela cabeça de uma mulher que foi abusada, o que torna compreensível o fato de ser tão difícil para as vítimas realizarem denúncias. Porém, ficar em silêncio aumenta as chances disso acontecer de novo com outras mulheres, pois o abusador tem certeza de que nunca pagará pelo seu crime.

Essa estatística se confirma em Big Little Lies. [spoiler alert] O seriado mostra o quão importante é ter “manas” por perto, ter alguém que tu possa falar sobre o que aconteceu. Esse é o primeiro passo contra o abuso: a sororidade.

Enquanto assistimos Jane com medo que seu filho seja agressivo, acompanhamos Celeste negando que seus gêmeos poderiam ser futuras vítimas — afinal, “ele é um ótimo pai”.

Celeste tem certeza absoluta de que as crianças nunca apanhariam de Perry, que ele tem um problema com ela. O que foi ignorado, nesse caso, é que crianças são muito inteligentes e atentas.

Celeste não contou para nenhuma de suas amigas sobre os abusos que sofria, mesmo após insistência de sua terapeuta. E o silêncio vence de novo, protegendo o agressor.

Jane desconfiava que seu filho pudesse estar abusando de uma colega da escola pelo comportamento do pai biológico. Não passava pela cabeça de Celeste que um de seus filhos poderia estar ouvindo seus gritos a cada baque do seu corpo pelo quarto.

O medo cega, bem sabemos. Mais consciente do problema que tinha nas mãos, Jane tinha medo que seu abusador estivesse por ai repetindo seu comportamento com outras mulheres. Ela só não imaginava que a próxima vítima seria uma de suas melhores amigas.

Em uma festa da escola das crianças para arrecadar fundos tudo fica evidente, especialmente, como mulheres não foram biologicamente “feitas para não perdoar ” — como um personagem disse.

Com muito álcool envolvido, seguem muitos pedidos de desculpas entre as mães da escola que andavam brigando por causa dos rumores de abuso entre as crianças. Perry resolve ir atrás de Celeste para que ela vá para casa e lá fique. Se ele pudesse trancá-la em algum lugar para que nunca se separasse dele, ele faria.

O que acontece quando, do nada, um homem começa a dar tapas, socos, chutes em uma mulher em público na frente de suas amigas e vizinhas?

Todas vão defender esta mulher que está em perigo. T O D A S.

As mulheres podem ser as Outras para os homens, esses seres que não fazem o “menor sentido” quando estão sob efeito de hormônios.

Sinto muito em dizer, mas nós mulheres possuímos hormônios todos os dias. Talvez seja isso que nos torne tão fortes juntas. Nós conseguimos olhar umas para as outras e sentir dores parecidas, porque quase todas já foram abusadas de alguma forma.

Eles não imaginavam que nós poderíamos nos unir. Mas aqui estamos. Lutando. Juntas.

Seguimos, manas.

Por Gabriela Teló, originalmente publicado no medium da autora; versão minimamente editada reproduzida aqui com sua autorização. 

Comments

Comentários