Aborto e a sexualidade das mulheres

As mulheres são muito pouco estimuladas a serem sexualmente felizes. Não falo sobre transar, mas sobre gozar, sobre ”dar” pra quem quiser e da forma que quiser. Essa repressão vem de todos os lados, até mesmo de outras mulheres. Parece que aos olhos da sociedade não há nada pior do que a mulher que é feliz na cama.

As meninas já escutam desde pequenas, até mesmo desde recém nascidas, aquele tipo de cochicho do pai com os amigos ”nossa, depois que cresce dá trabalho”, ”arruma uma vaga no convento”, ”deixou de ser consumidor pra ser fornecedor”.

A satisfação sexual da mulher solteira é uma espécie de vergonha pra família. Essa é a mensagem que circula por todo canto ainda. A boa namorada, a que serve pra ser esposa, é a que transou com poucos caras antes do escolhido. Quanto mais reprimida, melhor.

E é neste contexto que a condenação veemente ao direito ao aborto no início da gestação se forma. Dessa sanha de punir a mulher sexualmente ativa. ”Nós temos que nos responsabilizar pelos nossos atos” foi uma frase que li muito pela timeline. O sentido real desse responsabilizar é castigar mesmo.

Tem também aquela clássica: ”na hora de abrir as pernas foi bom, agora não reclama”. Na verdade, convenhamos, pode nem ter sido bom. Mas só de imaginar que tenha sido bom, essa pessoa já quer que essa mulher sofra para compensar. Ela tem que pagar a conta de ter sentido prazer, é o que muita gente pensa mas usa outras palavras para se expressar.

Afinal, se a mulher tiver sofrido durante o ato ai tudo bem. O aborto é aceito em caso de estupro porque a concepção envolveu sofrimento, violência, angustia. Não teve alegria nenhuma.

Quem diz que ”defende a vida” só defende mesmo o aniquilamento da autonomia feminina. Mulheres infelizes, reprimidas, conformadas com decisões tomadas por outras pessoas são mais aceitas socialmente. A mulher que faz sexo porque quer, porque sente vontade, independente se tem um relacionamento fixo com um parceiro, é vista como uma espécie de ameaça. Ao quê eu não sei direito.

Claro que o aborto não é realizado apenas por mulheres solteiras que fazem muito sexo casual. Os dados apontam para as casadas, religiosas e que já são mães de outras crianças.

Falo sobre o imaginário que move quem é contra esse direito. Ele é centrado numa necessidade de se controlar a vida sexual das mulheres. Especialmente numa sede de impor seriedade na trajetória de uma hipotética mulher alegre, livre e dona de si.

Se fosse em outras culturas, essas pessoas, movidas por estes mesmos desejos, poderiam defender a extirpação do clitóris das meninas, como garantia de sua futura infelicidade sexual.

No fundo, o debate sobre o aborto nunca foi sobre ”a vida”. Sempre foi sobre o sexo e o proibitivo prazer das mulheres.

Por Sílvia Amélia de Araújo
Imagem destacada: Juanita McNeely, “Cães Selvagens”

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