A Marielle Franco em mim

É com muita dor interior que começo a escrever este texto. Bem assim mesmo, em um lampejo de coragem, que pensei ter sumido, quando enfim entendi as implicações práticas: as da vida quotidiana que a morte de Marielle Franco terá no meu dia-a-dia.

Temos muitas coisas em comum: mulheres, negras, de origem humilde e que batalharam demais para serem respeitadas nos meios em que vivem… ou que viveram! Não sou tão corajosa e poderosa como ela. Por isso sinto certa vergonha… Me afastei um pouco de debates políticos e militâncias, pois infelizmente eu estava adoecendo. Mas preciso falar, nem que seja a última vez.

Todos os dias tem um branco me dizendo o quanto sou privilegiada. Das mais variadas formas. Quando me visitam em casa e tomam do meu vinho muito bem escolhido, ou quando me encontram em um show caro, situado em um bar da moda em São Paulo. Me dizem isso por acharem que não pertenço àquele lugar.

Eu sei! Até este ponto, nada de novidade… Não é à toa que meus trabalhos tem sido voltados para demonstrar que o racismo estrutural existe e precisa ser combatido em todas as frentes. Trabalhos de formiguinha, certo que sim… Não me preocupo mais com a relevância deles, mas sim com a eficácia em pequena escala. Não tenho a coragem e a força de Marielle. Meu amor pelo mundo não me torna tão forte…

Mas minha questão para essa fala, vem do íntimo, do quotidiano. Da possível impossibilidade de não me reconhecer em quem me tornei. Da dor de se reconhecer em uma morte violenta, impiedosa e ininteligível. Não tenho a audácia de me comparar a Marielle. Mas entendo que me sinto muito muito próxima do pânico, com os audaciosos que podem se comparar aos seus assassinos.

É comum, em quase todos os dias da minha vida, perceber ou sofrer algum tipo de assédio ou demonstração de preconceito. São os leões que mato todos os dias, apoiada nos meus amores e amigos. De outro modo, entendo que a morte de Marielle abre precedentes para a violência do quotidiano.

Aquele ódio engasgado na garganta do machista que te assediou, mas não se sentiu legitimado o bastante para ir em frente. Aquele tapa ou cusparada de uma racista que não consegue entender porque o namorado da preta, é o cara que povoava os sonhos dela. Aquele horror ou truculência mediados por uma cota… que no meu caso, infelizmente não usei porque nem sabia da existência dessas políticas públicas de ação afirmativa, mas que um branco pensa poder obter. Ou ainda, por você se intitular feminista.

Como lidar com essa dor recalcada dentro da estrutura que mantém as questões ligadas às nossas pautas como inimigas, tendo eles agora o precedente, a legitimação da ação? Tenho recebido ameaças. Apesar de tomar as providências necessárias, tentar me acautelar o máximo possível, só consigo ver esta situação com os olhos do medo.

Ando de ônibus todos os dias, pois acredito que devemos lutar por mobilidade urbana para todos. Trabalhei e trabalho com projetos sociais e atendimento à “clientela” em zonas de risco e/ou baixa renda. Me envergonho de dizer que hoje tive medo de ser quem sou. Lutei por mais de trinta anos para me construir. Hoje… temi por minha integridade mental e física. Cancelei minha ida ao mercado e a aula de dança porque não consegui sair de casa. Não consigo entender como o discurso de ódio tem se mantido com tanta força, naturalidade e fluência por toda fala brasileiro médio opinante.

Não consigo vislumbrar corretamente o que quero com esse desabafo… Estou aqui há um tempo, em frente ao computador, tentando desvendar o que essa fala representa para quem vai ler. Talvez seja um pedido de alteridade. Um desejo profundo e íntegro de que as pessoas possam se solidarizar com a dor do outro, entendendo as implicações sociais que determinadas ações podem fazer no mundo.

Não sou Marielle e não possuo sua força. Sendo assim, para mim ela é uma heroína, que transpôs uma barreira imposta pelo mundo, bravamente. Não posso mensurar o que significa para mim e para todas as pretas, a repercussão que esta morte trará para as mentes doentes da nossa sociedade. Mas acredito nas pequenas ações e nos engendramentos que elas produzem. Meu desejo utópico é de uma tomada de consciência. Sem mais…

Por Vanessa Rodrigues
Imagem destacada: divulgação PSOL

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