Mulheres Maravilha – do mito à política

Quem me conhece politicamente sabe que, além de trabalhar com Filosofia Política Feminista, também evito usar material de pesquisa produzido por homens, e que não defendo a participação deles nos espaços de construção e ação política ou movimentação feminista. Entendo quem defende a participação deles. Mas eu não defendo. Pra não dizer que eu os isolo da participação, talvez eu possa dizer que o papel deles neste momento e movimento seja nos ajudar a conter os seus para que o tsunami de estrogênio e progesterona desabe sobre o mundo.

(E antes que venham “mas e as trans?”, eu tô falando aqui de fêmeas mesmo. Pois a legislação sobre as mulheres se pauta, infelizmente sobre nossa biologia e sem a nossa participação. Sem direitos naturais e nem direitos civis. E as amigas trans que tenho são tão fantásticas que muito disso aprendi com elas. Muito tempo atrás, num espaço de militância conjunta, quando entramos em pautas sobre mulheres, as mulheres trans se retiraram do local de fala para o de ouvintes, os homens trans permaneceram e eu estranhei. Mas depois entendi. E uma das mulheres trans me disse: “quem tem a falar sobre essa pauta é vocês, a nós resta apenas escutar e ajudá-las, como vocês acharem que devemos, a conquistar as pautas de vocês”.  Portanto, não questionem isso, por favor, pois estou falando de biologia e socialização dentro de um espaço político no que se refere a mulheres não-trans. E por favor, não gastem tempo me ofendendo ou me ameaçando.)

Mas por que? Pois bem…

Na última segunda-feira aconteceram, em muitas cidades brasileiras, atos contra a PEC 181. Mas o ato do Rio de Janeiro teve uma peculiaridade que, por mais que não seja novidade, sempre que ocorre, me toca muito.

A PM tentou prender uma mulher que estava com uma camisa amarrada no rosto. E para defendê-la, as mulheres começaram a abraçar a mulher em questão. Tantas mulheres envolvidas no ato de abraçar aquela que estava sendo ameaçada por homens (não uso aqui o termo enquanto macho, mas enquanto poder de repressão que a farda representa: braço armado do Estado), que chegou num ponto em que os policiais militares não conseguiam mais acessar a mascarada: tirava uma mulher do caminho, brotava duas a mais no abraçaço.

Nem em manifestações que contavam com participação de homens eu os vi fazer nada semelhante pra defender uma mulher. Parece algo tão nosso. É tão simbólico.

Esses momentos me lembram das amazonas de Temiscira, na mitologia da DC Comics. Sempre que aparece um macho em Temiscira – seja homem ou além – dá merda. Acaba a paz das manas. Mulheres morrem – mas nunca sem lutar.

A única forma de ter paz em Temiscira é não tendo homens por lá. “Ó lá! Pega o facão que lá vem o Dalai Lama!” E desce o mulherio inteiro da ilha pra moer o Dalai Lama na porrada.

Assisti A Liga da Justiça ontem. Gente… A nova Mulher Maravilha e as Amazonas são as melhores coisas que apareceram no show business nos últimos anos. Não vou falar aqui de efeitos capitalistas da franquia, apesar de estar ciente deles. A personagem original da DC foi criada cheia de fetichismos, como quem acompanhou ou conhece a história sabe. E hoje ela se despregou daquilo que seu criador imaginou para ela.

É óbvio que tem muitos clichês na personagem da atriz Gal Gadot, muitos estereótipos. Mas a personagem merece ser olhada como algo que tem acompanhado o movimento das mulheres. Eu saindo do cinema, pensei:“Que pena (!) que ela usa uma roupa que expõe tanto o corpo, diferente dos seus companheiros. Ok. Mas ela é uma semideusa, sua pele não precisa de proteção e os guerreiros da mitologia grega se vestiam praticamente como ela. Então podemos deixar isso passar para uma Mulher Maravilha e para as Amazonas de um seio só”.

Eu não gostava da Mulher Maravilha até surgir a personagem de Gadot e da diretora Patty Jekins.
Sempre a achei uma personagem alegórica, sem importância real, fraca e por aí em diante. Hoje sou fã. E mais do que isso, ver um monte de meninas indo ao cinema por causa dessa personagem, e tendo ela como referência, é o máximo!

Pensa nas meninas que estão crescendo, vendo a Mulher-Maravilha atual, e nos vendo nas ruas, protegendo outras mulheres de ataques de PMs e outros homens? Só falta a gente colocar as meninas pra praticar artes marciais (também) pra que tenhamos amazonas modernas. Mulheres que, mais que viver sem medo, saibam ser armas e reagir ao patriarcado. Se preciso, no naipe Andrea Dworkin: aprendendo a matar.

Napoleão, em seu regime, criou uma lei que proibia mais de quatro ou cinco mulheres reunidas em vias públicas (não recordo o decreto, fico devendo a referência.) E sabem por que? Porque os homens sempre souberam de uma coisa que a gente ainda não tem dimensão, apenas noção: mulheres reunidas são perigosas e capazes de grandes feitos.

Montagem feita pela autora

A própria Revolução Francesa é um dos fatos históricos que não seriam possíveis sem a participação das  mulheres. Por exemplo, elas tomaram Versailles, decapitado soldados e arrastado a família real de volta pra Paris. Mas que mulheres? As trabalhadoras do mercado. Questão de classe também!

Não acredito que a grande mudança social e histórica venha dos homens, muito menos com a participação deles. Enquanto eles estiverem na jogada, vão tentar defender sua fatia do bolo e sabemos que ela é praticamente o bolo inteiro.

Acredito ser necessário que enfim se construa uma nova noção de cidadania, com toda a multiplicidade que a atualidade nos apresenta. O que é dominante não tem nada a construir ou colaborar com esta cidadania que almejo. Mas todos os movimentos sociais que lutam por direitos reais, estes sim têm muito a dizer. Por vezes, parece-me que, só a multiplicidade que o próprio movimento de mulheres contém (e com o qual precisa imediatamente aprender a lidar) é capaz de encabeçar a construção de uma cidadania que seja de fato democrática.

Voltando às mulheres, nós ainda não fazemos ideia da força que temos, politicamente. Os homens sabem. Por isso tentam nos conter ou caminhar entre nós – pra garantir o deles. Eles nos temem.

No dia em que a ficha cair pras mulheres, o mundo não será perfeito como Temiscira. Infelizmente haverá homens entre nós. Mas assim como seremos novas mulheres, eles certamente serão novos homens. O máximo que a gente conseguir fazer para nos aproximar das Amazonas de Temiscira será a nova ordem. Uma nova Era. Por vezes, parece que estamos no caminho, como quando acontecem coisas como esse abraço de defesa. É a arma que as mulheres tinham.

Se não temos arcos e nem espadas contra as armas de fogo e de borracha do Estado que tenta dominar legalmente nossos úteros, que usemos nossos corpos pra nos defendermos deste mesmo Estado – e dos homens a quem este Estado representa. Sejamos as Mulheres Maravilhas dos tempos atuais.

Por Landa Ciccone
Imagem destacada: Amazonas de ‘Mulher-Maravilha’ (Reprodução/Divulgação)

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