Sejamos escudo

Não é sobre nós, mas é sobre sermos escudo: sejamos escudo.

Mulheres brancas, especialmente as mulheres brancas feministas e de esquerda: não é sobre nós, nunca foi; então, vai aqui uma proposição: vamos abrir espaço, exercitar a escuta, respeitar o lugar de fala das mulheres negras e reverberar o que elas dizem.

Principalmente, vamos escutar as mulheres negras porque, apesar da dor e do luto, elas estão falando e elas têm a potência de quem sabe o que é viver na pele o que Marielle Franco viveu e significou.

As mulheres negras estão nos dizendo: Marielle foi assassinada por ser mulher, negra, nascida e criada na comunidade da Maré, mãe, feminista, lésbica, defensora dos direitos humanos e por colocar sua voz, seu espeço e sua política na denúncia dos ataques públicos e particulares a esses grupos sociais.

Não foi sobre nós, nossos privilégios ou sobre o que entendemos por golpe. Precisamos romper o pacto narcísico da branquitude e avançar na direção de garantir a elas um protagonismo que nunca foi nosso, mas do qual sempre nos apropriamos. Precisamos parar de relativizar nossos discursos; precisamos parar de apropriar falas.

Se estamos sofrendo neste momento, a dor das mulheres negras é maior e bem mais antiga; se estamos sentindo medo, agora, essa é a realidade de vida das mulheres negras; se fomos atingidas pelo que chamamos de golpe, esse golpe não fez muita diferença para toda uma parcela da população que vem sendo exterminada há muito tempo e que só tem amparo nas mulheres negras. Mesmo assim, as mulheres negras sempre estiveram na linha de frente das lutas sociais, sejam elas coletivas ou não. Elas e seu povo sempre pagaram mais caro a conta de um sistema que nos privilegia e protege.

as mulheres negras sempre estiveram na linha de frente das lutas sociais

Recebemos um chamado: fomos chamadas pelas mulheres negras, na voz da Iyá Sandrali de Campos Bueno, quinta-feira passada, no centro de Porto Alegre, a sermos seus escudos. Pois, sejamos!

Vamos ser apoio, ombro, respeito, reconhecimento e proteção às mulheres negras. Vamos exercitar a escuta, reverberar sua fala, garantir seu protagonismo. Não podemos falhar mais uma vez. Se realmente acreditamos na sororidade e na possibilidade de construção de uma sociedade justa e livre de opressão, devemos ter a certeza de que nossa tarefa é urgente e fundamental.

Sejamos escudo.

Por Izabel Belloc Moreira Aragon
Imagem destacada: sul africanos brancos fazem “escudo humano” para proteger manifestantes negros da polícia em Joanesburgo, 2015. Fonte: The Awakening

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