Afasta de nós esse cale-se

Já algum tempo, a sociedade brasileira vem revelando sua incapacidade de se modernizar culturalmente. Alguns até falam em retrocesso como algo positivo, mesmo que seja para a idade média. Isso posto, é possível dizer que não faltam exemplos em meio as recentes discussões sobre os planos de educação, que tem como meta justamente inviabilizar essa modernização: projetos como escola sem partido, proibir discutir gênero e diversidade nas escolas, sem contar a deslegitimação dos direitos humanos. Discussões que acabam sendo uma porta de entrada para bancada evangélica conservadora introduzir a religião na educação, pondo fim ao estado laico e a qualquer tentativa de reversão de opressões por meio do desvelamento de estruturas que impedem a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e inclusiva.

Direitos humanos tem como objetivo principal dar dignidade a todos seres humanos, mas a ideia que passam, é que aqueles que defendem esses direitos, atuam na devassidão da família tradicional brasileira. Uma estratégia que vem sendo aprimorada desde o período pós ditadura com o intuito de deslegitimar conquistas democráticas. Usam slogans, frases clichês, criando a ideia de que defender direitos humanos é coisa de esquerdista defensor de bandidos.

Como sempre, ignoram a história que nos mostra que, foi na era moderna que surgiram os primeiros documentos norteadores de ação do Estado em garantir dignidade a todos seres humanos. A Revolução Francesa também teve papel importante por produzir a famosa proclamação em defesa da “liberdade, igualdade e fraternidade”. (Lembrando que Marx não era nascido ainda nesta época!) Para bater o martelo, as atrocidades do holocausto pelo governo nazista, mostraram ser imprescindível existir um documento que garantisse direitos iguais para todos, e uma organização internacional (ONU) para atuar coletivamente na promoção desses direitos.

Diante destes fatos, fica claro que essa tentativa ideológica de deslegitimar os direitos humanos, tem o propósito de desvalorizar e segregar grupos estigmatizados como favelados, negros mulheres, LGBT, índios… Sabe de que forma? fazendo uma associação direta de direitos humanos, como sinônimo de privilégios para oprimidos. Desse modo, esses estigmas acabam sendo introjetados, principalmente por uma parcela da população mais conservadora que ao se sentir injustiçada, acaba se voltando contra as lutas identitárias.

O retrato atual nos mostra que proporcional ao aumento do trabalho para aceitação da diversidade, aconteceu um aumento impressionante da pauta conservadora pregando um modelo de família tradicional, aumentando dessa forma, uma ânsia para implementação de um sistema mais rígido que pudesse impedir qualquer afronta a esse modelo. Talvez um sistema rígido com nome de democracia mas com cara e corpo de regime militar.

Refrescando a memória, no período militar, a homossexualidade era considerada doença, e ainda nesta época a população LGBT era alvo de perseguições. Nos anos de ditadura essa intolerância também afetou aqueles que denunciavam o racismo, pois tinham como lema que “a pessoa que falasse sobre o racismo era quem o criava”. Clichês parecidos com atuais não é mesmo? Depois de anos de repressão, com o fim da ditadura, a resistência se articulou e se fortaleceu no processo de redemocratização do país. Mas isso não significou o fim das lutas sociais, pois na mesma medida que ganhou força, aumentaram também a repressão àqueles que lutam pela reversão das estruturas opressoras.

É preocupante ver pessoas ocupando cargos de extrema responsabilidade como o Ministério da Educação, não acreditar na ciência como o melhor caminho para o conhecimento. Estão mais preocupados com ideias conservadoras que protegem valores tradicionais e religiosos, do que com a precariedade do sistema educacional.

Não faltam tentativas para calar quem se opõe, pois aquilo que não é falado e nem discutido, consequentemente é esquecido. A educação não pode ter como meta a formação de indivíduos que não questionem e se submetem à estrutura do poder vigente. Pelo contrário, deve despertar a consciência do aluno para que seja capaz de desenvolver autonomia e exercer seu papel de cidadão.

“esse silêncio todo me atordoa, atordoado eu permaneço atento… Pai, afasta de mim esse cálice (Chico Buarque)

“Afasta de nós esse cale-se”, pois não vamos desistir de lutar por uma educação laica, democrática e libertadora.

Por Danielle Nuernberg

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