Estou exausta de tentar ser o tipo “certo” de mulher negra no trabalho

Muito da minha experiência como mulher negra tem sido aprender a sobreviver em espaços brancos.
A última vez que tive o direito de existir em um ambiente majoritariamente negro foi no ensino fundamental, mais de 15 anos atrás. No momento em que passei para o próximo nível de educação acadêmica, meus pais decidiram me colocar em uma escola de ensino médio com maior “diversidade”.

Diversidade, que significava majoritariamente brancos, com algumas pessoas negras pinceladas pelo local.

Não tive maiores dificuldades na transição para meu novo espaço branco. Abracei-o como qualquer outra garota do ensino médio faria. O que eu reconheço, analisando retrospectivamente, são as pequenas formas em que eu entrava em “modo sobrevivência”. Este foi o começo de uma vida repleta de infindáveis mudanças de comportamento, sempre modificando minha conduta e minha aparência para me adaptar o que era social e culturalmente considerado como normal.

Meu estilo de roupas mudou de RocaWear para Hollister e Abercrombie. Implorava que meus pais comprassem sapatos Birkenstock e bolsas Vera Bradley, e apenas usava meus cabelos – naturalmente cacheados – completamente lisos. Eu fazia tudo que estava a meu alcance para transcender a minha raça e parecer mais confiável para meus colegas. “Sim, sou negra, mas olha como temos coisas em comum. Não tem problema ser meu amigo!

Foram incontáveis mudanças sutis que passei para garantir que estava sendo o tipo certo de mulher negra para as pessoas brancas ao meu redor. Segura. Doce. Não muito mandona. Sem um tom de voz alto. Nem um pouco “gueto”. Pronunciava calmamente cada palavra. A dicção é feita com a ponta da língua.

Precisava garantir que não estava me destacando mais que já me destacava naturalmente. Sentia que todos estavam olhando para mim, esperando o momento que eu pisasse na bola e confirmasse todos os pré-conceitos estereotipados que tinham sobre pessoas negras.

Só reparei o quanto estava desempenhando um papel quando terminei o ensino médio e entrei em uma faculdade predominantemente branca. Amava minha universidade, e viver em um ambiente majoritariamente branco era algo que eu já estava acostumada. Mas de repente senti que não pertencia aquele lugar, e que dessa vez minha experiência seria diferente. A máscara que eu religiosamente usava todos os dias não mais me servia – então finalmente me permiti abandoná-la.

Parei de alisar o meu cabelo o tempo todo. Parei de me preocupar com o que os outros pensavam de mim e parei de tentar a todo custo ser aceita pelas pessoas brancas ao meu redor. Eu não precisava mais fingir. Finalmente estava em paz com quem eu era de verdade. Encontrei minha comunidade de amigos negros na universidade, para quem eu poderia revelar meu verdadeiro eu. Eu não precisava mais apenas sobreviver em meio a olhares brancos – pelo menos foi o que pensei.

Já tinha uma boa noção de quem eu era quando me formei na faculdade. Trabalhei duro para me encontrar e conquistei objetivos importantes e significativos no caminho. Ser eu mesma na faculdade abriu muitas portas para mim. Sentia orgulho de ter me formado já com um emprego em relações públicas, diferentemente da maioria dos meus colegas, e achei que me adaptar a minha nova carreira de mulher adulta seria fácil.

Eu ainda não tinha percebido que meu modo sobrevivência chegava de volta, em altíssima velocidade.

Ser uma das poucas mulheres negras na universidade trazia consigo algumas pressões sociais, mas não era nada comparado com ser uma das poucas pessoas negras no meu local de trabalho. Os riscos se tornaram muito maiores e a pressão era muito pior. A máxima “você precisa trabalhar o dobro para conquistar metade” nunca foi tão verdadeira. Não apenas me encontrei cada vez mais usando minha máscara do passado, como eu me odiava por toda a mudança de comportamento que me sentia forçada a fazer.

Comecei a focar de novo em como as palavras saíam da minha boca. Odeio jogar conversa fora, mas me tornei mestre delas no trabalho. Para comprovar que era agradável, me transformei em uma versão morna e aguada de quem realmente era.

As conversas no trabalho eram mais sobre meu cabelo e minhas roupas do que meu emprego. Me tornei porta-voz da comunidade negra e a face da “diversidade” do escritório. Eu tinha uma lista mental do que não podia fazer, vestir e dizer no trabalho.

  1. Saia com seus cabelos cacheados naturais, mas não muito grandes que chamem muita atenção.
  2. Não use mais seu cabelo em dois coques baixos, porque na última vez que usou uma pessoa puxou e te chamou de “powerpuff girl” no meio de uma reunião. Você sentiu tanta vergonha que queria chorar.
  3. Evite assuntos políticos de todas as formas possíveis.
  4. Seja estilosa – mas não demais, pois seus colegas de trabalho já comentaram sobre o comprimento das suas pernas, o tamanho dos seus sapatos de salto alto e sobre seu corpo. Não chame tanta atenção para o seu corpo.
  5. Fale calmamente, sem muita firmeza e aspereza.
  6. Não demonstre nenhuma emoção, principalmente raiva ou irritação.
  7. Tome cuidado com quem fala e o que diz.
  8. Não chame muita atenção para si.
  9. Não chame muita atenção para si.
  10. Não chame muita atenção para si.

Ser uma jovem mulher negra em um ambiente profissional majoritariamente branco tem suas complexidades. Lembro do dia que fui chamada de “menininha” por um colega de trabalho de forma completamente condescendente. Sou forte, poucas coisas me fazem chorar, mas, naquele momento, nunca me senti tão pequena. Liguei para minha mãe e chorei. Depois de 10 minutos, me recompus e fingi que nada havia acontecido. Eu já era jovem e negra, não podia me dar ao luxo de ser vista chorando. Precisava ser forte para ser levada a sério.

As pequenas agressões que sofria no trabalho me fizeram duvidar da minha própria capacidade, causando mais pressão que poderia imaginar. As mudanças de comportamento que passava eram exaustivas, mas precisava seguir assim para sobreviver. Este era meu trabalho agora.

Costumo ser confiante, mas a confiança se esvai em dias ruins. Dou o meu melhor para trabalhar duro e ser a melhor pessoa que posso, mas fico tensa em reuniões e questiono se pertenço aquele lugar. Quero ter certeza que me apresento da forma mais profissional possível. Como mulher negra, minhas ações representam toda uma comunidade. Estou ciente de todos os estereótipos, e tendo derrubar todos eles ao não reforçá-los.

As vezes sofro da síndrome da impostora, apesar de todo o esforço que coloco na minha carreira. Ainda fico paranoica e questiono cada palavra que sai da minha boca. Sinto que prendo minha respiração todos os dias das 9hrs-17hrs, e quando saio do escritório posso respirar de novo.

Encontro meu equilíbrio fora do trabalho. Tento estar em ambientes que posso viver livre, sem me reprimir. Leio muitos livros, faço trabalho voluntário e me cerco de pessoas que admiro. Tenho conversas reais com meus amigos sobre o mundo que nos cerca. Também tenho aliados e zonas de conforto no trabalho que me oferecem um ombro amigo em momentos frustrantes. Estou aprendendo a viver sem medo nesses espaços, sem abrir mão de quem eu sou.

Mas até eu chegar nesse ponto, manterei minha máscara por perto – como um escudo que me mantém protegida.

Texto por D. Shante, originalmente publicado em HuffingtonPost. Traduzido por Bruna Kern Graziuso. Imagem também obtida no post original. 

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