Marcha das Mulheres Negras

Demorei alguns dias para decantar o que foi participar da Marcha das Mulheres Negras.

Saí do trabalho apressada na terça-feira, 25, lá pelas 18h, tinha uma amiga que já estava na Praça Roosevelt que ia me monitorando sobre os acontecimentos. Estava tão ansiosa que desci um ponto antes do devido, respirei e pensei que estava tudo bem, era só mais um pouco de caminhada, quando fui me aproximando da praça. Parei no farol numa rua estreita que dá para o túnel. Já conseguia ver a multidão de mulheres, mas eu tive que esperar mais um pouco para me unir a elas. Atrás de mim um casal de desconhecidos, aparentemente conversava sobre um avanço, ele professor dizia que pela primeira vez o Reitor da universidade onde ela trabalhava, havia confirmado presença em 4 encontros sobre a temática racial, e eu de olherada fiquei atenta percebendo a empolgação do moço branco, empático à temática, dizendo isso nunca aconteceu e que iria em todos os encontros para saber o que o reitor falaria.

O sinal abril atravessei apressada, costuro entre as mulheres e fico em frente ao “palco” onde as representando dos coletivos negros em sua maioria falavam do porquê estar em marcha. No celular pergunto onde estão minhas amigas e elas indicavam onde estavam, mas como era um mar de cabelos crespos, tranças, turbantes era muito difícil encontrá-las, estávamos entre iguais. Quando as encontrei, comentamos sobre a dificuldade de encontrar, olhava um black e pensava, achei, chegava mais perto e via que não, rs a gente deu risada e celebrou aquele momento.

Mais ou menos depois de 40 minutos depois da minha chegada era a hora de ir para rua. Enquanto isso, as mulheres davam voz a suas lutas e demandas , aproveitavam seu minuto para mandar o recado no microfone, ali todas podiam falar, o discurso de todas perpassavam os temas: genocídio, o sexismo, o machismo e claro o racismo institucional, eram mulheres mães, trans, catadoras, empregadas domésticas, professoras, doutoras, intelectuais, mulheres de axé, lésbicas, de partido, sem partido, eram mulheres negras e o chamado era para a união e a resistência as todas as perdas de direitos dos últimos tempos, as mulheres gritavam por serem livres, por ter acesso e por não mais ter filhos mortos pelo estado que ceiva vidas, mas também era o chamado para o bem viver.

Quando começamos a nos organizar para marcha, a descer a escadas da praça tivemos uma visão mais panorâmica da multidão. Comecei a ver as nuances entre as mulheres, eram as mais velhas, as famosas, as anônimas, as poetas, as cantoras, as blogueiras, as moradoras e moradores de rua, as mães… e como tinha criança! No sling, no colo, no carrinho, elas passavam entre os braços das amigas e das mães.

Apreciei o leque de diversos tons de pele da negritude, altas, baixas, magras, gordas, cabelos coloridos, turbantes, maquiadas, sem maquiagem, coloridas, discretas, gritando, abraçando, dançando uma imensidão de mulheres diversas.

Também vi presentes muitos homens negros, mulheres brancas, asiáticas e alguns homens brancos.

Mas me emocionei com um grupo de mulheres indígenas. Elas também tiveram voz e estiveram lado a lado conosco na marcha. Estas mulheres emanavam força, mas também dor, por todos estes mais de 500 anos de violência. O grito é por demarcação, pelo fim da violência, por poderem ser e estar livres, seja na natureza ou na cidade, para poder caminhar com dignidade como cidadãs brasileiras.

A caminhada foi pelo centro da cidade. Fomos passando entremeio aos prédios, fomos parando o trânsito, fomos chamando a atenção dos que passavam. Muitos se uniram ao fluxo durante a caminhada. Em frente à Biblioteca Mario de Andrade aconteceu a primeira parada. Como eu estava do meio para o final da marcha, seguíamos as ondas de coordenadas, então todas abaixamos ou sentamos no chão. Lá na frente acontecia algo que eu não sabia o que era, mas sentia que era importante. Depois de uns 10 minutos seguimos em marcha.

Foi uma delícia encontrar com os conhecidos durante a caminhada. Era sorriso de orelha a orelha. Depois houve uma segunda parada no Teatro Municipal, onde aconteceram outras apresentações e falas e encerramos ao lado da Igreja dos Homens Pretos no largo do Paissandú, com vários shows conduzidos, claro, por mulheres negras. Por volta das 22h encerraram as atividades, e de longe eu observava as organizadoras da marcha, que se abraçavam e choravam celebrando (penso eu) a realização e o descansar sobre o esforço hercúleo que é organizar, integrar, compor e realizar este encontro.

Eu fui no ano passado, e este ano tinha muito mais mulheres que ouviram o chamado para, numa terça-feira, ir às ruas e não se calar. São centenas de anos em luta e resistência. Acredito que o afeto é revolucionário, e a marcha, apesar de estamos imersas no cotidiano com muitos atos de violência, foi um espaço de cuidado, afeto e celebração.

Por Priscila Fonseca
Imagem destacada: Rede Brasil Atual

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