Afeminado, sim! A resistência está em ser feliz.

Entremeio à vida de quem circula, estou eu: vendo tudo do lado de cá da ponte, enxergando o universo de quem pode (não sei bem o quê) ditar o que o resto do mundo deve ser/ fazer/ agir, neste universo também estou. Isto aplica-se a quase tudo a que nos propomos, vivemos somos, queremos, amamos. Hoje quero fechar-me na crítica à busca pela normatização da homossexualidade.

Seguindo! Nada me deixa mais feliz do que enxergar ao longe, seja na balada/na rua/na chuva/na fazenda/na casinha de sapê, gente feliz. Tirando por base minha mínima circulação, meu conceito de felicidade está diretamente ligado à aceitação e empoderamento. Nada é mais empoderador, mais libertário, mais lindo do que a felicidade.

Nada me deixa mais feliz do que enxergar ao longe, seja na balada/ na rua/ na casinha de sapê, gente feliz.

Ainda sim, me deparo, dentro de minha memória, com lembranças muito familiares de frases como: eu gosto de gays, mas não daqueles escandalosos ou pode ser gay, mas precisa ficar se esfregando na cara das pessoas e, até, gosto de gays, mas não perto de mim.

Então, Saibamos que o ‘ser gay’ é ser alguém fora do binarismo de gênero (aprendam, héteros!). Dito isto, é, também, ter a condição de apropriar-se de forma legítima dos elementos que tangem tanto o feminino quanto o masculino. E, é, certamente, dentro da sociedade normativa – esta que faz e desfaz e nos contempla com seu afável pode ou não pode – a maior vítima, com um alvo certo apontado para seu mero sorriso ou sua minoritária demonstração de afetividade para com seu par.

Sabem, pessoas, desde que o universo taê, nessa configuração, o gênero é um tabu. Há de um lado binarismo privilegiado (mulher e homem, macho e fêmea, esposo e esposa) e este lado  crê poder julgar o quê pertence a quem e a forma como cada um fazer-se-á uso dele, trago más notícias, honey’s: não podem.

Sabem, pessoas, desde que o universo taê, nessa configuração, o gênero é um tabu.

Teu privilégio não te permite saber o que é ser tão dono de si e muito menos tão refém da sociedade. Eu, por exemplo (mulher, hétero cis, com licença pedida para tratar do tema LGBT do ponto vista do observador), jamais saberei a dor do olhar de reprovação com a minha mais pura existência. Por mais que o universo seja misógino e eu feminista, entendo que o patriarcado me odeia, mas ele também odeia os homossexuais.

Eu queria explanar aqui o porquê disso acontecer ainda hoje, pleno século XXI, mas não posso. Ou posso. Vou socar tudo é na conta do capital, que necessita do conservadorismo para se estender por séculos mil, com suas tradições, seus costumes, seu mantenimento de processos doentes e insanos a fim de tão somente ficar.

Numa análise muito simples e fria chego à conclusão de que ser gay e o sê-lo da maneira que bem entender é uma afronta para a tal da sociedade tradicional e, afrontamento, monamour, é resistência.

Ser gay da maneira que bem entender é uma afronta para a sociedade tradicional. E afrontamento, monamour, é resistência.

Imaginem se todos os gays, de tempos já idos, fossem discretos, a que ponto a luta pró-diversidade estaria hoje? Creio que num ponto de invisibilidade total. A gente LGBT está aí, julho de 2016, nas ruas, sem oportunidades, a apanhar, a ser morta, a viver em meios que ultrapassam fatidicamente a subvida. Mas, pensemos então: se não fosse uns pequenos ousados a descamisar-se para o sistema e enfrentar de peito, músculos, dentes e lingeries, o mundo patriarcal, o que seria da diversidade sexual hoje?

Do meu lado, da minha ponte pra cá, o que eu posso dizer é que: desprega, sai fora, sociedade machista! Quem tu é pra tirar daqueles que alojam o meu coração o prazer de ser parte? Quem é tu pra tirar dos lábios referenciais de alegria, o sorriso? Quem tu acha que é pra se entremeter entre amores prósperos? Quem mesmo tu acha que é pra impedir famílias de se realizarem?

 

Por Sandra Cecília Peradelles
Imagem: Marker Cones (1982), by Jimmy De Sana. Photograph: courtesy Wilkinson Gallery/Jimmy De Sana Trust 

ADENDO 1: Tire suas mãos de nossos úteros, saltos, maquiagens, superproduções dyvas e nosso conceito aplicado à rua.
ADENDO 2: TUDO O QUE AQUI FOI DITO SERVE ÀS MINAS, DONAS DE SI E DA VIDA, QUE, COM MUITA DIFICULDADE CONSEGUIRAM IMPÔR SUA SEXUALIDADE DE MULHER E DE ‘A-GÊNERO’ À SOCIEDADE. MINAS, SUAS DEGENERADAS, QUE ORGULHO SER PARTE DE TUS.

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