Elas que aguentem

Uma mulher chega ao seu local de trabalho e, da porta de entrada do prédio até o seu posto, ela tem que percorrer 200, 300, 400, 500 ou 1.000 metros. Nesse percurso, alguns homens por quem ela passa gritam “puta”, “vadia”, “vagabunda”, “piranha”. O alvo é ela, que vai caminhando, segue seu percurso. Outros homens, diante da cena, se juntam aos seus iguais e o coro só cresce, torna-se ensurdecedor; uns se animam a puxar seu cabelo; outros pegam seu braço.

Ela segue e chega à sua sala. Guarda a bolsa e o casaco, veste seu uniforme, checa seus instrumentos, liga os que devem ser ligados e começa a trabalhar.

Homens que a veem em seu posto continuam a lhe gritar; outros homens, os mesmos gritos de há poucos instantes. Ela continua seu trabalho e, para isso, precisa se deslocar pelo prédio. E lá vai ela. Continua ouvindo os gritos masculinos nesses percursos. Outros homens, os mesmos gritos. Em cada lugar é a mesma cena. Ela no meio dessa situação. Ela é o alvo.

Em determinado momento, ela começa a ouvir vozes masculinas lhe descrevendo uma infinidade de formas com que eles e outros homens deveriam submetê-la a coitos e abusos violentos. Ela trabalhando; eles descrevendo estupros, ora cometidos de forma individual, ora de forma coletiva. Aos gritos.

Quem é essa mulher? Qual é sua profissão, seu ofício? Onde ela trabalha?

Uma repartição pública? Um hospital? Um escritório de advocacia, engenharia ou arquitetura? Um tribunal? Um supermercado? Uma loja de departamentos? Um shopping? Uma escola? Uma universidade? Um restaurante? Um teatro? Um cinema? Um prédio de apartamentos?
Inadmissível? Absurdo? Criminoso?

Ou esta pequena e violenta historia é uma ficção?

Hoje (sábado) e amanhã (domingo), especialmente, esta história vai acontecer várias e muitas vezes, com algumas variações aqui e ali, país afora. Em todas as vezes em que isso acontecer, haverá uma mulher trabalhando, exercendo seu ofício e sendo alvo de violência de gênero. E ai dela se reagir. Afinal, ela sabia que era assim e, mesmo assim, escolheu esse lugar.

Hoje e amanhã, este será o roteiro da jornada de trabalho das mulheres que exercem atividades no futebol: repórteres, comentaristas, cinegrafistas, árbitras, bandeirinhas, auxiliares, médicas, enfermeiras, atendentes de guichê, balconistas, trabalhadoras terceirizadas e autônomas que tiveram a audácia de ter o estádio de futebol, a paixão nacional, como local de trabalho. Em algum momento ou o tempo todo, em maior ou menor grau, elas encontrarão este ambiente e terão que sofrer violência misógina e sexista. Faz parte da rotina de trabalho delas viver esta experiência.

E o que elas escutam se resolverem reclamar à boca pequena, ali, só para seus colegas ou chefias, geralmente homens? O velho e bom “aguenta, tu sabia que era assim, tu escolheu esse trabalho. Agora, fica quieta e aguenta. Aguenta ou pede pra sair.”

Estádio lotado! Jogadores concentrados! Toda a mídia pronta e a postos! Os times apontam na boca do túnel! As torcidas explodem em gritos, charangas, papel picado! Hino nacional e estaduais executados, cumprimentos e trocas de gentilezas no meio de campo. Fotos! Muito flashes! Apito inicial! Bola rolaaaaando!!! Começou o maior espetáculo da alegria popular nacional!!!

GOOOOOLLL DO BRASIL!!!! Mais um gol de um dos campeões mundiais em violência contra meninas e mulheres.

Elas que aguentem e que aguentem quietas.

Por Izabel Belloc Moreira Aragon
Imagem destacada: enviada pela autora (detalhe de uma fotografia da árbitra de futebol uruguaia Claudia Umpiérrez, em campo)

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