Ciclos Políticos e o Ouroboros

“Sueño con serpientes, con serpientes de mar
Con cierto mar, ay, de serpientes sueño yo
Largas, transparentes, y en sus barrigas llevan
Lo que puedan arrebatarle al amor
Oh, la mato y aparece una mayor
Oh, con mucho más infierno en digestión”
(Silvio Rodriguez)

Ciclos Políticos e o Ouroboros
Por Sueli Feliziani Santos

Ou como tenho sempre a sensação de que engasgamos na roda do eterno retorno, comendo nossos próprios rabos, literal e figurativamente…

Ouroboros, ou Oroboro, do grego antigo οὐρά (oura) significa “cauda” e βόρος (boros), que significa “devora”, é o nome para o símbolo da serpente ou dragão que devora a si mesma eternamente.

Para uns o símbolo do infinito. Para outros, do eterno retorno. Para outros ainda, o símbolo do mundo terminando a si mesmo através do inexorável do tempo. O que permanece é a ideia de que, de algum modo, termina-se, e que esse processo parte de um self, seja ele o universo ou um self humano centrado, mas nunca do Outro.

Nesse momento de depressão já tentei estudar, ler, escrever dois ensaios, e nada parecia seguir o fluxo dos pensamentos, nada parecia encontrar seu lugar, nada parecia fluir o ciclo da evolução das ideias. Então resolvi seguir o fluxo das não ideias. Da estagnação inconsciente que me acompanha. E da inquietação que me acomete neste momento de baixa serotonina. Você pode fechar este texto agora e se poupar de uma das piores ou mais enfadonhas leituras da sua vida. Se continuar, será por sua conta e risco.

A verdade é que como toda pesquisadora, aficionada por história, sociologia, filosofia, como toda ativista, eu estou é muito cansada. Me atinge aquela exaustão de Sísifo de quem tá de saco de Chronos cheio de tanto falar, apontar o que as nossas dizem há mais de 130, 180 anos e não ser ouvida.

Sabe aquelas de que Hércules teve os doze trabalhos? Hércules é uma farsa. Trabalho mesmo teve Cassandra. Imagina ficar a vida toda falando, oh, essa porra vai dar errado, TO FALANDO QUE ESSA CARALHA VAI DAR MERDA!. E ninguém escuta. Aí Príamo desconsidera a moça, “tá louca, tadinha”. Vai lá e faz tudo da sua cabeça, e o que acontece? DÁ MERDA! Então, agora pensa nas minas da História que tiveram os 12 mil trabalhos? Pois então….

São milhares de mulheres ao redor do mundo falando, viajando, escrevendo, falando mais, e conscientizando, e escrevendo mais um pouco, e marchando, e tira sutiã, e põe sutiã, e funda jornal, e queima sutiã, e marcha de novo e queima jornal, e escreve mais um pouco e toma umas porrada, umas facada na marcha ali, uns ovo na rua acolá, e uns feminicídio por ali e por aqui.

E ninguém escuta, mano.

A gente tá cansada. A gente mata uma cobra. Aparece uma maior. A grande serpente da História segue gigante, engolindo o próprio rabo, rindo da nossa cara.

Denunciamos a estrutura de uso do trabalho gratuito das mulheres? Inventam empreendedorismo e planos de carreira e de salário feminino como luta feminista. Denunciamos o uso de critérios dispares para mensuração de eficiência e os quocientes de beleza laboral para mulheres? Inventam empoderamento pela beleza para mulheres de minorias, roupas para trabalho para não parecermos ameaçadoras, e ainda inventam que isso é feminista. Denunciamos a utilização da reprodução como controle feminino, deturpam os métodos anticoncepcionais em minorias para fins eugênicos e transformam bandeiras feministas de anticoncepção em argumentos de morte da direita anti mulher.

Todos os dias são 12 Leões de Nemeia, 12 esfinges, 12 estrebarias de cavalos de Troia recheados com makeup empoderadora e roupas de grife para mulheres feministas feitas com trabalho escravo de racializadas.

Nós estamos cansadas. Todas nós, Penélopes do tricô eterno e das mortalhas sem fim ou finalidade. Milhares de Ariadnes oferecendo saídas de labirintos e sendo abandonadas em Naxos.

Cansada de tecer mortalhas, e de ver amigas morrerem. Cansada de ver mulheres odiarem a ideia de serem livres. Estou cansada de ver mulheres odiando outras mulheres. Cansada de ver uma sociedade que prefere que mulheres morram do que que decidam quando serem mães. Estou cansada de ler sobre mortes de mulheres nas mãos de seus entes queridos. Estou cansada de saber que tenho que viver num mundo em que nos odeiam só porque somos o que somos. Mulheres.

E digo que lutar não é nem nunca foi uma escolha. E como a lei do retorno é eterna. Hoje me recolho e vou ali mordiscar minha cauda para voltar a lutar amanhã. Porque a cobra não desiste.

Tampouco desistirei eu.

Certo?

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