O Conto da Aia: futuro distópico que vive no presente

O livro “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, foi publicado pela primeira vez em 1985 e, após mais de trinta anos de seu lançamento, foi adaptado ao formato de seriado e se tornou uma febre mundial.

“Nenhuma bugiganga imaginária, nenhuma lei imaginária, nem atrocidades imaginárias. Deus está nos detalhes, é o que dizem. O diabo também” foi a regra que Atwood criou para si mesma para escrever esse livro e talvez seja justamente a possibilidade dos acontecimentos narrados serem o futuro do mundo presente que tenha tornado essa obra icônica.

Após um golpe contra o governo dos Estados Unidos, Gilead, uma teocracia de direitos muito limitados, é criada. Com os graus de fertilidade cada vez mais baixos, devido a contaminação de águas, terras e afins, garantir a procriação da população passou a ser o principal argumento pela necessidade de imposição de leis absurdas e, mais uma vez, a esterilidade fica na conta só das mulheres.

Nessa nova sociedade, as mulheres tiveram seus direitos restringidos ao extremo, e suas existências passam a depender de se encaixar em uma das quatro atribuições disponíveis, essas muito ligadas ao que é definido como feminino na sociedade que vivemos hoje.

As mulheres de Gilead podem ser Aias, Martas, Esposas ou Tias, e cada um desses papéis tem um código de vestimentas bastante restrito, com cores específicas que sinalizam status naquela sociedade. As mulheres que não se encaixam são vistas como “não mulheres” e enviadas para campos de trabalho forçado, um destino de morte certa.

Mulheres em idade fértil e que já pariram em algum momento de suas vidas tornam-se Aias, mulheres mantidas nos lares dos Comandantes e suas Esposas para engravidar, parir e amamentar os filhos destinados a esses casais. Suas vestem parecem hábitos, mas vermelhos, e acompanhados de um chapéu branco que escondem seus rostos. Mulheres inférteis são casadas com os Comandantes no papel de Esposas, e vestem azul, como a Virgem Maria. As Martas, responsáveis pelos trabalhos domésticos, vestem verde. Já as Tias, cuja função é educar Aias a serem servis e servirem, usam marrom. Também há as econoesposas, esposas de homens de classe mais baixa (ponto pouco explorado no livro, e menos ainda no seriado), e estes homens não têm o direito de possuir Aias — o maior símbolo de status dessa sociedade.

Apesar da história expor um mundo extremo, tudo ali parece possível como desdobramento do mundo em que hoje vivemos.

A situação de todas as mulheres na República de Gilead é de privação de direitos, mas o lugar das Aias é o de receptáculo controlado. Aias são objeto de poder, por possuírem úteros férteis, signo e matéria de sua opressão. A história do livro é narrada por uma Aia. Seu nome verdadeiro é desconhecido, mas dentro do regime, ela é Offred, que significa “De Fred”.

A narrativa do livro é um fluxo de pensamentos da narradora-personagem. Ora ela fala de suas memórias, para entendermos seu mundo anterior e quem ela foi um dia, ora fala das cerimônias, regras e rituais da teocracia que agora habita. Enquanto fala sobre seus sentimentos, a protagonista, nos apresenta um mundo dominado pelo conservadorismo, sem liberdades individuais e baseado na misoginia. Ela se apega ao passado para resistir ao presente. Lembrar — de quem foi um dia, da filha e do marido — é a maneira que ela encontrou de se manter com vontade de viver.

Apesar da história expor um mundo extremo, tudo ali parece possível como desdobramento do mundo em que hoje vivemos. A opressão dali, como a de cá, se baseia em fenômenos e discursos derivados deles. A obra tenta nos mostrar a possibilidade daquilo vir a acontecer, especialmente quando a personagem principal traz à tona suas memórias sobre os acontecimentos que antecederam a instauração desse Estado totalitário e teocrático.

O Conto da Aia já foi traduzido para cerca de quarenta idiomas, adaptado para o cinema, tema de um balé, de uma ópera, e agora de uma série que ganhou muitas categorias do Emmy Awards 2017. O controle do corpo das mulheres nunca deixou de ser pauta em qualquer lugar do mundo, e é por isso que essa distopia se parece tão próxima de nós. E, nesses tempos, ainda mais.

O mundo avança novamente para o domínio do conservadorismo. Nos EUA, Trump representa um retrocesso para todos grupos vulneráveis, incluindo mulheres e, no Brasil, a bancada fundamentalista domina o legislativo federal, estadual e até mesmo municipal.

A obra é um fenômeno hoje por provocar reflexões sobre família, religião, Estado, violência, poder e papéis considerados como femininos num momento crucial de avanço de retrocessos. Com a exposição de um regime baseado em controle, violência, ameaça e religião, o leitor cultiva em si a certeza da importância da desobediência. Offred desobedece ao não esquecer quem foi no passado e, nas lembranças de quem foi um dia, encontra a força necessária para continuar existindo. Enquanto o mundo retira sua humanidade, lembrar que ainda é um indivíduo é resistência.

“Alguns livros assombram o leitor. Outros assombram o autor. The Handmaid’s Tale fez os dois”, disse Atwood em um artigo do The Guardian, e como leitora, tenho que concordar. O mundo de Gilead faz soar um alarme interior que serve como um alerta para os rumos autoritários e assustadores que estão sendo desenhados hoje.

Mulheres se vestem de Aias hoje e saem para protestar contra o controle estatal de seus corpos e mostram como essa história se tornou símbolo da resistência feminista contra todas as formas de opressão.

Por Thaís Campolina. Uma versão deste texto foi originalmente publicada no Medium da autora. Reproduzido aqui com sua autorização. Imagem destacada: Valkirias

NOTAS: 

  1. Durante a Virada Feminista Online pela Legalização do Aborto, a Thaís (via Ativismo de Sofá) e a Joanna Burigo (via Casa da Mãe Joanna), fizeram transmissões ao vivo falando sobre o avanço do conservadorismo, e o controle do corpo das mulheres e a necessidade de resistência a partir do livro/série “O Conto da Aia”. Assista nos links. 
  2. O livro “O Conto de Aia”, de Margaret Atwood, está sendo relançado como e-book e livro físico pela Editora Rocco.

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