O ocaso do macho branco

Todo poder foi dado ao homem branco. O poder maior: o de nomear e com isso ter posse sobre. Está no Gênesis e em Blanchot (cito Blanchot pra mostrar que me legitimo e assim garantir audiência)

Eu te nomeio mulher. Eu te nomeio negro. Eu te nomeio índio. Já eu, eu não tenho nome, eu sou o humano. Como humano, tudo começa e termina em mim mesmo. A isso dei o nome de lei, razão, conhecimento, gozo. Se você não concorda, não tem problema, eu te ensino.

Criei inclusive a categoria “outro”. Luto, inclusive, para que o “outro”, assim mesmo sem nome, gosto ou cheiro, seja representado. Porque, como sabemos, a representação está abaixo do “ser”, a representação começa e termina na sociologia. Demora ainda para a mulher, o negro, o índio etc chegarem na psicanálise ou na filosofia. Etapas.

Mas, tenho agora um problema. As criaturas, como os animais dos tempos antigos, começaram a falar. E falam contra seu criador. E se rebelam. E não querem mais ser libertas por mim, por mim, logo eu, que digo e repito, ataquem as estruturas, não nomeiem seus agentes. Vai que o agente sou eu? Meu brother?

Eu existo? Eu, não, eu sou a própria potência do desejo, sou o indizível, me emociono diante do incognoscível e qualquer coisa que seja precedido por um “in”. Ou por um “des”. Eu sei que foi golpe. Ou não. Depende dos amigos com quem saio pra beber. Nessas horas, superamos as divergências políticas e nos situamos acima! Eu circulo. Eu sou pluri, multi, apesar de nunca ter sido assediado, apesar de nunca ter ouvido “só podia ser branco”.

E como todo humano, eu erro. Errar é um direito dado somente ao humano. E aí, eu posso dizer “é coisa de preto”, “é coisa de feminazi”, “é coisa de viado”. Viado não, porque tenho vários amigos artistas viados. Coisa de viado, eu só digo quanto tô com a minha mulher. Como sou humano, e não omi, nem branco, como essa gente que me nomear, quer me definir, eu posso dizer quem está certo e quem está errado. Tanto faz, eu e meus 16 amigos contra o aborto, eu e meus amigos “é coisa de preto”, eu e meus brothers tenho direito de mandar meu pinto pra quem quiser. Porque eu não tenho labels, quem tem são os outros.

Já disse que sou pela legalização do aborto? O corpo pertence a mulher! Mas a língua a gente corta, como corta a língua do preto. Falar aí, já é demais. Coloca aí esse parangolé e samba, meu amor, meu preto da Mangueira, minha mulata sestrosa, meu brasil só corpo. Falar, falar deixa pra mim, você ainda é sociológico, eu sou lacaniano, derridadiano, eu TRADUZO! Veja, só, o ápice de um intelectual no Brasil. Ser tradutor, oxalá! E claro, eu escrevo poesia, eu sou a mediatriz, a régua e o compasso, eu defendo a liberdade das artes morra quem morrer, viva o black face, o White face, wiliam wack é um barato, intelectual nato, viva o MST e Caê!

Tenho a rima e a solução. Afinal, humano sou eu. E para de atacar o agente do machismo ou do racismo, ataque a estrutura, senão eu te processo, sua vaca.

Por Giovanna Dealtry
Imagem destacada: achada na internet. (Parabéns a esta moça que conseguiu tirar sarro da capa do livro “Atlas Shrugged” – “A Revolta de Atlas” em português – de Ayn Rand.)

PS: Manoela Miklos escreveu uma resenha sobre a produção de um desses omis, homis, HHHomens, cujo título é “O crepúsculo (poderia ser o opúsculo) do esquerdomacho”. Feminista pensa tudo igual mesmo.

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