BBB: o Batalhão do Backlash Brasileiro

Francisco Bosco segue firme na liderança do BBB – o batalhão do backlash brasileiro – e fez essa semana uma postagem que me deixou com bastante raiva. Sim, eu sinto raiva, não me envergonho disso. Ponderei se deveria ou não responder, e menos porque não queria faze-lo enquanto estava com raiva, mas mais porque eu gostaria mesmo de simplesmente ignorar suas proposições antifeministas. Mas a linha de pensamento de seu post (assim como de seu livro) é tão típica do backlash que optei por escrever este texto.

Não tenho implicância com Bosco, e tenho certeza que ele tem qualidades inestimáveis. Não é pessoal meu posicionamento, e minha crítica não é a seu caráter – via de regra escolho não tecer comentários sobre o caráter das pessoas, menos ainda das que não conheço.

Minhas críticas tampouco são feitas pelo fato de ele ser homem. Ser feminista não significa negar argumentos somente porque eles são feitos por homens. A perspectiva feminista é aquela que reconhece que nossos corpos e identidades são constituídos em um campo social que, apesar de não ser estanque, está organizado de forma desequilibrada entre homens e mulheres. Como feministas, questionamos os significados de ser mulher a partir das experiências de quem está do lado que menos se beneficia deste desequilíbrio, portanto é inevitável que questionemos também o que é ser homem.

Onde há desequilíbrios, os apontamos para que possam ser calibrados. Isso inevitavelmente mexe com significados, e é assim que nossos questionamentos acabam por estimular a atualização de conceitos como autonomia, agência, liberdade, identidade, propriedade, a lei, ou sexo.

Se concordamos que há desequilíbrios, e que quem está em desvantagem tem aptidão para aponta-los na direção de necessárias mudanças, não é preciso insistir na confusão entre táticas feministas que provocam ressignificações urgentes e cerceamentos da liberdade. E sobre questões recentes relacionadas a sexo, muita gente vem fazendo exatamente isso.

Para que meu empreendimento continue fazendo sentido, é preciso conhecer tal postagem, e avaliar seus conteúdos.

 

Bosco começa assim:

“Não pretendo mais atuar com intensidade no debate sobre feminismo no Brasil. Escrevi um livro, dei inúmeras entrevistas, fiz debates – já dei minha contribuição.”

O que mais me chama atenção aqui não é seu senso de auto importância no debate feminista, porque essa ilusão de relevância afeta muitos homens. Tampouco é a percepção de que sua contribuição tenha sido ao feminismo. Sua contribuição é ao backlash, que não é mero reacionarismo como ele pensa, mas se constitui precisamente de homens falando que o feminismo é responsável pelos males que acometem as mulheres.

O que mais chama atenção, por estar tão explícito no texto, é sua falta de compromisso com os objetivos do feminismo. Ao não apenas superestimar uma contribuição que nem ao feminismo é, e afirmar ter encerrado suas atividades no movimento, fica patente que sua intenção não é lutar pela equalização das relações entre mulheres e homens, mas sim tutelar um movimento robusto que, como ele também demonstra não saber, é bastante crítico e se autorregula nas tensões da própria pluralidade.

Ele segue:

“Mas hoje li um artigo na Folha que me levou a quebrar momentaneamente essa resolução. Nele, a articulista defende a pertinência da denúncia contra Aziz Ansari, com o seguinte argumento: “como define uma cartilha que li sobre criar meninos, “não é não”, e “talvez” também deve ser encarado como “não”.

Ou seja, ela defende que o homem seja responsabilizado pela hesitação sexual da mulher.”

Aqui é possível verificar a confusão que, infelizmente, não é só dele.

O “não” e o “talvez” são signos diferentes porque servem para sinalizar intenções diferentes. Não é não, mas o valor nominal do “talvez” é a ambiguidade, a dubiedade. Isto não está em disputa.

Se feministas sugerem que o “talvez”, em interações sexuais, seja tratado como um “não”, é precisamente por entenderem que as formas como as interações sexuais entre homens e mulheres estão constituídas são desiguais, e são as mulheres que amargam as consequências violentas dessa desigualdade. A nossa cultura já ensina os homens que o “talvez” é um “sim” esperando para ser convencido do contrário. Por zeus, na nossa cultura precisamos ainda salientar que “não é não”.

Seduzir alguém que está na zona do “talvez” pode mesmo ser um jogo divertido para as partes envolvidas. Mas todos os jogadores precisam estar cientes do jogo, e nenhum deve pressupor que o “talvez” seja um “sim” esperando para ser conquistado. É preciso partir do pressuposto de que o “talvez” é um “talvez”, e que quando não é possível identificar para que lado ele vai pender, o mais prudente é optar pela via do “não”.

É a lógica do “na dúvida não ultrapasse”. Há trechos da estrada onde é permitido ultrapassar, mas se não conseguimos ver se um veículo está vindo na direção oposta, não é prudente faze-lo. Num universo de abuso sistêmico contra as mulheres pela via sexual, os novos parâmetros das relações sexuais precisam contemplar que o “talvez” seja um “não” antes de presumir um “sim”.

Na dúvida, não ultrapasse. Na dúvida, não cometa violência sexual. Não deveria ser tão difícil.

Mas Bosco segue, e piora:

“O homem deve saber o que a mulher não sabe sobre seu próprio desejo.”

Não, campeão.

O homem deve saber que a mulher a quem ele está seduzindo talvez não tenha ainda decidido se vai ou não levar até o fim o seu desejo por ele, e deve ser respeitada em sua decisão. É egocêntrico desconsiderar a experiência do outro, e é violento agir a partir dessa desconsideração.

É também bastante machista, e mesmo misógino, concluir que mulheres não sabem de si mesmas e do próprio desejo a partir de nossas narrativas sobre o desequilíbrio nas relações sexuais entre homens e mulheres. Uma mulher pode não ter certeza sobre a interação sexual que está vivenciando, e isso não significa que ela desconheça o próprio desejo. E ela tem o direito de não ter essa certeza sem ser violentada por isso.

Para ilustrar ainda melhor meu ponto, vou tira-lo da seara do sexo e fazer uma analogia comezinha. Ontem uma amiga me convidou para almoçar e falei que talvez fosse. Na hora decidi não ir, pois não quis interromper meu fluxo de trabalho. Estava com fome, mas não disposta a sair para almoçar com ela. Avisei, e a reação dela não foi vir até minha casa e me forçar a ir ao restaurante, pois ela respeita minhas decisões e entendeu que meu “talvez” virou um “não”. Remarcamos o almoço, e vida que segue.

Sim é sim, não é não, e talvez é talvez, e se existe alguma confusão entre eles quando a situação não é uma ida a um restaurante, mas sim uma relação sexual, por que insistir em interpretar o “talvez” como “sim” quando o “não” é o que previne violações da autonomia e do pleno direito ao corpo de cada um? A mente ferve.

Para justificar sua prerrogativa sobre os problemas psíquicos atrelados a certas posturas feministas (e não é que problemas psíquicos atrelados a certas posturas feministas não existam, mas não são esses que ele descreve), Bosco então parte para uma elucubração a partir do notório feminista Slavoj Žižek:

“Ora, o psiquismo do sujeito é dividido. como lembrou Zizek em um texto recente, muitas vezes, em interações sexuais, o ego recua, sob pressão do superego, mas o id pressiona para avançar; ou o ego autoriza, levado pelo id, mas o superego acende o sinal vermelho da culpa. Nós somos constitutivamente divididos. “Sim é sim”, “não é não” – mas talvez não é. Diferentemente do sim e do não, o talvez não é idêntico a si mesmo. Ele é divisão. Ao responsabilizar o homem pela sua própria divisão, a mulher está sim se propondo uma autoimagem infantilizada.”

Não é infantil estabelecer que o “talvez” das mulheres não autoriza os homens a interpreta-lo como “sim”. Me parece ser mais infantil insistir nessa confusão. (E talvez a atribuição correta nem seja “infantil”, mas “narcísico”.)

Curtir o jogo do “talvez” é absolutamente compreensível, e é com cada um. Mas é um jogo, que envolve mais de uma pessoa, e nosso desejo individual não é o único a determinar para onde o jogo vai, e sim os desejos das partes nele envolvidas. Não é o nosso próprio desejo que serve de régua para normas de conduta sexual, mas o respeito mútuo entre os participantes da sedução.

Esse jogo de pressões entre id, ego e superego pode ser gostoso, ou não, e isso só se descobre jogando, é verdade. O que nem as pressões da psique nem a dubiedade do “talvez” podem é servir de justificativa para leituras erradas que levam a abuso sexual, ou mesmo para relações sexuais que sejam ruins para um dos participantes.

Na dúvida não ultrapasse. Na dúvida não violente. E sempre evite tratar mulheres como meros receptáculos de tesão, pois somos agentes ativos do nosso, e o tesão de todos os envolvidos é o que deve compor uma interação sexual.

Se estamos falando que interpretações atuais do “talvez” causam abusos e relações sexuais ruins, isso não é “responsabilizar os homens pelo desejo das mulheres”, mas sugerir que os homens tomem responsabilidade pela própria conduta, para que não seja violenta, e pela própria performance, para que não seja egoísta. Desconfio que a dificuldade para assimilar essas diferenças resida na dificuldade de se reconhecer como, digamos, motorista imprudente.

Ele segue.

“Cabe perguntar, no contexto desse tipo de caso, sobre o porquê. Me parece que está em jogo aí uma espécie de vingança. A mulher (protegida pelo anonimato) se ressente com a percepção de que o homem (Aziz Ansari) “se deu melhor” na interação sexual, porque o seu psiquismo, aparentemente, estava íntegro, unívoco, enquanto o dela estava dividido. Ele sabia o que queria; ela não sabia. Ele gozou com a situação; ela não. O que ela faz então? O responsabiliza e o denuncia. E por que pode fazê-lo? Porque há agora um discurso social que autoriza e legitima essa espécie de vingança.”

Estamos há anos, e a duríssimas penas, construindo discursos sociais que nos autorizem a falar sobre nossas experiências de opressão. Hoje em dia não é preciso nem estudar feminismo para saber disso – filmes e seriados disponíveis na Netflix, como As Sufragistas, ou OITNB, ou Ela Quer Tudo, por exemplo, ilustram as mais variadas frentes e motivações da nossa luta.

A construção desses discursos se dá bastante pelos nossos compartilhamentos de experiências, e não é difícil perceber a constituição dos padrões de desigualdade que eles revelam. São estes padrões o que legitima nossos contínuos esforços para resolver a opressão sistêmica a que somos expostas. Sabemos não poder esperar que os homens tomem iniciativa, assim como sabemos que a mudança é impossível sem que suas péssimas condutas sejam no mínimo declaradas. É preciso mostrar o que precisa ser visto, por pior que seja a vista.

Fazer isso não é executar planos de vingança, e chega a ser cômico que pensem assim. Se as mulheres estivessem em busca de vingança, e não de equilíbrio e aprimoramento das nossas relações com homens, creio que levaríamos alguns milhares de anos para conseguir fazer isso. Seria preciso confinar homens ao lar, criar poucas e restritas narrativas sobre o que é ou não aceitável eles fazerem, questionar sua sanidade toda vez que eles falam, infantilizar seus atos políticos, regular suas fertilidades, abusa-los sexualmente e assassina-los sistematicamente por serem homens, e persuadi-los de que tudo isso é para seu próprio bem.

É urgente pararmos de confundir táticas de equalização com desejos sórdidos por vingança. E sugerir que um projeto político por equidade seja cortina de fumaça para esconder nossos mais mesquinhos recalques faz pouco além de demonstrar desconfiança a respeito não apenas do que dizem as mulheres, mas também das nossas capacidades cognitivas. E deslegitimar o que dizem as mulheres colocando a culpa disso no feminismo é o próprio backlash.

O que me leva para a finalização do post, uma cereja neste bolo de confusão machista:

“As pessoas que estão legitimando ESSAS DIMENSÕES desse discurso são cúmplices disso. Depois ficam se lamentando que “oh, lá vem o backlash”, como se qualquer crítica fosse reacionarismo. Sinto dizer, mas é justo por causa da incapacidade dessas pessoas de fazer as devidas distinções que o backlash deverá vir mesmo.”

Quanto mais tenta justificar sua leitura social equivocada, mais Bosco demonstra não entender a epistemologia feminista. Responder apontamentos de machismo com ainda mais machismo é o que ele faz para falar de backlash, e sua interpretação do fenômeno é tão atrapalhada que ele talvez nem se dê conta de estar colaborando com ele.

As pessoas que estão “legitimando ESSAS DIMENSÕES desse discurso” estão sendo coerentes.

E para compreender isso é preciso admitir que mulheres são capazes de observar as dimensões de um discurso, e de apontar onde há desequilíbrio nelas. Visto que estamos falando de questões sistêmicas, não deveria ser tão complicado de compreender que as muitas dimensões dos muitos discursos perpassados por gênero estão constituídas sobre desequilíbrios estruturais de poder entre mulheres e homens.

Quando apontamos desequilíbrios, não o fazemos criando mentiras vingativas, mas demonstrando verdades inconvenientes. Sabemos que são inconvenientes, e sabemos que são os homens que precisam lidar com o desconforto que isso causa neles. Se para os homens é desconfortável se descobrirem agentes de estruturas de opressão, lembrar que para as mulheres pode ser letal estar nelas deveria colocar o desconforto em perspectiva.

O backlash é uma prática eficaz precisamente porque é fácil de embarcar nela, e por isso o fenômeno se repete com tanta facilidade sempre que as mulheres avançam. Foi assim na época das sufragistas, é assim agora. E seus sinais, para quem sabe lê-los, estão postos.

Ao dizer que algumas mulheres apresentam uma “incapacidade de fazer as devidas distinções” e que por isso “o backlash deverá vir mesmo” Bosco comete o backlashception. Não apenas ele desqualifica o intelecto das mulheres que já infantilizara com suas análises psicanalíticas tortas, como coloca na nossa conta o backlash que ele mesmo faz.

E então, 200 anos depois do acúmulo epistemológico de minuciosas investigações
e criteriosas análises que compõem todo um campo de conhecimento crítico que se autorregula
nas tensões da própria pluralidade, vamos escrever livros nonsense e ser chamadas para opinar que eles estão divididos entre “bons” e “maus” feministos.

É evidente que toda luta por equidade produz extremismos. E é óbvio que importa explorar as áreas cinzentas de qualquer movimento ou ações que visam mudanças sociais profundas. E é importante nos preocuparmos com os excessos que podem surgir das táticas de exposição de opressões e abusos.

Mas nada disso justifica colocar em quem denuncia a responsabilidade pelos males que a ação denunciada causa, muito menos sem perceber que a tomada de responsabilidade pela mudança exigida na denúncia não é do denunciador, mas do denunciado.

Em bom português, se mulheres apontam em massa que a forma como os homens lidam com as relações sexuais é organizada a partir da naturalização de abusos de poder, cabe aos homens repensar sua responsabilidade por práticas sexuais que dizemos ser inaceitáveis.

Sugerir que mulheres denunciam abusos por vingança, que se vingam por conta da frustração por não serem capazes de distinguir sedução de abuso, e que essa falta de discernimento está atrelada a uma autoimagem infantilizada que temos de nós mesmas não é ter coragem para tocar num ponto sensível nem matizar um debate polarizado. Homens falando por nós e para nós que o problema somos nós é tática velha de controle das mulheres pela deslegitimação de nossas falas. Backlash detected. Adeus, mano velho.

Por Joanna Burigo
Imagem destacada: Big Brother Brasil/Divulgação

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