Brancos, sejam nossos escudos

Semana passada foi o aniversário de Marielle Franco. 26 de julho. Pediram para que eu escrevesse algo. Daí me veio a mente quando pediram para que eu escrevesse, para Revista Donna, sobre sua execução. Assim resolvi republicar o texto, pra dizer que Marielle possui um poder de comandar a todas nós e orientar o curso dos acontecimentos. Sua ausência é por nós pranteada, mas jamais deixaremos de ser suas comandadas. Marielle vive em cada uma que luta contra a violência desse Estado que mata.
_____________________________________________

Brancos, sejam nossos escudos.
Por Iyá Sandrali de Oxum

Minha filha, uma ativista, intelectual brilhante, pesquisadora, feminista, que coloca cotidianamente seu aprendizado a serviço da luta antirracista, amiga de Marielle Franco, ao ser por mim comunicada que eu tinha recebido um convite para escrever na Revista Donna, disse-me: “Chamaram-me pra isso também, e eu mandei pegarem um texto que está no Facebook; nunca lembram de nós pra nada, nunca nos chamam pra por nossa cara bonita e fora do padrão em revistas. Só lembram da gente quando é para falar da dor”. E completou, como que com um grito de dor alucinante: “Todos os dias eu me arrasto porque executaram a minha maior esperança; todos os dias eu me arrasto porque poderia ter sido eu, porque tu poderias ser, hoje, uma mãe sem filha, e ia ter que carregar tua dor pelas ruas, ias ter que carregar a dor da perda da presença vazia dos teus sonhos e realizações e esperança, ias ter que carregar um caixão vazio. Minha irmã teria que explicar para Vica, porque ela nunca mais veria a Dadi; minha vó não sobreviveria a tanta dor; e a mídia, que nunca pensa nos nossos corpos negros, quer que a gente agora fale? Que procurem os nossos textos. Que se virem. Eu estou cansada de brancos, muito cansada”.

E eu chorei. Chorei como ainda não tinha me permitido. Chorei sentindo a dor e a indignação de toda mulher negra, avó, mãe, filha, neta, sobrinha, prima, amiga, companheira e por aquelas que o sistema afastou de nós e as impede de manifestar a dor que o racismo provoca, independente do lugar que estão.

São 12horas e 39minutos do dia 19 de março de 2018. Só agora consigo escrever. Decidi escrever mesmo passando do prazo que me foi dado. Não sei se o meu texto será publicado. Mas seguirei o que minha tradição me ensinou: o Tempo é um orixá. Meu Deus é movimento e me orienta; sigo a orientação que o Tempo me dá. Portanto começarei com o grito que lancei durante a manifestação de dor pela morte de Marielle Franco: Brancos sejam nossos escudos. Sejam nossos escudos pois nós cansamos de ser os seus.

Em vários lugares dos meios de comunicação e das redes sociais encontramos textos e falas sobre as razões ideológicas, ou não, sobre esse crime. O Fantástico também colocou suas versões. Não comentarei sobre isso. Nós mulheres negras, cujos corpos são constantemente ultrajados temos nossa sensopercepção sobre o que aconteceu com Marielle e com todos os assassinatos de mulheres negras.

A violência contra as mulheres brancas diminuiu, mas contra as mulheres negras aumentou e isso está comprovado em dados e pesquisas. Só não são reverberados em políticas públicas em nossa defesa. Não reverberam em estratégias que nos sirvam de escudos na luta que travamos desde sempre. Não reverberam em apoios efetivos que nos sirvam de escudos contra a violência estrutural que nos mata diariamente na invisibilidade em que o mundo branco nos coloca.

Marielle ocupava um espaço na Câmara de Vereadores do Município do Rio de Janeiro, um espaço de representatividade. Espaço que nos tem sido negado, e quando ousamos ocupa-lo, somos abatidas pelo racismo e machismo que consagra a sociedade brasileira. Somos abatidas, adoecidas e cruelmente violentadas naquilo que temos de mais precioso: a nossa dignidade de SER O QUE SOMOS, ou seja, Força Criativa Geradora de Vida.

Marielle foi abatida por tudo que representa a luta das mulheres negras, que têm sido escudos da luta de todos e todas que querem uma sociedade justa. Marielle foi abatida com as balas de todos os golpes, engendrados pelo sistema colonialista, patriarcal, misógino, utilizados para invisibilizar a maior mazela que sustenta esse país. Marielle foi executada pelo racismo.

E de nada nos valem as inúmeras versões sobre o assassinato que nos tirou Marielle do combate se radicalmente não houver uma reconstrução dos valores civilizatórios dessa sociedade que não nos enxerga.

Brancos sejam nossos escudos. Sejam nossos escudos pois nós cansamos de ser os seus.

Marielle não morreu, pois, nossos mortos não morrem. Marielle vive em cada uma de nós e ninguém precisa nos alertar sobre isso. Marielle foi assassinada por tudo que representava e não é preciso nos dividir por segmentos ideológicos, pois nós sabemos de que lado lutamos. Marielle foi executada, e com ela nossa esperança. Nos reergueremos e defenderemos seu legado com nossa própria luta, pois nós estamos cansadas de servirmos como escudos.

Portanto, se for para nos incluir em pautas “somos todos iguais”, que haja troca de lugares nesta luta “pela igualdade”, e que sejam nossos escudos. Nós estamos cansadas de enterrar as nossas. Portanto, brancos, sejam nossos escudos; venham para a luta e sejam antirracistas.

_____________________________________________

Imagem destacada: detalhe de foto de Guilherme Pinto para O Globo

Comments

Comentários