Viva o Grupo Palmares! Viva Oliveira Silveira!

“Nossas conversas giravam em torno da insatisfação com 13 de maio, achávamos que a comemoração, além de chapa-branca, homenageava uma princesa ‘portuguesa’ e não o povo negro. Daí percebi que era preciso encontrar uma data que fizesse justiça à luta continuada dos negros brasileiros.” Oliveira Silveira, sobre o Grupo Palmares.

A verdade é que foi preciso instituir um dia da Consciência Negra para reconfigurar uma série de coisas que a branquitude tirou da gente. Identidade, auto-determinação, consciência de si, amor próprio, cuidado, trajetória, controle de narrativa.

O 20 de novembro diz respeito a reverter processos de silenciamento e apagamento que foram impostos pela modernidade para a população negra. Tem a ver com configurar paradigmas que não estejam a serviço da lógica da morte de pessoas pretas.

Não é sem razão que o processo de instituição do 20 de novembro começa em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Porto Alegre que é a capital mais segregada racialmente, e no Rio Grande do Sul o apagamento de pessoas negras se dá em todas as esferas. Aqui é o lugar em que não existimos enquanto sujeitos. Se você é bem preto como eu, e diz que é gaúcho, as pessoas se impressionam. Se impressionam porque, até mesmo no próprio estado do Rio Grande do Sul, há uma promoção da inexistência de pessoas negras, consubstanciada por uma ideia de maior progresso econômico. No Rio Grande do Sul a gente muitas vezes luta para poder dizer que existimos.

Oliveira Silveira, poeta e ativista do movimento social negro, gaúcho, é apagado constantemente da narrativa sobre o 20 de novembro País afora, e o é exatamente em razão dessa forte narrativa de inexistência de negros no Rio Grande do Sul.

O mundo precisa saber que existimos, que vivemos, que produzimos.

Digam o nome de Oliveira Silveira. Digam de onde ele é. Viralizem o rosto do homem negro que, na década de 70, forjou a ideia da consciência negra brasileira como contraponto para as histórias criadas pelos brancos sobre nós.

Estampem o rosto de Oliveira Silveira em camisetas, escrevam o nome de Oliveira Silveira em paredes, não apaguem a memória e a importância de Oliveira Silveira do dia de hoje. A lógica dos brancos que apagam a trajetória e a contribuição das pessoas negras responsáveis por projetos importantes não pode estar entre nós.

Falem sobre Oliveira Silveira. Falar sobre Oliveira Silveira é fundamental.

A cada vez que vocês compartilham um card, um gif ou vídeo com imagens de Malcom X mas não de Oliveira Silveira uma lágrima corre no rosto preto de uma pessoa cuja identidade é negada aqui no Sul. Uma lágrima corre no rosto preto de uma pessoa  que aqui foi criada, e que não é reconhecida enquanto gaúcha nem aqui nem em lugar nenhum. Uma lágrima corre no rosto preto de uma pessoa sem lar, sem casa, porque as lógicas da branquitude não lhe permitem ter.

Viva o Grupo Palmares! Viva Oliveira Silveira! Viva os pretos e pretas do Rio Grande do Sul, que resistem, que sobrevivem, cujas vidas e trajetórias também importam.

Por Winnie Bueno
Imagem destacada: Oliveira Silveira por Neco Varella (via rodrigotrespach.com)

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