Como negra, sou recém militante

Como negra sou recém militante. (Pasmem!…)

Até alguns anos atrás eu não percebia o preconceito. Cresci em uma família protestante e, mais que isso, pentecostais. A grosso modo, isso significou uma criação vinculada e inserida em padrões estabelecidos por um status quo europeu, machista e desempoderador. Não que isso fosse um demérito total e irrestrito dos meus pais: pessoas simples e trabalhadoras. De outra forma, essa maneira de criar os filhos, se tratava quase de uma “método” de garantir a integridade psíquica e intelectual deles também. Felizmente – ou não – sempre tive uma certa inquietação na minha observação do mundo. Me lembro com bastante exatidão quando descobri que era negra, desconsiderando ainda qualquer juízo de valor.

Até os quatro ou cinco anos, eu tinha uma imagem corporal totalmente atrelada ao que eu via na televisão: meninas loirinhas, de bochechas rosadas, olhos em tons frios, cabelos extremamente lisos e claros. Nunca entendi direito o porquê de determinadas coleguinhas terem mais atenção dos adultos que eu. Mas minha descoberta de quem eu era começou como numa espécie de Mito de Narciso inverso. Em minha casa não haviam espelhos baixos.

Quando criança, não era hábito olhar-me refletida. Lembro do dia em que subi em uma cadeira para me ver em frente ao espelho do banheiro. Levei um susto. Onde estavam minhas bochechas rosadas e meus olhos claros, adornados por um sorriso encantador emoldurado por lábios rosa claros? Ao invés disso, encontrei uma garotinha muito magra, com a pele escura, cabelos dominados por um apertado rabo de cavalo no alto da cabeça em um volumoso “pom-pom”, olhos grande e negros… perdendo a luz. Pela primeira vez me julguei feia. Entendi o sentido desta palavra. A partir daí, comecei a testar se as pessoas concordavam com a minha opinião sobre mim mesma. Houve de alguma forma, que prefiro não julgar, uma espécie de reforço contra minha autoestima. Que perdurou por todo o tempo da escola até o fim da faculdade.

Por conta dessa imagem distorcida de mim mesma, procurei compensar com eu julgava ter de melhor: minha inteligência e pró-atividade. Fui a primeira da turma por muito tempo. Sempre solícita, meus pais “não tinham trabalho” comigo. Aprendi a ler praticamente sozinha e escrevia copiosamente diários, que minha mãe acabou jogando fora. Sofri todo o tipo de intimidação durante todo o período da escola, por conta da minha cor, cabelos, maneira de falar e pensar. Mesmo assim, não entendia isso como racismo. Acreditava que eu era estranha. E que provavelmente, merecia isso: ser tratada como uma pessoa que não se encaixava no estereótipo de quem deveria ser amada. Meus companheiros eram os livros e os amores platônicos, por garotos que só eram meus amigos, porque eu os ajudava nos deveres – seja lá qual fossem as dúvidas deles…

Quando entrei na faculdade e descobri que não seria uma instrumentista de sucesso, como me imaginei, procurei novamente fazer o que eu podia: usar minha inteligência. Iniciei meus estudos em composição musical erudita, e me deparei com mais um problema: ser mulher.

Um meio dominado por homens, que mesmo em sua maioria não se diagnosticando como machistas, resvalam no modelo de “provedores ou pegadores das aluninhas desgarradas”… ou ainda, o “da falta de talento das mulheres para a composição de música erudita”… Entenda como algo parecido. Ainda assim, terminei a faculdade pública no Mato Grosso – terra onde meus pais escolheram para que eu passasse minha adolescência, onde por coincidência a taxa de natalidade entre adolescentes era altíssima na época – e rumei logo em seguida para o Mestrado em Campinas.

Até então, tinha certeza que os processos dolorosos que se seguiam na minha vida e minavam minha autoestima eram resultantes das minha próprias escolhas. Quando terminei a Unicamp, estava cansada de tentar ter peças tocadas, ao invés de guardadas na gaveta; cheia de ouvir dúvidas sobre minha capacidade criativa, relacionando esse fato com comentários sobre minhas roupas e trejeitos muito femininos e, ainda, escutar piadas sobre o tempo que levei para arrumar meus cabelos “lisos”. De outra maneira, eu poderia também me ater a uma outra parte da “população” universitária, que discursava sobre o meu “privilégio” em estar numa Universidade pública e gratuita, mesmo sendo negra e não participando do sistema de cotas.

Tenho uma certeza bastante clara e contundente: ser negra é ser militante.

Finalmente, tive o insigth. Quem eu era e o que realmente eu queria representar. Iniciei minhas leituras sobre política. Procurei entender os conceitos de Direita, Esquerda e todas as suas ramificações. Dentro disso, encontrei o lugar que eu precisava para ser essa que sou hoje. Depois de inúmeros fracassos por diferenças irrisórias de notas na concorrência perdida para homens, brancos, cisgênero e algumas vezes de competência duvidosa em concursos nas Universidades Públicas Brasileiras, resolvi ser professora de pequenos. Eu precisava trabalhar com as bases. Passei em todos os concursos públicos que prestei. Daí partiu minha militância cada vez mais efetiva na luta em favor das minorias.

Ser negra, feminista, professora em escola pública, mesmo tendo passado em dois doutorados, as vezes soa como uma ofensa em determinados ambientes.

Quando me descobri negra, mulher, empoderada, dona da minha psique e consciente da minha autoestima, meus cabelos, sexualidade e sociedade, me deparei com então com um racismo muito mais intrínseco, difícil de detectar: o Racismo Estrutural. Esse, mesmo parecendo indelével, tornou-se presente no momento em que a pequena Vanessinha se mirou no espelho do banheiro. De lá pra cá, só para citar relações de trabalho, já fui encurralada por gestoras dentro de uma sala com portas fechadas, difamada por colegas para alunos com 10 anos de idade dentro de uma sala de aula, boicotadas em trabalhos que tratavam de africanidades dentro da escola por pares, “convidada” a se retirar de uma instituição de ensino por causa de problemas “interpessoais” e mais recentemente, chamada de racista por uma professora branca, cis e a favor da ditadura… é claro.

Minha trajetória, me deixa uma certeza bastante clara e contundente: ser negra é ser militante. A estrutura social nos obriga a sê-lo para sobreviver no mundo onde somente os donos do privilégio são aceitos. Você nunca será vista com empatia, a não ser que esteja em um patamar de destaque, e olhe lá. Numa discussão recente sobre racismo na sala dos professores da escola onde trabalho fui obrigada a ouvir a seguinte indagação: “Por que você fica o tempo todo dizendo que é negra? Ela (a faxineira) também é negra e nunca abriu a boca…” Minha resposta foi o silêncio da indignação e uma gravação de defesa.

Sou negra, feminista, empoderada e o custo disso é muito alto.

Mas agora, passado o mal-estar, tenho uma resposta mais clara: minha voz não é só minha. Ela é de todas e todos que são estigmatizados dentro de uma sociedade estruturalmente racista, que privilegia a manutenção dos rótulos, estereótipos, convenções sobre nossa cor de pele. Minha voz se refere à liberdade de não ser obrigada e lembrar a todos da minha negritude, para impor o mínimo de respeito em detrimento de piadinhas sujas com os meus ancestrais. Se refere também ao direito de estar onde quero, sem o custo adicional de sofrimento causado por uma estrutura doente que fomenta o preconceito.

Sonho e trabalho para que chegue o dia em que eu não precise ser barrada para dar satisfações do porquê estou ali, nem indagada sobre a higiene dos meus cabelos ou a intensidade da minha libido, por conta da cor da minha pele. Sem contar as inúmeras vezes que me mandaram servir as mesas ou limpar os banheiros dos lugares onde fui me divertir. Mas entendam: Não vou sair de onde estou, não mudarei meu comportamento em relação as injustiças sociais, continuarei tentando conscientizar as pessoas sobre o racismo estrutural vigente no Brasil.

Sou negra, feminista, empoderada e o custo disso é muito alto. Pago por ele todos os dias. E por isso mesmo acredito que os resultados serão maiores ainda. E parafraseando Anna Cláudia Magalhães, continuarei sendo a “neguinha metida” do “rolê”, até que não haja mais necessidade de ser lembrada como tal.

Por Vanessa Rodrigues
Imagem destacada: playbuzz

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