E o bebê, quando vem?

Festas de família e a necessidade de falarmos honestamente sobre maternidade compulsória.

No Dia das Mães do ano passado escrevi um post falando sobre a polêmica “mãe de gato x mãe de pet”. Minha conclusão era que o feminismo e os movimentos sociais em geral gastam tempo demais com problematizações desnecessárias. Nos comentários uma mãe mencionou diversos problemas relativos à solidão materna e como as mães ficam sobrecarregadas com os cuidados das crianças. Ela disse que precisava brigar por isso, sim, pois infelizmente havia pessoas que não conseguiam enxergar o óbvio: cuidar de um animal não é a mesma coisa que cuidar de uma criança.

Foi um tapa na minha cara, pra lembrar que mesmo depois de tantos anos de feminismo não dá pra gente achar que sabe tudo e que pode falar por todas as mulheres. Embora tenha tomado conhecido, por conta da militância, de diversos problemas vividos pelas mães* – dificuldades de ter um parto normal, violência obstétrica, solidão materna, entre outros, eu percebi que muitas vezes me senti aliviada por nunca ter caído nesta cilada.

A frase acima é horrível porque foi escrita para ser horrível mesmo. Pois é muito comum que feministas que não tem filhos se sintam ressentidas com os amigos que não saem mais, pelos programas em horários e locais próprios pra criança e porque você não consegue mais ter uma conversa que não seja sobre criança. Demorei para me dar conta que muitas vezes eu estava julgando as mães ao invés de me solidarizar com elas, representando um papel horroroso, a de feminista que se acha melhor e mais esperta porque não teve filhos.

Conto isso com um pouco de vergonha, mas acredito que é preciso falar de como nos demos conta de nossos closes errados. É melhor fazer autocrítica e aprender com eles do que fingir que nunca existiram ou que já nascemos prontas.

Atualmente eu tenho buscado conversar com mães sobre como tornar os espaços políticos mais inclusivos para mães e crianças e também como ser mais solidária com as pessoas que têm filhos. Coisas que eu não me dava conta porque nas festas estou sempre socializando com os adultos. Eu também era partidária do “se precisar de ajuda me chama”. A primeira coisa que eu aprendi quando comecei a perguntar para minhas amigas o que poderia fazer para ser mais solidária era que as mães não pedem ajuda porque estão acostumadas a dar conta de quase tudo (ou tudo) sozinhas.

Se você não se oferecer pra ajudar aquela mãe que está no transporte público com um bebê num braço, uma bolsa e uma sacola enorme a ponto de mal conseguir se equilibrar ela dificilmente pedirá ajuda. Ela vai dar um jeito. Mas se você oferecer ajuda é bem provável que ela aceite. A mesma coisa com as pessoas idosas carregando malas e volumes pesados. Não espere um pedido de ajuda, ajude porque você está vendo que a pessoa precisa.

É preciso falar de como nos demos conta dos closes errados

Hoje eu já sei que se visitar um recém-nascido é de bom tom levar comida e se oferecer pra ficar com o bebê para a mãe poder tomar um banho. Que amamentação dá muita sede, por isso se vir uma pessoa amamentando pergunte se ela quer água. Aprendi que criancinhas que acabaram de aprender andar gostam muito de circular pra cima e pra baixo. Esse serumaninho precisa ter alguém andando atrás dele só se assegurar se ela não vai comer terra ou tentar escalar uma estante cheia de vidros ou dar com a cara no poste. Qualquer pessoa pode fazer isso, não precisa ser a mãe. Não é difícil e dá um tempo pra mãe poder sentar um pouco, participar dos debates, comer uma refeição inteira antes que esfrie ou conversar com outras pessoas.

Pode parecer tudo muito óbvio pra quem convive com crianças. Não era pra mim, que deixei de conviver com crianças desde que era uma adolescente besta que achava bonito falar que odiava criança. Outra coisa que eu aprendi é que a maternidade não é difícil apenas na infância, pois todo o bebê lindinho de hoje será um adolescente daqui uns anos. As pessoas estão tentando lidar com isso de acordo com novos modelos de educação que não sejam baseados em recompensa e punição, mas se acontecer qualquer coisa de ruim quem será responsabilizada pela família e sociedade? A mãe.

“E o bebê, quando vem?”

Atualmente tenho acompanhado nas redes sociais um movimento de expor a maternidade real, sem romantizações e idealizações. Acho que deveríamos tratar a não-maternidade da mesma forma: sem uma suposta superioridade de quem não tem filhos, mas abordando as consequências da decisão de não tê-los. Eu sempre me sinto mal no Dia das Mães, por exemplo. Essa imagem da mulher que só se realiza plenamente na maternidade me atinge, por mais racional que eu procure ser. Do mesmo modo eu me sinto mal nas festas de família no final do ano. “E o bebê, quando vem?” é a frase que substitui “E os namoradinhos?” na vida das mulheres cis casadas.

Pra mim o pior desta pergunta é que eu realmente não sei. Nem quando, nem se vem algum bebê algum dia. Provavelmente não vai vir bebê do meu útero, talvez eu adote uma criança um dia. Ou não. Talvez eu me arrependa de não ter passado por essa experiência. Tenho 37 anos e que os meus óvulos estão envelhecendo mais rápido que a minha cara e não tem anti-rugas pra passar no meu aparelho reprodutor. Eu sei que os riscos da primeira gestação nesta idade são maiores e tendem a aumentar. Eu já sei, ok? Nada do que me disserem vai fazer com que eu saia correndo para farmácia comprar ácido fólico ou ir a uma clínica congelar meus óvulos para garantir algo que eu nem sei se quero.

A verdade é que ser mãe nunca foi o sonho da minha vida. Eu queria muito poder estar sossegada com isso se volta e meia não tivesse que prestar contas para semi-conhecidos de uma decisão tão íntima. Porque as pessoas perguntam. Num dia é a moça de 17 anos da minha aula de Muay Thai. No outro é avó 78 do primo do meu cunhado. Não posso segurar um bebê sem ouvir que estou treinando, não posso me comover com a fofura de uma criança sem ouvir “faz um pra você”. Mas o pior é ouvir a pergunta: “e o seu marido não quer?”. Não basta estamos num país que em os nossos úteros estão sob a jurisdição do Estado, nós estamos numa cultura em que a vontade dos maridos é vista como mais importante, ainda que o abandono paterno seja uma realidade.

A verdade é que ser mãe nunca foi o sonho da minha vida.

Ser uma mulher cis hétero casada e sem filhos é lidar com olhares de desconfiança dos outros, que supõem que alguma coisa deve estar errada com você ou com seu relacionamento. Porque se supõe que um casal feliz queira ter filhos. Ser uma mulher cis hétero casada e sem filhos é lidar com a sua desconfiança em relação a seus desejos e racionalidade. É achar que há alguma coisa errada com você por não sentir a menor vontade de gerar um ser humano, parir ou amamentá-lo. É se sentir anormal pela falta de um desejo apregoado como instinto. Porque o senso comum acha que as mulheres que não têm filhos são egoístas e frias. Falam que até ter filho você não sabe o que é ser feliz, que não sabe o que é amor de verdade. É viver com o peso do “E se?”. Será que eu não vou mudar de ideia? E se eu mudar, será que vou conseguir conceber?

É um horror conviver com isso. Assim como é um horror as pessoas dizerem que “ah, dá tempo, hoje até os 45 é tranquilo”. Primeiro que eu nem sei se isso é verdade, segundo que eu não sei se vou mudar de ideia até os 45. Porque pra mim gerar um filho diz respeito a um desejo que eu não sinto e eu acho que colocar um ser humano no mundo é uma tarefa séria demais para fazer sem ter absoluta certeza do que se está fazendo.

Colocar um ser humano no mundo é uma tarefa séria e exige certeza.

Eu tenho consciência de que isso é um privilégio. Que poder escolher quando ter filhos ou mesmo SE eu  quero não está acessível para a maioria da população, e tenho certeza de que ficaria destruída emocionalmente se fosse obrigada a levar adiante uma gestação contra minha vontade. Por esse motivo creio que é importante falarmos sobre a maternidade compulsória e suas consequências. Tanto sobre quem tem o privilégio de escolher, sobre como a forma de lidar com nossas escolhas e seus desdobramentos. Parece-me urgente sair de um campo de disputa sobre quem seria melhor feminista, se é aquela que se realiza na maternidade ou se é aquela que conscientemente optou por não vivê-la.

Estamos lidando com uma sociedade que tenta controlar o corpos das mulheres cis (e demais AFABs**) nos reduzindo a um papel, como retrata brilhantemente a distopia de horror The Handmaid’s Tale.

Contudo, minha vivência como mulher cis hétero com mais de trinta anos e sem filhos me mostrou foi que é dos diálogos honestos com as pessoas com quem quero lutar junto é que surge força e conforto para lutar contra o patriarcado, nosso inimigo em comum. Não é por acaso que a frase que mais me conforta com relação ao fato de não ter filhos (“se não quiser muito é melhor não ter”) costuma vir justamente da boca das mães. Inclusive da minha.

Por Fhoutine Marie
Imagem destacada: still do filme Mãe! 

*Uso a palavra mães ao invés de mulheres que são mães, não na intenção de reduzir a identidade delas à maternidade, mas em respeito às pessoas trans que são mães e que não se identificam como mulheres.
** AFAB: Assined Female At Birth (Designada mulher ao nascer), termo aplicado a todas as pessoas que ao nascer são identificadas como sexo feminino, independente de sua identidade de gênero. 

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