Série Salomé: Samanta Paula

Projeto Salomé é uma iniciativa que surgiu da vontade de Priscila Fonseca em compartilhar conhecimentos e honrar a ancestralidade de mulheres negras. Maria Eva Salomé foi o nome da avó de Priscila, que decidiu homenagear a mulher que, apesar de ter vivido em condições de miséria, era abundante em suas partilhas.

Em 2016 aconteceram quatro imersões em quatro regiões de São Paulo: Paraisópolis, Brasilândia, Butantã e Penha. Nestas imersões, cerca de 80 jovens negras compartilharam suas angústias, afetos e sonhos, através de oficinas sobre gênero, beleza e empoderamento, história do negro no Brasil, e planejamento financeiro, entre outros temas.

O Salomé existe por conta da mobilização de um coletivo de mulheres negras de diversas formações, como a própria Priscila, mas também Juliana dos SantosMafuane OliveiraCarolina BernardesAna Paula XonganiNathalia Gonçalves.

Hoje seguimos com o terceiro post da Série Salomé: um especial em quatro partes em que participantes das imersões contam sobre suas experiências com o projeto. Com vocês, Samanta Paula, que diz: “Meu sonho é ser diplomata, ter uma cadeira na ONU, na África de preferência que é um continente que eu gosto muito, e eu estou me preparando pra isso. ”. Samanta é a mulher cujo retrato ilustra este texto. Confira seu depoimento completo:

Samanta Paula, 18 anos

Eu sou jovem aprendiz no Banco Internacional, moro em Itaquera onde tenho alguns projetos com meus amigos, participamos de cursos de alfabetização com crianças, reforço escolar e pré-vestibular para o pessoal que quer ingressar na faculdade.

Ser mulher

É uma batalha diária, você tem que vencer um leão por dia, estar sempre se afirmando, isso mais do que as outras pessoas, mais do que os homens. É bem difícil!

Uma família empoderada

Bom, na minha família, minha mãe sempre pregou que por sermos negros nós temos que fazer três vezes mais para estar no mínimo um patamar abaixo, ou no mesmo patamar que pessoas brancas. Na minha escola, por exemplo, eu sempre tive que correr mais para ser reconhecida, ao contrario das demais que não faziam nada, só estavam ali.

Minha mãe sempre pregou uma autoestima muito grande na gente, ela sempre disse para mim e para minhas irmãs que nós poderíamos ser o que quiséssemos. Por causa disso, hoje tenho duas irmãs na faculdade, uma está na Federal do Rio de Janeiro. Minha mãe se sente muito orgulhosa, porque foi para isso que ela batalhou, e é algo muito diferente dos meus outros familiares, que tem uma família meio conturbada.

As mães não trabalharam a autoestima dos jovens, como a minha mãe trabalhou a nossa, para não passarmos pelo que ela passou. Então ela dizia: “Para vocês não passarem pelo que eu passei, eu vou educar vocês assim…”. O meu pai é uma figura bem apagada na minha vida, então não tenho nem como falar algo sobre ele, mas sempre dou ênfase a minha mãe.

Reafirmação da negritude

Dúvida eu nunca tive, a minha mãe sempre deixou isso muito claro para mim dizendo: “Você é uma menina negra, você é assim!”. Ela sempre gostou do meu cabelo do jeito que ele é, eu alisei uma vez, ela disse que foi o pior dia da vida dela quando ela entrou no salão e viu meu cabelo liso.

Ela chorou uns três dias seguidos. Eu também acabei não gostando, voltei com os fios naturais, comecei a cuidar do meu cabelo, e foi nesse processo que eu comecei a me afirmar como uma mulher negra, e a entender que sou negra.

Entender que sou negra qualquer um pode entender, mas lutar por espaços é preciso ter a essência de uma pessoa negra, de uma mulher negra é muito diferente.

Um sonho

Meu sonho é ser diplomata, ter uma cadeira na ONU, na África de preferência que é um continente que eu gosto muito, e eu estou me preparando pra isso.

Estou estudando para o Itamaraty, para entrar na faculdade no segundo semestre, ainda não decidi qual, mas vai ser voltado para essa área. (Relações Internacionais). Estou estudando outras línguas, caminhando entre o intermediário e o básico no inglês, estou no básico de espanhol e no básico de Francês também.

O Projeto Salomé

Foi maravilhoso, parece que quando eu estava dando o meu depoimento saiu um peso das minhas costas, e que eu não estava sozinha, e que também não precisava estar sozinha. Eu achei incrível, porque eu sou uma pessoa tão envolvida com projetos, e vi que naquela época eu só tinha uma amiga negra, e eu pensei: “MEU DEUS, eu sei que estou buscando o melhor pra mim, mas por que isso?”, eu comecei a pensar e puxar, puxar, puxar e ai eu vi que somos uma comunidade tão grande, por que a gente não se abraça? Um cuida da ferida um do outro? E o projeto Salomé me abriu essas portas, me permitiu conhecer várias histórias, particularidades tão pequenas, e ver falhas em mim, e perceber que eu não tenho direito de apontar se uma pessoa é negra ou se não é. Eu tinha muito isso de dizer: ‘ você não é negro’. E eu lembro que tinha uma senhora lá, que ela sofria muito porque não deixavam ela participar da aula de samba-rock porque ela era negra. E eu fiquei pensando “MEU DEUS COMO ASSIM?”, e eu comecei a corrigir isso em mim, comecei a pesquisar coisas voltadas para o universo negro, comecei a voltar para as minhas origens e isso foi um projeto para caminhar e abrir os olhos de outras pessoas.

Eu comecei a pesquisar heróis, e vi como nossa história é incrível e ninguém faz questão de mostrar isso em escolas, faculdades, em lugares nenhum. Parece que eles tentam apagar nossa essência, e tudo o que é da nossa essência e que é importante eles tentam dar uma clareada e dizer: “Olha não é bem assim”. Foi uma experiência incrível, e se eu pudesse eu iria de novo, e de novo, eu iria sempre.

Eu queria dizer que todos que pudessem participar do Projeto Salomé e ter essa experiência, que participassem, porque vai abrir seus olhos, vai mudar sua vida em 180 graus.

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Imagens e textos fornecidos para a Casa da Mãe Joanna pelo Projeto Salomé

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