Série Salomé: Mayara Souto

Projeto Salomé é uma iniciativa que surgiu da vontade de Priscila Fonseca em compartilhar conhecimentos e honrar a ancestralidade de mulheres negras. Maria Eva Salomé foi o nome da avó de Priscila, que decidiu homenagear a mulher que, apesar de ter vivido em condições de miséria, era abundante em suas partilhas.

Em 2016 aconteceram quatro imersões em quatro regiões de São Paulo: Paraisópolis, Brasilândia, Butantã e Penha. Nestas imersões, cerca de 80 jovens negras compartilharam suas angústias, afetos e sonhos, através de oficinas sobre gênero, beleza e empoderamento, história do negro no Brasil, e planejamento financeiro, entre outros temas.

O Salomé existe por conta da mobilização de um coletivo de mulheres negras de diversas formações, como a própria Priscila, mas também Juliana dos SantosMafuane OliveiraCarolina BernardesAna Paula XonganiNathalia Gonçalves.

Semana passada demos início à Série Salomé, um especial em quatro partes em que participantes das imersões contam sobre suas experiências com o projeto. Hoje quem fala é Mayara Souto: “Eu acredito que o amor chegou em um momento em que eu já estava completa, pronta para transbordar!” Confira seu depoimento completo:

Mayara Souto, 26 anos.

É muito difícil ser Mayara, é uma batalha diária. Às vezes é feliz, às vezes não. A gente tenta fazer com que seja sempre muito feliz e gratificante, mas não é sempre, não. (Risos).

Ser mulher é uma tarefa difícil, pois temos que enfrentar as dificuldades do dia a dia. A sociedade é muito machista, e na periferia eu acho que é mais difícil. É o medo constante, e ao mesmo tempo, é vencer este medo para sair à rua a noite e para poder voltar. No mercado de trabalho é bem difícil, eu pensei que ia melhorar quando eu me formei, mas eu vi que não é tão fácil assim, ainda mais quando você é uma mulher negra.

Eu me formei em relações públicas, porque olhei a grade e tinha tudo a ver comigo e também porque era o que eu podia pagar, eu fui bolsista, consegui 50% de bolsa. Eu pensei em engenharia ou medicina, mas era inacessível pra mim, eu sempre entendi as dificuldades, hoje em dia eu entendo que eu poderia ter tentado e talvez eu tivesse conseguido, hoje em dia eu entendo, com maturidade, mas na época que eu ia escolher o curso não, eu olhei o que dava e que me identificava e também o que eu iria conseguir pagar e foi com muito esforço, muito esforço mesmo, sobrava acho que 50 reais do meu salário de estagiária.

Ser mulher negra

Ser uma mulher negra já foi uma dificuldade, me reconhecer como uma mulher negra vindo de uma mãe branca e um pai negro, sendo criada por uma avó negra. Foi difícil me entender ali naquele espaço, acho que hoje em dia é maravilhoso ser mulher negra, quando eu me reconheço e vejo a importância que a minha vida tem. Eu penso assim que hoje eu consigo encarar bem, mas no passado eu tentava não ser, pela dificuldade, pelo racismo, por aquilo que eu tinha que enfrentar, mas eu achava muito difícil este enfrentamento.

Sem dúvidas, eu me reconheço mais na periferia do que nos grandes centros, eu lidei a pouco tempo com a elite e foi bem complicado para mim este choque, você percebe o quanto é invisível, porque uma coisa é você andar e as pessoas conseguirem te olhar no olho, falar com você, dar um bom dia, boa tarde, quando você está em um nível elitizado, a pessoa pode simplesmente te ignorar, por você ser negra e mulher, enfim, foi um choque de realidade muito grande. Então eu acho que é um ambiente difícil de transitar, assim como as grandes corporações.

Eu fiz várias entrevistas, eu acho que esse momento é mais difícil quando você é uma mulher negra, teve momentos em que eu fiquei pensando será que eu coloco a foto no meu currículo? Será que eu vou com meu cabelo assim? Será que eu vou ser aceita assim? E então eu falei, não eu vou fazer assim, porque é assim que eu acho que é certo, mas isso fica passando na sua cabeça constantemente.

Um sonho

Meu sonho acho que é o mais simples possível, que é ter uma família diferente da que eu tive, uma família grande, numa mesa quadrada com todo mundo envolta. Que meus filhos tenham a oportunidade que eu não tive! Tenham uma mãe forte, ali, ao lado deles. Esse é meu grande sonho hoje. É isso, eu não tenho um grande sonho profissional, eu penso em seguir carreira e fazer uma pós, mas eu tenho essa vontade e também de mudar o meu entorno. Eu acho que atingindo as minhas crenças, talvez eu consiga abarcar as outras, eu tenho esse desejo social.

O Projeto Salomé

Pra mim foi incrível, eu lembro quando eu fiz a inscrição, como foi o chegar lá, a recepção, as pessoas, o primeiro impacto, enfim, pra mim foi uma auto-descoberta, tem horas que eu me pego repensando tudo o que eu vivi. Faz parte da minha construção, eu digo que o Projeto Salomé faz parte da minha construção, do meu caráter, de me reconhecer como mulher negra e de ter orgulho disso. Eu lembro que eu passei pelo processo de cortar os cabelos e tirar a química, e ao mesmo tempo eu buscava informação, informação e mais informação para poder me empoderar e argumentar.

O projeto me trouxe mais isso, uma busca que eu mantenho, mas que foram sanadas 1 milhão de dúvidas, sem contar as pessoas que eu conheci, e o contato com o Zion, foi maravilhoso, porque eu não tinha nenhum contato com crianças pequenas, bebês, assim o dia inteiro, isso nunca aconteceu, e ai a mãe é uma menina e chega com o filho, e ter esse contato com uma criança o dia inteiro foi maravilhoso, e a força que ela tem, e que eu vou precisar ter um dia.

O amor

Eu acredito que o amor chegou em um momento em que eu já estava completa e pronta para transbordar. Eu sinto que ele chegou para isso, para me transbordar, nós vivemos de uma forma plena, de uma forma consciente e isso me motiva, me inspira, me da força para continuar. Com ele eu consigo sonhar com família, consigo me sentir bem, de uma forma que eu nunca vivi antes. Eu nunca vivi relacionamentos abusivos, mas acredito que eles me limitavam, mas com ele não, eu tenho uma parceria que eu nunca vivi, e para mim isso é o diferencial, o importante, o que me faz ter esperança o amanhã.

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Imagens e textos fornecidos para a Casa da Mãe Joanna pelo Projeto Salomé

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