Representatividade feminina nas esferas de comando é rara

É preciso discutir os aspectos da vida que afetam as mulheres em todos os círculos: locais, nacionais e internacionais. Mas as mulheres encontram fortes barreiras para que isso aconteça de forma plena. Em primeiro lugar, encontra-se a barreira que consiste na inferiorização da mulher ainda na infância, quando tolhemos as suas expectativas e forjamos uma feminilidade submissa, atrelada à aprovação masculina.

Não formamos mulheres líderes. As mulheres não possuem poder estrutural. Um exemplo perfeito são as mulheres que fazem parte da elite. Elas teriam, hipoteticamente, o poder para fazer mais por outras mulheres, teriam mais fala, mais espaço, seriam consideradas mais capacitadas. Mas elas também são ensinadas a não iniciar debates que são de suma importância para quem não está na posição social (ou racial) delas. Podemos presumir que elas teriam medo de perder o seu status se o fizerem? Lembremos que Luiza Brunet apanhou do marido milionário (e não importa o motivo pelo qual ele pensa que haja uma justificativa para ela apanhar).

A senadora Gleisi Hoffmann é um exemplo de como há poucas mulheres na elite lutando por outras mulheres (e pessoas que não tenham o mesmo status que ela). Tivemos uma presidenta deposta por um impeachment fraudulento e que combatia a corrupção no governo, e ela também foi tratada com a mesma empáfia sexista que atinge a todas as mulheres em algum momento de suas vidas, sendo xingada, tido como louca e descontrolada apenas por impor o que um presidente do sexo masculino teria tido o direito. Somente por iniciar debates.

Precisamos urgentemente formar lideranças femininas.

É essencial debater, e quando as mesas redondas partem da iniciativa de homens, principalmente de homens brancos, há uma chance pequena de expormos as nossas angústias quanto ao sistema patriarcal. Mas precisamos dar início, urgentemente, à formação de lideranças femininas. Formar mulheres que, ao se deparar com os problemas, se juntem a outras mulheres e organizem debates.

Outra barreira comum para que os debates ocorram é que, como os proprietários de espaços para debater também pertencem a homens, muitas vezes nos deparamos com portas fechadas. Então quer dizer que os debates sobre a violência masculina contra as mulheres só podem ocorrer quando os homens decidem que é hora de debater, e nos espaços estipulados por eles? E com os painelistas que escolhem? E com o tema que eles acham mais apropriados?

Precisamos resgatar a autonomia das mulheres para falarem de si próprias. Precisamos ser protagonistas. Organizar debates, divulgar ideias mais progressistas para devolver poder de decisão às mulheres. Pode parecer que o que esteja sendo dito aqui quer dizer que nada foi feito até agora. Foi e já está sendo feito. Mas se a maioria dos painéis de debates e das mesas redondas ainda são dominados por homens brancos, podemos com certeza dizer que o debate está acontecendo em todas as esferas. Infelizmente, não está. Não está acontecendo com iniciativa feminina e com representatividade feminina na maioria das esferas, e é onde os feminismos podem começar a focar.

Precisamos resgatar a autonomia das mulheres para falarem de si próprias.

Existem feminismos, existem vertentes e correntes diferentes no feminismo. Tem o que foca nas relações de trabalho, tem o que foca na materialidade e biologia das mulheres, tem o que foca no empoderamento, tem o que foca no recorte racial, tem o que foca na sexualidade. Todos são capazes de trazer diferentes perspectivas ao debate e trabalhar em frentes diversas. A existência de vários é absolutamente positiva pois permite atacar problemas que enfrentamos em todos os setores da vida, e aí reside a sua importância, porque o sistema patriarcal está embrenhado em absolutamente todos os aspectos.

É absolutamente encorajador para a luta que haja diversas correntes do feminismo, focados em diferentes opressões. As garras do patriarcado vão muito além do que imaginamos e afetam as mulheres também de forma diferente. O ponto comum que elas têm, no entanto, é a busca por respeito em espaços que conquistamos e, primordialmente, a nossa luta por espaços seguros para levar as nossas demandas, que devem ser criados por nós, e não apenas cedidos por homens como concessões.

Também é preciso explicar que as mulheres precisam desesperadamente lutar para manter esses espaços, já que, à primeira intenção de montar um, surgem diversas vozes masculinas dizendo que os odiamos. Mulheres montando espaços para viver, falar, trabalhar de forma segura ofende o sistema patriarcal porque ele quer a nossa submissão. Já se questionaram o porquê? É pelo nosso sistema reprodutor. Não podemos nos deixar abater. A luta está apenas começando, já que as muitas conquistas das mulheres retrocedem a passos rápidos sempre que homens brancos conservadores tomam o poder.

E eles são muito apegados à manutenção desse poder.

Por Andreia Nobre
Imagem destacada: O Globo

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