Ansiedade: um guia para momentos de crise

O que fazer quando sua parceira ou parceiro tem um ataque de pânico ou episódio depressivo? Pode ser bastante assustador e super frustrante presenciar alguém que você ama passar por um episódio desses, especialmente se você não sabe como ser útil.

Este ‘Guia para momentos de crise’ foi criado para ajudar aqueles que amam pessoas que lutam contra ansiedade e depressão a sentirem que podem ser úteis quando seu parceiro ou parceira parecem estar surtando.

Doenças mentais podem ser difíceis em qualquer relacionamento, e na verdade isso não é culpa de ninguém. Você não tem a responsabilidade de ser super humano e proteger sua parceira(o) de qualquer coisinha, incluindo eles mesmos. E não é culpa da sua parceira(o) se ela(e) está passando por isso.

Este guia foi criado para inspirar aqueles entre vocês com ansiedade e depressão a se comunicar com sua parceira(o) sobre o que ela)e) precisa quando está tendo uma crise, enquanto você está bem. Por favor pegue, descarte, corrija e adapte esta lista para criar um guia do que você acha que pode funcionar pra você. Adapte-a ao longo do tempo, e certifique-se de falar sobre isso com sua parceira(o) e torne-a disponível para ela(e) quando necessário.

Então, sua parceira(o) está tendo um colapso. Não esquenta, tamo junto. Se liga nessa lista, e sua parceira(o) vai se acalmar rapidinho. As recompensas vão ser enormes, e seguindo esses passos simples você vai tirar de letra os benefícios de uma parceira(o) grata e calma.

ENTENDENDO ANSIEDADE: UMA METÁFORA

É importante entender que por causa das conexões neurológicas no cérebro da sua parceira(o), disparadas consistentemente, talvez pela vida inteira, ela(e) pode responder ao stress através de sintomas de transtorno de stress pós-traumático.

Uma metáfora:

Pense nessa reação como algo semelhante a se esconder num abrigo anti-bombas: não se pode viver lá pra sempre, mas é seguro. É a proteção de uma ameaça real ou imaginária ou algo estressante no lado de fora. Permite que a pessoa dê uma espiada de vez em quando pelo periscópio, avalie a situação e lide com ela em pedaços. Também torna muito difícil tomar decisões reais ou ações reais.

Nessas situações, pense em seu relacionamento como o terreno onde o abrigo anti-bombas está construído e cercado. Se você se afastar ou se retirar, sua parceira(o) vai muitas vezes se sentir exposta(o) ou ameaçada(o). A ameaça não tem nada a ver com o terreno ao redor, mas com as emoções e ações que são uma reação à ameaça em si, presentes dentro do terreno.

Sob nenhuma circunstância você, o alicerce estável, é responsável ou encarregada(o) pelo stress que ocorre acima. Você é um terceiro, inocente.

Se você assumir a responsabilidade, você encarna a ameaça. É como se o terreno que circula o abrigo anti-bombas caísse e esmagasse o abrigo anti-bombas. Todo mundo morre. Isso não é bom.

REAGINDO A UMA PARCEIRA(O) EM CRISE

Depressão, ansiedade e ataques de pânico deveriam ser encarados com a mesma mentalidade como se alguém tivesse acabado de voar de sua bicicleta de cara no cascalho. Dói, é feio de ver e pode ser um pouco assustador, mas vai passar, as feridas vão curar, e não é nada de mais, a não ser no momento exato em que está acontecendo.

Ficar chateado com isso não ajuda a passar. Aconteceu, agora é hora de resolver a situação. Leve sua parceira(o) pra um lugar seguro, e comece a limpar o sangue e recolher o cascalho.

DICAS PARA APOIAR SUA PARCEIRA(O) COM ANSIEDADE – DEPENDÊNCIA SEM PROXIMIDADE 

Não importa se você está ou não com sua parceira(o) no momento da crise, estas cinco dicas podem ajudar vocês duas a passar por ela:

1. Fique calma(o). Você é uma puta campeã! Essa habilidade e essas experiências vão te ajudar em qualquer relacionamento, íntimo ou não, que você terá pelo resto da vida.

2. Não peça pra que a pessoa tome decisões. Pessoas em crise podem ser incapazes de fazer qualquer coisa. Mesmo que seja decidir se querem ir pra cama, o que querem pra jantar, se querem um copo d’água, apenas assuma que todas as habilidades de tomada de decisão foram jogadas pela janela.

3. Assuma o controle. Isso pode querer dizer falar pra pessoa escovar os dentes, colocar um pijama, tomar um banho, comer, etc. Tirar a pressão de ter que tomar decisões e completar tarefas simples como conectar o telefone no carregador é ENORME.

4. Não assuma que a pessoa possa pedir o que precisa naquele momento. E também não assuma que você tenha que ler pensamentos. Não precisa, mas dê seu máximo. Você conhece seu parceiro (a).

5. Experimente as sugestões próximas e não-próximas abaixo caso não tenha certeza sobre o próximo passo.

SUGESTÕES COM PROXIMIDADE PARA UMA PARCEIRA(O) EM CRISE

6. Sensações

Aviso: Sempre peça consentimento ao tocar uma pessoa que está tendo um ataque de pânico. Eles podem não ser capazes de responder plenamente, mas preste atenção na sua linguagem corporal e sinais sutis de que talvez a pessoa não esteja gostando do que você está fazendo, ou que tocá-la está piorando as coisas.

  • Ao tocar, acho que o contato pele com pele é melhor, cara a cara. Alterne entre abraçar o corpo todo/segurar firme e acariciar as costas de leve em círculos com cafunés.
  • Cobertores numa atmosfera quieta, aconchegante e de luminosidade relativamente baixa pode ser um calmante.
  • Beijos platônicos são bons mas melhor apreciados na testa, cabeça e parte superior das costas e braços. Beijo no pescoço é muito sensível e enfiar a língua na boca da pessoa é um tanto demais e inadequado.
  • Mantenha a voz baixa, sussurrando ou em silêncio.
  • Técnica de abraço extra especial: ninar (como balançar uma criança pra acalmá-la) é excepcional em qualquer forma; particularmente se permite que a pessoa ninando possa sussurrar, balançando a pessoa de alguma forma, acariciando gentilmente de forma não-sexual. Pense em algo como ninar um bebê.

7. Atividades

  • Distrações podem ser boas uma vez que o episódio inicial acabou e é hora de se recuperar. Música pode ser um ativador emocional. Particularmente eu acho histórias em quadrinhos a melhor coisa.
  • Leia pra pessoa, qualquer coisa.
  • Banho de chuveiro ou banheira.
  • Não cometa a porra do erro de dormir. A pessoa vai te odiar pra sempre.
  • Conte pra pessoa sobre seu dia, ou qualquer tópico mundano. Fatos estúpidos sobre pinguins ou elefantes ajudam. Não espere um nível alto de participação mas a pessoa vai estar ouvindo, e se importando. Isso é super útil e pode ser muito tranquilizante.

8. Nutrição

  • Comece com um copo d’água, e se funcionar, mova pra bebidas quentes – NÃO-alcoólicas, ou super cremosas e açucaradas.
  • Palavras de encorajamento como ‘tá tudo bem, tá tudo bem’.
  • Respirar juntos.
  • Certifique-se de que a pessoa comeu nas últimas 3-5 horas.

QUANDO VOCÊ NÃO PODE ESTAR PRESENTE

Você não pode estar sempre fisicamente presente quando a merda bate no ventilador. O que não é culpa sua, nem é sua responsabilidade ser babá da sua parceira(o). Quando você não pode estar lá, aqui vão algumas ótimas dicas para você e sua parceira(o) passarem por isso.

9. Sensações

  • Ouvir sua voz pode ser tranquilizante. Se a pessoa não atender o telefone, deixe uma mensagem de voz. Se você não sabe o que dizer ou falar sobre, só fale sobre si mesmo ou o seu dia.
  • Mande uma foto de onde você estiver ou o que está fazendo. Isso transmite que você parou pra tirar uma foto e mandar pra pessoa porque você está pensando nela. Você também pode enviar uma foto sua fazendo caras estúpidas, ou tire uma foto de um desenho horrível de uma baleia que você acabou de fazer. Qualquer coisa que traga a pessoa de volta ao momento com você. Você consegue sacar a ideia.
  • Declarações afirmativas.

10. Atividades

  • Esteja disponível. Você está em um relacionamento, e se fosse você passando por uma situação dessas, você sabe que a pessoa estaria lá por você. Se você não quer se fazer disponível, então provavelmente não deveria estar num relacionamento. Óbvio que se você estiver no trabalho, é uma exceção, mas não decida que não é da sua conta. Vocês são parceiras, então aja como uma.
  • Planeje. Não foque muito no que está acontecendo, mas diga pra pessoa o que vai acontecer DEPOIS. Não peça ajuda pra tomar as decisões. Tome a iniciativa pra tomar as decisões sobre o que vai acontecer com o resto do dia da pessoa. Isso vai dar pra pessoa algo pra esperar e é extremamente útil. Saber que a pessoa vai ser cuidada é quase tão bom quanto um abraço no momento.

VÁ EM FRENTE!

Agora você tem os passos básicos pra ajudar a pessoa mais linda, querida e amada do seu mundo a lidar com essas coisas.

Essa lista não é de forma alguma exaustiva, mas um começo saudável. Cada pessoa é diferente, e o que ela precisa no momento vai variar – então converse com ela a respeito!

Lembre que tudo o que você faz é profundamente apreciado e está fortalecendo seu vínculo de maneiras que nada mais poderia. Você também está aprendendo muito sobre como estimular e ser um(a) melhor amigo(a) e amante. Não é bonito, mas é importante.

Tradução de Daiane Hemerich do texto When your partner has anxiety: a meltdown guide, de Kylarosesims. Imagem destacada: detalhe da colagem Emily 2, de Lola Dupre, via Awwwards

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