Racismo, pourquai pas?

De fato é muito chato só reclamar e falar mal sem fazer um esforço para se fazer entender ou simplesmente repetir frases de impacto. Assim sendo, vamos a um esforço didático para explicar o porquê da exposição Pourquoi Pas?” ser, no mínimo, criticável.

(Se você não sabe do que eu to falando, pô, sorte sua, mó inveja – me conta ai o seu segredo, na moral.)

Bem, vamos partir da questão óbvia que vem logo no primeiro plano da problemática: o blackface.

Como alguns aqui sabem*, por muito tempo foquei meus estudos no campo das representações raciais e, mais precisamente, nas construções de estereótipos imagéticos vindos dos EUA pós abolição e que impregnaram as mídias mundo afora com finalidades políticas racistas.

Nessas, acabei estudando por demais as questões relativas aos usos de blackface no teatro, cinema, propaganda e afins.

De início o que digo pode até ser polêmico mas, diante dos estudos feitos, creio que posso afirmar que blackface não é apenas pintar um não-negro de preto puramente — não é o fato da caracterização em si — mas sim ter com isso a intenção de homogeneizar, ridicularizar e estereotipar toda uma raça a partir de uma imitação tosca de hábitos e traços exagerados que trazem em si a visão que o branco tem da população negra em geral ou simplesmente fazer uso deliberado desse tipo de pintura em uma sujeito branco quando se considera que essa atitude será melhor do que o uso de um negro real em um trabalho, exatamente por se considerar o negro inferior ou impróprio para estar presente nas mídias.

Nesse sentido, “se fantasiar de negro” no carnaval é blackface. A personagem Adelaide do antigo Zorra Total também cumpre a mesma função.

Essa exposição traria então um caso típico de blackface?
Não exatamente. A exposição foi uma tentativa de uma pessoa negra trazer “reflexão” sobre o racismo e o lugar do negro na sociedade brasileira.

Segundo a curadora da exposição, a ex-consulesa da França no Brasil Alexandra Loras: “Ao propor um mundo ‘invertido’, com negros em papéis de destaque na sociedade, me pergunto se faríamos os mesmos comentários preconceituosos ou se teríamos as mesmas posturas. Meu desejo é provocar uma reflexão e não resgatar uma ferramenta considerada racista e que ridiculariza o negro.”

O caso é que, independente da intencionalidade do autor, não há hoje como se dissociar figuras de pessoas brancas pintadas de negro da prática centenária do blackface. Não dá pra separar a ferramenta do conceito. Quem faz uso desse “recurso”, principalmente se das áreas de comunicação e mídia, assume o risco de bancar esse diálogo tenso com a prática racista histórica, assim como às críticas a ele.

Não há como, nos dias atuais, apostar na carta da “ignorância” ao se tratar desse assunto. A informação está aí, todas as referências e polêmicas recentes também — se a escolha é por esse tipo de representação, independentemente de estar carregada ou não da intencionalidade ridicularizadora típica, presume-se não “inocência” ou “desconhecimento”, mas deliberada vontade de polemizar para assim conseguir maior alcance.

O caso é que, pessoalmente, eu não acho o blackface em si a coisa mais grave de tudo isso. Na verdade, vejo a gravidade no sentido de que um trabalho daqueles feito por pessoas negras dá uma brecha tremenda para que se amenize casos de blackface reais postos na mídia o tempo todo — coisa que já é costume, dado que sempre que uma polêmica do tipo estoura a gente precisa lidar com as explicações sobre ter sido “uma homenagem” e as ofensas por “reclamarem de tudo, hoje tá tudo muito chato mimimi blá blá blá”.

Mas pra além disso, o que pega mesmo pra mim é a premissa da exposição como um todo:
– um mundo “invertido”
– com negros em papéis de destaque na sociedade
– faríamos os mesmos comentários preconceituosos, ou teríamos as mesmas posturas?

Toda essa premissa mostra uma concepção de racismo extremamente essencialista e intrinsecamente ligada ao reforço da lógica econômica atual. Racismo existe porque os negros são pobres, caso não fossem, estaria tudo bem. Basta inverter. A gente joga no lixo contexto histórico, joga no lixo a estrutura, joga no lixo toda a crítica que mostra que a subjugação negra têm função política e econômica dentro desse sistema para acreditar que, caso nossos políticos e celebridades fossem negras, tudo mudaria.

Pois então vamos seguir essa mesma lógica e olhar pra um País onde existem de fato políticos e grandes celebridades negras das mesmas áreas e em perfis parecidos com as figuras que a ex-consulesa resolveu “pintar” na sua exposição.

Na foto abaixo vemos:

  • David Dinkins, primeiro prefeito negro da cidade de Nova York que, por equivalência quanto a tamanho e importância, acredito que seja comparável com o prefeito de São Paulo usado na exposição (porque né, a mulher chegou agora no rolê, nem deve saber quem foi Celso Pitta e o quanto a população negra de fato “””””” melhorou “”””” muito com seu mandato);
  • Na sequência temos Beyoncé e Oprah Winfrey – que dispensam apresentações;
  • Ben Carson, neurocirurgião, psicólogo, escritor, professor, filantropo e político republicano que chegou a ser candidato na última primária do partido, assim como ficou famoso mundialmente por realizar uma cirurgia que separou gêmeos siameses unidos pela cabeça em um procedimento inédito e muito louco. Ambos políticos servem como um excelente paralelo para os políticos conservadores ou neoliberais usados pela “””artista””” com uns fundo “””étnico””” naquelas montagem que seu sobrinho faria no photoshop (e melhor);
  • Clarence Thomas, juiz da Suprema Corte Norte Americana desde 1991, grande conservador e escroto nas horas vagas;
  • Por último temos o Obama, que é o Obama né.

David Dinkins, Beyoncé, Oprah Winfrey
Ben Carson, Clarence Thomas, Barack Obama

Assim sendo, poderíamos dizer que os EUA, que conta hoje com uma população 79,8% branca e apenas 12,8% negra, está então muito a frente de qualquer outra civilização na corrida para erradicar o racismo do mundo. Muito menos negros na população geral e muito mais negros em “papéis de destaque”, certo?

Só para exemplificar o absurdo das afirmações acima, conto que só em 2015 os EUA registraram 5.850 crimes de ódio. 56% desses crimes foram motivados por racismo, sendo 52,7% contra pessoas negras. Do número restante, 21,4% foram motivados por ódios relacionados à religião e o restante se divide entre homofobia, xenofobia e demais ódios que matam. Isso sem contar os casos não notificados.¹

Nem preciso voltar pra Charlottesville, pro Black Lives Matter ou falar do encarceramento em massa.²

E por que diabos se mantém o preconceito e “”as mesmas posturas”? Porque a simples inversão ou a colocação de símbolos de poder com melanina sem a mudança das estruturas não adianta é nada. Simples. Não adianta. Não funciona. Não vai. Não desce.

Racismo não é questão de falta de prestígio ou falta de capacidade de admirar negros por eles não estarem na TV e nas colunas sociais. Pelo contrário – se a gente for colocar a simples “admiração” e “amor ao negro” como critérios, nem é difícil pensar em coisas como o filme Get Out (Corra!), nos bailes bizonhos da Vogue ou no conceito de “negrofilia”.³

Ben Carson e Clarence Thomas são, aliás, figuras políticas negras comumente usadas para justificar permanências racistas. Suas posturas conservadoras deliberadamente reforçam discursos meritocráticos, fortalecem as narrativas de que a questão racial já não importa tanto, que o negro tem as exatas mesmas chances que os demais e que é o principal responsável/culpado pela violência que sofre.

Negritude sem consciência de classe, voltada para a manutenção de poderes hierárquicos, sinceramente não serve pra nada além de gerar belas fotos pro Instagram e uns milhares de dinheiros pra poucos.

Ano passado a Gabriela Moura já precisou escrever sobre porque, aparentemente, a ex-consulesa é muito ligada MESMO nesse rolê de inversão. Na ocasião foi dito o que cabe perfeitamente nesse caso:

“…tal imagem serve em um primeiro momento para sanar algum eventual senso de justiça torto (…). Ou seja, questões como acúmulo de capital e exploração do trabalho seriam mantidas intactas. Logo, se sabemos que não podemos falar de classe sem falar de raça, não podemos falar de raça sem falar de classe. Pois a falta de indivíduos negros em situação de domínio econômico demonstra não apenas que esses indivíduos se concentram na base da pirâmide, mas, também, que EXISTE essa pirâmide, e a sua inversão pode nos dar uma sensação momentânea de justiça, até mesmo vingança, mas nos manterá em um cenário de desigualdades.”

E isso não é um “ataque”, é revolta mesmo.
Porque a gente continua alimentando a narrativa de que “negros no poder” resolveriam nossas questões sem parar para questionar esse mesmo poder. Que poder é esse? A quem ele serve? Por que ele existe? Por quem foi criado?

Até entendo que diante de tanta desgracera, ver pessoas negras fazendo sucesso e ganhando dinheiro trás de fato certa alegria e esperança para quem nunca teve essa perspectiva. Nesse sentido, nem sou dessas que grita cegamente que a questão da representatividade não tem qualquer importância e creio que há de fato um impacto positivo na auto-estima da população negra quando ela se vê representada, entretanto… Pra quê cacete eu quero um Geraldo Alckmin negro? Pra sanar meu senso de justiça e poder pensar “se brancos são uns fodido das idéia e estão no poder, então os meus também podem fazer as mesmas merdas!”?

Se aposta na perpetuação de um sistema cruel ao inverso, na manutenção de privilégios de classe com outras cores e da falta de atenção para o fato de que raça não é elemento que define caráter — o político negro não será necessariamente o bom político, o justo, o que se importa com o povo — pois há mais no jogo de identidades do que a cor do sujeito.

Há mais elementos sociais que definem o meio e a cor da pele, apesar de trazer impactos psicológicos ao sujeito negro devido ao racismo, não condiciona nosso intelecto, nossa biologia e nem nossos posicionamentos políticos e visões sociais — quem acreditava nisso aí, em um essencialismo negro intrínseco e em um caráter dedutível pela aparência era Lombroso, Nina Rodrigues e a galera do racismo científico.

A gente pode ser melhor.

A mim parece atitude de quem cansou de estar sozinha nas festinhas da alta sociedade e sonha com o dia em que vai poder estourar champanhe com políticos e personalidades negras brasileiras ao lado do seu tigre empalhado pra mandar as fotos pra França e mostrar como tem sido benevolente sua presença em tal “país emergente”.

Mas é aquilo que eu sempre digo — quem detêm o poder define o que é ou não pautado. E de fato é muito mais fácil a certas “militâncias” a permanência nos holofotes e nas mídias.

Assim sendo, faço aqui a promessa de que nunca mais eu vou colaborar para que as iniciativas de promoção pessoal de certos sujeitos ecoem por aí. Tem quem se queime sozinho.

Deixemos que assim seja, afinal, no país existem centenas de outras vozes muito melhor preparadas e com um diálogo muito mais próximo de nossas realidades — bora fazer que sejam essas as vozes relevantes entre nós.

Por Suzane Jardim 
(*Texto originalmente publicado no Facebook da autora e reproduzido aqui com sua autorização.)
Imagem destacada: da exposição “Pourquai pas”, via Mundo Negro

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1. Fonte: Southern Poverty Law Center – FBI – Uniform Crime Reporting
2. Sobre Black Lives Matter: artigo da DW e artigo da Folha de São Paulo
– Sobre Charlottesville: artigo do El País
– Sobre encarceramento em massa:
— artigo do Estadão e
— PDF “Da Escravidão ao Encarceramento em Massa: Repensando a questão racial nos Estados Unidos” de Loic Wacquant
3. Sobre o baile bizonho da Vogue no ano passado: artigo da Folha de São Paulo; e sobre “negrofilia”, post de Ito Araújo.

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