Brumadinho: a História não vai poupar ninguém

A breve retrospectiva abaixo lista apenas alguns destaques, mas está longe de dar conta da malha de destruição sócio-ambiental que varreu o País nas últimas três décadas, sob governos de partidos diferentes.

Neste período, o Brasil também se tornou campeão mundial de assassinatos de ambientalistas e defensores de terras. Os que sobreviveram foram ameaçados, criminalizados, chamados por autoridades de entrave ao progresso, de idealistas, terroristas, irresponsáveis, infiltrados do capital estrangeiro, foram monitorados pela ABIN, presos e agredidos em protestos.

  • Em 1988 aprovam a Constituição Federal consolidando a legislação ambiental brasileira e firmando o direito à terra das comunidades e povos originários; 
  • Em 1989 assassinam Chico Mendes; 
  • Em 1990 as queimadas se proliferam; 
  • Em 1996, 19 trabalhadores rurais sem terra são mortos pela polícia no massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará;
  • Em 1999 a Lei de Crimes Ambientais é regulamentada e a Monsanto chega ao Brasil; 
  • Em 2000 realizam ampla CPI para investigar ONGs ambientais no Congresso Nacional; 
  • Em 2001 tem o desastre criminoso do derramamento de óleo da Petrobrás na Bahia de Guanabara; 
  • Em 2002 o mogno ouro-verde-da-floresta é finalmente listado como espécie ameaçada de extinção; 
  • Em 2003 liberam o combo Roundup Ready de agrotóxico + soja transgênica da Monsanto;
  • Em 2005 aprovam as usinas hidrelétricas de Sto Antonio e Jirau, começa a transposição do rio São Francisco e Irmã Dorothy é assassinada no Pará; 
  • Em 2006 ressuscitam o Programa Nuclear Brasileiro e em 2007-2008 a licença para a retomada da usina nuclear Angra 3 é concedida; 
  • Em 2011 o Congresso destrói o Código Florestal Brasileiro, Zé Cláudio e Maria são assassinados no Pará e se inicia o processo do etnocídio no Xingu com a aprovação da usina hidrelétrica de Belo Monte; 
  • Em 2013 o movimento autônomo pela mobilidade urbana, valorização do transporte público e acesso à cidade é violentamente reprimido e criminalizado nos protestos pela redução da tarifa de ônibus e metrô; 
  • Em 2014 e 2016 as obras da Copa do Mundo e da Olimpíada destroem mananciais e removem centenas de milhares de pessoas de suas casas à força; 
  • Em 2015 a Vale mata a bacia do Rio Doce e São Paulo vive a maior crise hídrica de sua história; 
  • Em 2016 ocorre novo pico de desmatamento no Cerrado e na Amazônia; 
  • Em 2017 os ruralistas e lobby mineral assumem de vez o poder federal e cresce a pressão para esvaziar os processos de licenciamento e multas por crimes ambientais; 
  • Em 2018 Bolsonaro é eleito prometendo acabar com MMA, IBAMA e FUNAI, reverter a demarcação de terras indígenas e ameaça sair do Acordo de Paris; 
  • Em 2019 o presidente mente no Fórum Econômico Mundial de Davos dizendo que o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente e vende as belezas naturais em pacote de turismo CVC; dias depois, outro crime ambiental afoga Brumadinho na lama tóxica da Vale.

A gente tá tentando avisar faz muito tempo e quase ninguém, à direita ou à esquerda, quis escutar. Agora, o que resta do patrimônio sócio-ambiental do País está nas mãos de uma quadrilha de milicianos amadores hipercapitalistas, representantes do agronegócio e das mineradoras, cujo único foco é eternizar o Brasil no papel de colônia exportadora de commodities primárias e de pouco valor agregado.

A história não vai poupar ninguém.

Por Rebeca Lerer
Imagem destacada: G1

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