O que é que eu vou fazer com essa sororidade?

A palavra sororidade vem sendo bastante usada entre mulheres no movimento feminista como forma de reconhecimento e incentivo a união. Seu significado muitas vezes é colocado à prova em meio a discussões onde agentes discordam em algum ponto, já que o próprio feminismo é um movimento político com diversas vertentes que divergem entre si.

A etimologia é do latim sóror, que significa “irmã”. Este termo pode ser considerado a versão feminina da fraternidade, que se originou a partir do prefixo frater, que quer dizer “irmão”.  Aportuguesada, ela é e aplicada diretamente – e muitas vezes equivocadamente – como opção, reforço ou sinônimo ao conceito de Feminismo.

Numa breve pesquisa é possível encontrar a definição da palavra sororidade como sendo a união e aliança entre mulheres, baseada na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum. Podemos encontrar também como sendo o não julgamento prévio entre as mulheres, já que esse fomenta a rivalidade fortalecendo estereótipos de que mulheres competem entre si, um produto da sociedade patriarcal como tática de enfraquecimento das mulheres.

Segundo Babi Souza, jornalista, idealizadora do projeto “Vamos Juntas?” e autora do livro Vamos Juntas? O Guia da sororidade para todas, sororidade é o “olhar carinhoso para outra mulher”, a “união e a aliança entre mulheres para alcançar objetivos comuns”, é “enxergar outra mulher como irmã na luta por direitos iguais”, é a “versão feminina da palavra fraternidade”.

Onde ela se encontra?

Atualmente é possível encontrar a aplicação do conceito de sororidade nas mais diversas situações, tais como as relações comerciais entre mulheres, dentro de corporações, no empreendedorismo, na Academia e até em Hollywood. Inclusive dentro dessas relações mais informais, e em razão da falta de conhecimento de seu significado, é possível ver a sororidade sendo invocada como tentativa de aplacar ânimos exaltados quando algum grupo de mulheres diverge. “Em nome da sororidade: não briguem”.

Acontece que a sororidade não é uma coisa em si; ela, assim como tantos conceitos subjetivos, depende das percepções dos sujeitos. Em outras palavras: como praticar e aplicar a sororidade sem autoconhecimento, sem conhecimento de suas potências e suas fraquezas? Assim como o uso excessivo e equivocado da palavra empoderamento levou à banalização do conceito, precisamos ter cautela no uso da palavra sororidade, sob o risco de desvirtuarmos o seu significado antes mesmo de conhece-lo.

Como aplicar a sororidade?

Se a sororidade pressupõe a efetiva relação de irmandade, uma união em prol de um objetivo comum, inevitavelmente precisamos falar da capacidade de ultrapassar as barreiras do ego. Para ultrapassar as barreiras do ego, precisamos assumir que somos humanas e, portanto, falíveis, passíveis de cometer erros, de sucumbir a vaidade e de competir. Essas são características humanas e não exclusivamente de “natureza feminina”. Para combatermos e nos livrarmos dessas tendências, é preciso muito autoconhecimento e passar pelo doloroso processo de individuação. Quanto mais me conheço, melhor posso entender o outro racionalmente.

Daqui do lugar de onde eu falo – minhas perspectivas e vivências pessoais – não vejo a possibilidade de aplicarmos qualquer conceito sem antes entendermos o motivo pelo qual ele pode ou deve ser aplicado, principalmente quando esse conceito está diretamente ligado ao gênero. Como disse Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher, torna-se”, nessa frase ela nos convida a refletir e investigar o que de fato significa ser mulher. Acredito que nos tornamos mulheres quando entendemos que nascer mulher é um ato político, e isso pode levar uma vida (ou nunca ser compreendido). A partir do momento que começo a entender o que significa ser mulher, passo a entender a necessidade do feminismo; da mesma forma, a partir do momento que consigo entender o que a união entre mulheres pode alcançar é que posso entender a necessidade da sororidade.

Quando começo a entender a realidade em que estou inserida pela condição imposta a partir do meu gênero, e apenas e tão somente em razão dele, eu consigo entender quais são algumas das limitações de outras mulheres. Se essa reflexão não for genuína, se eu ainda não consegui conceber o que é diálogo e respeito as diferenças, como aplicar e praticar a sororidade? Não podemos assumir que uma palavra cujo conceito é tão subjetivo tenha o poder de modificar ou melhorar as relações humanas. Isso só será possível a partir do autoconhecimento e da autoconsciência.

Apenas com profunda investigação, conhecimento de si e do contexto em que estou inserida é possível entender e conhecer o viés invisível que nos liga umas às outras. Somente com clareza das minhas próprias dores, habilidades, necessidades e deficiências é que posso ser capaz de entender e praticar a sororidade num ambiente divergente, heterogêneo, singular, mas com objetivos comuns.

São inúmeros os ambientes em que a mulher vem sendo colocada como protagonista. É a partir do árduo trabalho feminino por espaço e direitos que surgem o empreendedorismo feminino, o empoderamento feminino, ações empresariais afirmativas pelo desenvolvimento profissional da mulher para alcance da paridade de gênero. É claro que devemos saudar e comemorar cada uma destas conquistas, mas não podemos cair na armadilha de dizer que a sororidade já compõe ambientes femininos. Para chamar ligações entre mulheres de sororidade, temos que trabalhar muito nossos egos, vícios e vaidade.

A psicóloga holandesa Karin Jironet, no seu livro Liderança Feminina, aborda esses aspectos da personalidade que interferem numa maior união entre as mulheres e consequente aplicação da sororidade.  Segundo Karin, muitas de nós conseguiu obter cargos de liderança copiando o comportamento masculino, fazendo uma gestão mais agressiva e competitiva, sempre muito alerta e cautelosa essa mulher dificilmente abrirá espaço para uma nova colaboradora com potências grandes de crescimento, ela vai temer e se manter vigilante e dificilmente estenderá a mão, como então pedir que em nome da Sororidade ela acolha essa recém-chegada?

Só poderemos falar da aplicação da sororidade em esferas sociais como o empreendedorismo e o ambiente corporativo, a partir do momento que entendermos sua aplicação e implicância em nossa vida privada, sob pena de cometermos os mesmos equívocos que cometemos com o empoderamento.

Isto é sororidade?

Eu não posso, em nome da sororidade, pedir para que uma profissional baixe o preço de seu serviço. Eu não posso, em nome da sororidade, pedir para que minha colega de trabalho faça a minha parte no projeto. Eu não posso, em nome da sororidade, pedir que minha chefe me promova. Eu não posso, em nome da sororidade, exigir ser tratada conforme eu desejo e sem retribuir na mesma medida, apenas e tão somente porque o gênero nos liga umas às outras. Isso é por demais superficial e infelizmente é o que vem acontecendo amiúde.

Não vamos conseguir aplicar a sororidade em nenhuma esfera da vida se não aceitarmos e compreendermos que, primeiro: ela parte da nossa capacidade de conhecermos a nós mesmas; segundo: da nossa capacidade de empatia; terceiro: da nossa capacidade de entender a outra sem projeções e respeitando suas subjetividades; quarto: de compreendermos qual é o viés invisível que nos liga (nosso ponto de dor comum). Depois disso, e somente depois, é que podemos nos dedicar a aplicar a sororidade de fato.

Podemos criar e preparar ambientes para que a sororidade cresça e floresça. Podemos e devemos fazer isso, incentivando a capacidade socioemocional das nossas parceiras, clientes e colaboradoras, promovendo ambientes menos competitivos e mais empáticos, fomentando diálogos e mediando conflitos, ou propondo ações coletivas de vantagem comum.

Precisamos ter cautela para não tentarmos impor cada uma a sua versão de sororidade, a sua versão de igualdade, gerando no fundo uma competição sobre quem é mais feminista e justa. Não podemos esquecer que nosso comportamento vem sendo desconstruído a duras penas, e isso implica a compreensão e a paciência de quem se propõe a conduzir mudanças.

Penso que somente a partir do entendimento profundo e da disseminação do conceito, da maneira mais equânime possível, é que poderemos pensar em aplicá-lo em ações sociais.

Por Ana Carolina Moreira
Imagem destacada: detalhe de instalação de Hannah Wilke

Este texto foi utilizado como referência para a produção da matéria “Verbete Draft Feminismo no Negócios: O Que É Sororidade” e reproduzid0 aqui a pedido da autora. 

 

Comments

Comentários