A eterna necessidade de (re)afirmação

Tudo começou com uma inocente corrente de Facebook, que foi postada por uma amiga e a qual decidi aderir.

A ideia era postar uma palavra que fizesse com que a pessoa que postou se lembrasse da pessoa recebendo a postagem – por exemplo: uma amiga me escreveu “Jornalismo”, afinal, ambas somos jornalistas e nos conhecemos na época em que trabalhávamos juntas. Da candidata à vice-governadora pelo PSOL-RS, Camila Goulart, recebi o termo “Resistência”, e de colegas do Programa de Identidade de Gênero (Protig) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) recebi “Guerreira” e “Empoderada”.

Tudo seguia muito bem, até que duas pessoas se referiram à mim no masculino. No primeiro caso, corrigi a pessoa e ela se desculpou; na segunda situação, percebi que a atitude teria de ser diferente. Foi quando postei um texto explicativo através do qual foi praticamente necessário que eu reafirmasse minha identidade de gênero feminina e que, agora, definitivamente, me chamo Luíza.

É claro que ser induzida a ter de reiterar o óbvio não só é cansativo, por sugar nossas energias com coisas menores quando existem tantas outras atitudes mais importantes a se tomar, como também é humilhante. E infelizmente isso faz parte do transfeminismo: ser obrigada, de quando em quando, a reafirmar-se mulher e corrigir, tantas vezes quantas necessárias forem, nome e gênero. Trata-se, sem dúvida alguma, de uma enorme e humilhante perda de tempo e energia.

Faço questão de esclarecer que considero tal situação como parte intrínseca do transfeminismo, pois é preciso que se trace um paralelo com diversos discursos feministas através dos quais as mulheres cisgêneras sentem necessidade de se reafirmarem mulheres. Em ambas as realidades, trata-se de enxugar gelo.

Quando uma mulher cis necessita legitimar sua existência e, muitas vezes, a propriedade sobre seu próprio corpo, apenas por não se encaixar, não corresponder à média da “norma” social, eu considero isso muito aviltante. Tudo porque ela não quer ser nem donzela, nem do lar. As mulheres de hoje, há muito, deixaram de ser Amélias. Nem todas, é verdade. Mas uma parte significativa delas são chefes de famílias, diretoras, executivas. E é nessas horas que elas precisam reafirmar serem mulheres, afinal são cobradas para conciliar sua carreira profissional com a jornada familiar. Muitas vezes, precisam se libertar das amarras impostas por seus/suas companheiros/as que tentam controlar suas vidas – o que fazem, com quem estão, onde estão e até o que vestem.

Com as mulheres trans e travestis, a situação é outra. Trata-se da própria identidade. Diz respeito, inclusive, às expectativas pré-concebidas pela sociedade no que concerne às suas atitudes, às suas iniciativas e, logicamente, ao seu corpo. As mulheres trans e travestis são especialmente cobradas para corresponderem ao estereótipo feminino arraigado no inconsciente coletivo. À isso dá-se o nome de “passabilidade”. Quanto maior a passabilidade de uma pessoa transgênera, maior serão as suas chances de ser mais aceita no seio social e, consequentemente, menores serão as chances de ser vítima de transfobia. Para muitas, e aqui eu me incluo, a cirurgia de redesignação sexual é o estágio final e cabal do completo sentimento de pertencer ao gênero feminino.

É óbvio que, assim como tantas outras mulheres cis, não será a falta de uma neovagina que me fará menos mulher. Afinal, a identidade de gênero, não custa lembrar, está entre as orelhas e não entre as pernas. Mas confesso que é desanimador, estressante, irritante, broxante e revoltante que ainda há quem se refira à versão falecida de nossas pessoas – aquela que, na verdade, nunca foi. De toda forma, no momento em que se embarca nesta jornada, é preciso ter muita paciência e resiliência.

Me permito finalizar este texto com um conselho: antes de cometer uma gafe constrangedora dessas, tenha consciência de com quem você está interagindo. Olhe como a pessoa se veste e se identifica. Em caso de dúvida, e por puro bom senso, pergunte! Mas, nunca, sob hipótese alguma, interaja com uma pessoa trans com os olhos no passado. Será constrangedor para você. E ainda mais constrangedor para a pessoa trans.

Tenha mais empatia. O Universo agradece.

Por Luíza Eduarda dos Santos

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