A solteirice, os julgamentos e os caminhos

A forma que as pessoas falam das mulheres solteiras é sempre muito pejorativa. Tenho muitas amigas que estão solteiras entre 30 e 40 anos e fico bem deprimida com os comentários de pena. Elas não são dignas de pena, estão ótimas. Melhor do que a maioria das pessoas que fala delas. Não estão enganando nem julgando ninguém, estão apenas vivendo a sua vida. Solteirice não é atestado de fracasso.

Uma mulher nessa idade – a partir dos 30 – está no auge da realização, da beleza, no momento de ver as coisas acontecerem, darem certo. Não casar ou estar separada é melhor do que estar casada com um cara que não acrescenta nada para todo o sempre, como era antes. Criar filho sozinha é melhor que criar ao lado de um babaca. Viver sozinha, idem.

Ruim mesmo, na minha opinião, é acreditar que ter um homem ao seu lado é garantia de felicidade. Quantas mulheres seguem esperando o príncipe encantado sem se dar conta que ele não existe nem aqui, nem acolá. Casamento é sociedade, é parceria. Em tese, porque na prática, muitas vezes é tudo menos isso.

Homens falam em mulheres desesperadas, lutando contra o relógio biológico. Isso é um grande engano do senso comum patriarcal. Existem muitas formas de ter um filho e constituir família. Casar, de vestido branco na igreja, não é a única delas.

Os faladores de plantão parecem fazer vista grossa à infinidade de homens que não casaram também. E não é porque estão causando, pegando geral… não, estão na casa dos pais, tomando Nescau e vendo Netflix. Só na minha família e na do meu marido, temos 3 primos nessa condição, todos eles com mais de 35 anos e sem qualquer perspectiva romântica. Não é só mulher que não casa, meus amores. Vamos partir daí?

Outro aspecto importante é que precisamos levar em conta duas coisas: a expectativa de vida das pessoas aumentou absurdamente nos últimos 60 anos. Assim, quando a minha avó Alzira casou – tardiamente – aos 23, já era considerada encalhada. Note que eu nunca ouvi um comentário sequer a respeito da idade do meu avô Geraldo. Sua irmã mais velha (e mais bonita) casara com 12 anos. A expectativa de vida nos anos 60 era de 55 anos.

Hoje a expectativa de vida do brasileiro médio é de 75 anos. Aqueles que moram em cidades com melhor infra-estrutura, clima e qualidade de vida e ainda são mais abonados vivem mais ainda. Em Portugal, a expectativa de vida das mulheres é de 90 anos. Assim, diferente de antigamente que casar aos 20 significaria que você, com sorte, veria os netos adolescentes e curtiria a aposentadoria. Hoje, 40 anos não é nem a metade da vida.

Portanto, pra que tanta pressa? Pra que tanto julgamento com quem não tem pressa de constituir família? Não é mais racional (e mais divertido) trabalhar, correr atrás da vida pra depois assumir a grande responsabilidade que é ter uma família?

A possibilidade de congelar os óvulos tem sido um alento para mulheres que não estão a fim de comprar o porco todo por causa de uma salsicha. Por R$ 12 mil (cerca de US$ 3,6 K) é possível congelar os óvulos e mantê-los seguros por muitos anos à uma taxa bem acessível (R$ 150, ou US$ 45/mês).

A solterice e os “match”

Tem gente passando o rodo no Tinder. Tem gente que não pega ninguém. Cinco amigas próximas conheceram o marido no app ou no Happn. O que mais rola é sair uma vez só e sumir, mas não dá pra generalizar. É claro que é mais prático e barato do que sair na balada. Mas, requer algumas considerações.

Um amiga estava reclamando que ninguém curte ela no aplicativo. Será que ela está por dentro dos padrões de beleza da era digital? Não digo ela se enquadrar (magreza, botox, maquiagem, esses recursos que podem atrapalhar mais que ajudar), mas ela saber se mostrar de forma interessante. E interessante não é sexy, necessariamente.

Gosto de inverter o gênero para desanuviar: o que é um homem bonito? Como é a foto de perfil de um homem interessante? E de uma mulher não muito jovem? Partindo da ideia de que a praça pública e o bar de hoje são os aplicativos de encontros, como precisa ser a foto de alguém mais velho para despertar interesse em outra pessoa?

A imagem e o marketing pessoal contam muito em tempos digitais. Um bom português, sacadas engraçadas e opiniões interessantes também agregam, imagino. Mas, uma foto bem tirada no seu melhor ângulo precisa ser considerada prioridade.

Adoção

O movimento mais lindo que tenho visto é o da adoção. Sabe aquela mulher gente boa, bem sucedida, que já casou, descasou e fica frustrada porque não formou uma família? Tenho visto várias adotando crianças. Bem felizes, com seus filhos curtindo o mundo.

Adotar é uma ato gigantesco de amor. É oferecer para uma criança a oportunidade de ser mais feliz, de ter uma família. É dividir a sua vida com alguém, ensinar o melhor que você sabe, dar amor e carinho e transformar a vida de alguém.

O ganho indireto são todas as relações que vêm com a maternidade. A vida social da escola, das festinhas, os programas doces e puros com as crianças ao invés de uma vida social pautada pela sensação de “ainda estar na balada”. Eu já pensava isso, mas ao assistir a série Anne, com E, tive ainda mais convicção. A transformação que a Anne faz nos seus pais adotivos é muito verdadeira. Os adultos pensam que estão dando, mas eles recebem muito mais do que dão.

A velhice

A partir de que idade uma pessoa é considerada velha? O que é pior: o ninho vazio ou um filho que não sai de casa nunca? Como manter-se saudável com disposição para todo o sempre? São perguntas sem resposta. Uma coisa é certa: cuidar de crianças é bem melhor que cuidar dos próprios pais. Mas, invariavelmente as novas gerações conviverão cada vez mais com seus genitores.

Uma solução genial para a solidão na velhice é morar perto dos amigos. Seja numa tribo bem simples, em aglomerados urbanos ou condomínios na praia. Morar perto de outras pessoas da mesma idade é certamente mais divertido que se isolar ou esperar que os parentes (quando estes existem) visitem e sejam atenciosos.

Gosto de pensar que os amigos são a família que escolhemos. Assim, cultivar relações saudáveis e éticas, desde o jardim e infância, me parece ser uma caminho muito mais acertado para viver com qualidade (e boas relações, sejam elas românticas ou não; familiares ou não) do que sonhar, malhar, se produzir e “emprincesar” para um casamento salvador e uma “família doriana” que talvez nem existam mais daqui algum tempo.

Por Ana Emília Cardoso, autora do best-seller A Mamãe É Rock
Imagem destacada: A Dança, Henri Matisse

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