Me deixa cagar, me deixa cagar! A revolução no banheiro.

Em 1997 Caetano Veloso gravou seu álbum “Livro”. “Me deixa gozar, me deixa gozar”, na voz do baiano, libertou o que andava preso nos peitos, nos armários, nos banheiros, nas camas e nos motéis baratos. O gozo se espalhou pelas mentalidades. A revolução sexual gritada, cantada. Um grito daqueles que queriam poder gozar da liberdade do gozo, os não-hétero, não-homens.

A resinificação do sexo e a luta contra a dominação dos corpos encontrou seu hino nas palavras do cantor. E ainda que muita gente não tenha conquistado o sonhado passe livre ao gozo e que se tente dessexualizar o sexo, negar o prazer, muita gente anda gozando por ai. Falta muita gente para compor o coro, mas já se pode escuta-lo alto.

Eu gozo e gozo muito. Sozinha, em casa, na cama, no chuveiro, descontraída no vaso ou em companhia. Eu gozo! Eu gozo! Eu gozo! E que seja oral, anal, grupal ou um simples casual, eu quero gozar, gozar da minha conquista ao meu corpo. Pronto: GOZEI!

Agora, o que venho dizer parece simples, mas não é: eu quero mesmo é cagar! Isso mesmo, cagar! Sim, cagar! Me deixa cagar!

A prisão de ventre é um problema que acomete muito mais mulheres do que homens e isso não surpreende, infelizmente. Há quem defenda que seja por questões hormonais (como se hormônios fossem apenas femininos) ou em função da estrutura do corpo da mulher. Alguns artigos médicos são mais ousados e arriscam em taxar a questão como ligada à “problemas emocionais”.

Vou aqui ser clara e etiquetar esses “problemas emocionais”: M-A-C-H-I-S-M-O!

O patriarcado é tão forte, tão brutal e disseminado em todo o tecido social que não nos deixa em paz e nem a sós no banheiro. E se Virginia Woolf para escrever teve que se livrar do maldito anjo da docilização e dominação da criação machista a qual foi imposta, lamento ter que lembrar dos outros milhões de anjos seguindo soltos por aí. Se os liberto da mesa de escrita, de trabalho e da cama, ainda dou de cara com eles no banheiro.

Parece pouco, mas é apenas um simples sintoma que apresenta uma doença causada pela desigualdade de gêneros, pelo machismo.

Sem pelos, sem cheiros, sem corrimentos, sem coco! Não peida, não caga na casa do namoradinho.

Cuidado com as calcinhas. Dermacid!, oral só “limpinho”. Leva na bolsa um odorizador ou prende, prende até estar em casa, sozinha em um ambiente seguro. São esses os conselhos colhidos nas rodas de amigas e nas páginas que falam de ou para mulheres na internet. Sou filha única dentre três irmãos homens. Nunca arrotei ou peidei em público. Para eles, uma constância à mesa, uma sempre piada perdoável.

O controle do corpo feminino é tão forte que adoece. E parece mais fácil me fazer gozar do que cagar. A questão é que não encontro o ajuste, o conforto em produzir nada, nem merda.

Quando digo que ao corpo feminino não é permitido questões naturais e essenciais ao bom funcionamento físico e mental apenas me utilizo de uma questão para gritar: Queria ser o que sou!

Chega de machismo! Chega de tentarem me dominar em tudo. Me deixem em paz para libertar minha mentalidade, minhas vontades!

Escrevo direto do meu trono. Cagando, na busca de ser a rainha da merda toda ou que seja ao menos da minha! Me deixa cagar, me deixa cagar!

Por Munah Malek
Imagem destacada via KQED Food

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