“Branca pra casar, mulata pra fuder, negra pra trabalhar”

Há alguns dias, no encerramento do festival de documentários de Cachoeira, vi um trecho do espetáculo/projeto Isto Não É Uma Mulata, com a atriz Mônica Santana. Nele, ela performa (performa?) várias representações dessa cor que foi e ainda é em grande medida o (infeliz) “produto exportação nacional.”

Monica começa como uma trabalhadora de serviços gerais, passa pela mulata agalegada pop-beyoncé, encarna a sorridente rainha de bateria (melhor momento: ela sambando e agradecendo aos presentes na plateia: Nina Rodrigues, Monteiro Lobato, Gilberto Freyre, autor da frase que abre este texto e analisado a partir dessa e outras sentenças vistas no Casa Grande e Senzala na reportagem homônima.

A frase deriva de um provérbio de época: “a negra no fogão, a mulata na cama, a branca no altar”.

Pois bem. Não foi a Beyoncé, a preta rainha ou mesmo a atriz de black power e jaqueta de paetês – como Monica encerrou a apresentação – que mais me chamaram atenção no sentido da representação. Estas, objetificadas, é certo, também são diversas vezes celebradas em outra via: a da beleza, da lacração, do tombamento, um movimento incrível, poderoso e inspirador. Conseguem, ao carregarem os signos e marcadores mais cortejados nos ambientes de maior atenção midiática, ter suas imagens mais presentes – embora, repito, não deixem de estar conformadas a estereótipos – como bem problematiza Mônica.

O muro a ser derrubado, para a maioria delas, é o dessa sexualização perversa que faz com que muita gente acredite estar prestando um grande favor e elogio ao nos carimbar com um “eita, mulata bonita”. Mulata, animal híbrido, resultado do cruzamento de cavalo com jumenta ou jumento com égua.

Voltando (e perdão pela enorme digressão): entre todas elas, foi a servente de farda verde e roupa de corte reto que me fez refletir sobre que mulheres negras estão circulando em nossas conversas, redes. Que mulheres negras estão sendo sedimentadas através das imagens que chegam até nós no dia a dia e em meio a esse bonito florescimento da negritude feminina no Brasil.

Aquela roupa verde de servente (às vezes é azul) veste milhares delas Brasil afora. Ela apaga o rosto, transforma alguém em “mais uma”. Aquela roupa que, com a atriz já em cena, limpando o chão, não permitiu que a maior parte da plateia percebesse que o espetáculo havia começado. Para muita gente, era só mais uma mulher preta de farda limpando o chão.

Ela era como Rose, a moça de sombra também celeste e de batom vermelho que trabalhava no JC e que eu vi adoecer da alma. Eu imagino que toda aquela maquiagem era uma forma de dizer: ei, estou aqui. Ei, eu me chamo Rose. Ei, tô querendo conversar. Ela foi embora antes de mim. Espero que esteja bem.

Aí fiquei pensando muito naquela e em outras mulheres pretas cotidianas que não usam black, que não possuem roupas bonitas africanas, que não dominam a pedagogia do turbante, do tombamento, do batom preto e da lacração. Que não se aproximaram das marchas, que não estão na casa dos 20 (a juventude, pelo que percebi, é um dos imperativos dessa pretitude que surge nos espaços de maior visibilidade). Mulheres pretas cotidianas que trabalham como babás, cozinheiras, fábricas de abate de animais, balcões, feiras, restaurantes. Essas que a gente vê pouco circularem imageticamente por aqui. Essas mulheres, de certa maneira, mais negras que eu com meus panos e um colar da Guiné.

Não podemos entender como “negras e orgulhosas”, lacrativas e tombativas apenas as mulheres pretas que aparecem conforme signos apreciados, dominando todo o alfabeto cortejado principalmente pelas esquerdas – embora, repito e repito – vistos no geral de maneira superficial e preconceituosa. De certa maneira, podemos continuar conformando as “pretas do fogão”, a “negra pra trabalhar” ao espaço fechado, à roupa verde ou azul de corte reto, o rosto sem rosto. Viva as pretas decoradas, as pretas paetizadas, as pretas lacradoras. Mas não esqueçamos que elas não podem ofuscar aventais e redinhas no cabelo.

São coisas para a gente pensar, refletir. Para ter cuidado e não perpetuar lugares que tentamos desierarquizar. Não é bobagem. Novas imagens provocam fissuras no sistema, novas imagens são novas histórias, novas histórias são revolucionárias.

Deixo com vocês um artigo sobre “mulatas” e estereótipos, bem como o livro Mulher, Raça e Classe, de Angela Davis*, que podem nos ajudar a pensar estas questões. Eu tô há uma semana com tudo isso rondando minha retina. Aceito conversa e senões.

Por Fabiana Moraes
Imagem destacada: Ruth de Souza, primeira protagonista negra da TV brasileira, como a Cloé, de “A Cabana do Pai Tomás”, Rede Globo, 1969. Foto: Reprodução

*A editora Boitempo lançou uma versão para o Brasil, mas neste link tem uma tradução coletiva.

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