Sedução ou assédio? Mais de 50 tons de cinza…

Têm surgido, ultimamente, várias denúncias de casos que não podemos classificar exatamente como violência ou abuso, mas que também não devemos considerar “naturais” (não mais).

São casos que estão em uma zona cinzenta que precisa ser discutida, embora, a meu ver, seja preferível que isso se dê no âmbito mais estrutural, justamente por eles serem comuns e para que as denúncias de episódios graves de violência não percam a força.

Para ser bem sincera, não conheço nenhuma mulher que nunca tenha se sentido coagida e desrespeitada em pelo menos uma relação sexual heterossexual consentida. Quando isso acontece, são frequentes perguntas posteriores, como: “Por que continuei ali?”, “Por que não explicitei que não estava gostando?”, “Por que ele, um cara tão bacana e até carinhoso, se mostrou tão egoísta ao desconsiderar meu prazer?”. Por que, afinal?

O desejo e a própria sexualidade são influenciados por vários fatores, incluindo a cultura. Portanto, me parece bastante óbvio que, em uma cultura machista, o machismo influencie as relações afetivas e sexuais.

Isso significa que é preciso falar sobre como homens aprendem a relacionar-se enfatizando seu desejo e seu prazer de modo falocêntrico e até autoritário, sem levar em conta, muitas vezes, os desejos e a sexualidade da mulher. E sobre como, por outro lado, mulheres aprendem a aceitar isso como parte do jogo sexual, como algo natural.

Homens estão acostumados a fazer com que sua palavra impere e sua vontade prevaleça sem precisar fazer uso da força e até sem se dar conta disso, enquanto as mulheres aprendem a ser compreensivas, tolerantes, a esconder sua vontade em nome da boa convivência e do bem-estar dos outros e da relação, não importa quanto isso lhes custe.

Obviamente, faço generalizações aqui para podermos pensar em papéis sociais. É necessário discutirmos como eles influenciam a sexualidade e o desejo não para que as pessoas abram mão do que gostam (e não importa o que seja) ou aprisionem e condicionem a expressão da sua sexualidade, mas, ao contrário, para que entendam como ocorre o processo de influência da cultura na sexualidade e possam ir além com autonomia, sem se deixar limitar por ele.

Liberdade significa, também, pensar o desejo e como ele se estrutura, e ir além disso. Entender que hoje há uma mudança nos papéis sociais que questiona o que antes era aceitável, embora desagradasse uma das partes.

O filósofo e escritor espanhol Paul Preciado, que é um homem trans estudioso das questões de gênero, escreveu uma carta recentemente em que chama a atenção para a importância do “consentimento e a não naturalização das posições sexuais”, da “equivalência dos corpos e a redistribuição de poder”.

Entre corpos que não disputem ou imponham poder, vale tudo que agrade de fato a ambos.

Por Mariana Varella
Imagem destacada: divulgação do filme 50 Tons de Cinza

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