O abraço do mar e a fluidez da vida

O mar da Ilha de Moçambique é um dos mais encantadores que já vi na vida. Não pela beleza das águas cristalinas que parecem ser de uma piscina, não pelos infindáveis presentes que o Índico me deu em forma de búzios, conchas e os peixes que me alimentaram todos os dias, mas se tornou encantador por todas as coisas que os olhos não podem ver. Por todas as emoções invisíveis, que passam pelo corpo e se cristalizam nos lugares mais profundos da nossa alma.
Sempre fui fascinada por praia, cachoeira… Mas contraditoriamente sempre senti medo da água. MUITO MEDO, sobretudo do mar, como uma criança que às vezes sente medo diante de sua Mãe quando ela está brava. Mas apesar do medo, também sou ousada e me considero uma mulher de sorte porque já fui acolhida pelas águas mais lindas desse planeta, fui agraciada pelos embalos das águas do mar de Varadero em Cuba. Me senti amada pelas águas de São Tomé e Príncipe, que foi declarada reserva da Biosfera pela UNESCO e fui ensina pelo mar de Ilha Grande no Rio de Janeiro, onde tive coragem de nadar pela primeira vez na vida já com quase 30 anos de idade. Não vou fazer a burrice de comparar esses paraísos porque cada um tem a sua força e magnitude, e não é possível dizer qual desses lugares é o mais lindo ou qual gostei mais; mas sem sombra de dúvidas o mar da Ilha de Moçambique, foi o lugar mais especial que já me abraçou na vida.
Estar numa ilha de apenas quatro quilômetros que carrega mais de dois mil anos de histórias trouxe a tona vários sentimentos. Um choque entre a macro história da humanidade e a minha micro história de vida. Um turbilhão de pensamentos que me invadia o tempo inteiro, reflexões de como se forja uma nação? Como se forma uma sociedade? O que é identidade? Que se encontravam com a agonia de pensar que justamente daquele pedacinho de terra saíram muitos dos escravizados que chegaram ao Brasil, que o tal do Vasco da Gama que estava nos meus livros da escola passou por ali, o Camões do vestibular também e que apesar da Ilha ser um mar de narrativas vivas, eu em vários momentos me sentia testemunha dos velhos processos de apagamento histórico.
Vi com dor no estômago ex-mercados de escravizados funcionando como SPA, boutique-hotel e restaurantes a serviço dos neo-colonizadores que estão dispostos a dar continuidade as relações opressoras e cruéis do passado. Espaços históricos sem nenhuma menção as atrocidades a que eram destinados. Óbvio que isso me rendeu noites de pesadelo, choro, sendo eu uma mulher afro-brasileira, filha da diáspora não foi fácil olhar para tudo aquilo. E o tsunami continuou se alinhando aos meus dramas pessoais, as minhas inseguranças, a raiva e o peso da responsabilidade de criar outras narrativas não só para o mundo que eu acredito ser possível construir, mas para a minha própria trajetória de vida que revelam como eu quero ser e estar mulher nesse mundo.
E quando achei que não iria segurar a onda, de repente me lembrei que eu era o próprio mar! E as águas daquela ilha me embalaram, e me disseram que apesar do medo, da angústia, e de todas as injustiças dessa vida, é necessário se entregar, acreditar na fluidez das águas, na abundância da terra e do próprio mar. Naquelas águas eu manifestei gratidão a todos os meus antepassados, mas também descansei de todo o peso e carga ancestral que me foi transmitida por infinitas gerações. Eu jurei honrar todos aqueles que vieram antes de mim, mas também brindar a plenitude de todos aqueles que virão depois de mim. Saúdo cada um me permitindo viver a alegria do momento presente.
Fui abraçada e ensinada pelas águas a generosamente permitir que a vida flua através de mim e estou pronta para receber o melhor que esse ano e o universo me reserva. Gratidão ao mar e as terras moçambicanas!
Texto e imagens por Mafuane Oliveira.

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