Credulidade humana

Eu não deixo de me espantar com a credulidade humana. Na minha infância, quando eu era muito crédulo de tudo e principalmente, todos, lia o gibi do Zé Carioca, em que ele ou alguém vendia o pão de açúcar. Eu não entendia direito, exceto que alguém estava sendo feito de otário, mas o foco para mim estava não na otarice, mas em alguém ser crédulo. Era fascinante o crédulo que acreditava comprar, por uma ninharia, o pão de açúcar.

Nosso código penal tem o famoso artigo 171, justamente para punir a exploração da credulidade alheia.

Vá lá que na base da credulidade existe uma assimetria de informação. Tudo é contexto e, na ausência deste, é muito difícil saber o que é razoável ou não, crível ou não. Então a tolice está muito perto de todos nós.

Por outro lado, há pessoas mais crédulas que outras. Creio que foi Olavo Bilac que, numa crônica genial, disse que enquanto houver a raça dos tolos, haverá quem os engane.

Espinoza nos dizia (creio que não interpreto mal desse modo) que a credulidade está na superstição, e esta, no medo. Os medrosos são sempre supersticiosos e potenciais tolos. Creio que Espinoza está mais próximo da verdade que Bilac. Somos todos potenciais crédulos, prontos para sermos enganados.

Boa parte da literatura parece-me também, tendo sido feita por homens para homens, ser baseada numa grande credulidade. A Odisséia, de certo modo, é uma narrativa da reconstrução da credulidade. Penélope, claro, tem papel central nesse resgate. É preciso enganar os homens crédulos, enquanto espera Ulisses, que no seu regresso resgatará a credulidade de que ele é ele. A famosa crise de identidade é uma crise de crença.

Bentinho passa da credulidade extrema ao cinismo, via ciúme, mas Capitu jamais é retratada como crédula. Os dissimulados são os opostos dos crédulos. O Sultão que Sheherazade engana é, obviamente, um crédulo. Uma vez enganado, mata as mulheres para não ser enganado de novo. Apenas para ser enganado todas as noites por Sheherazade. Não lhe passa pela cabeça simplesmente deixar de ser crédulo (como Bentinho), ou deixar de achar que as mulheres são todo poderosas e que ele será sempre um crédulo indefeso diante delas. A credulidade como impotência.

O machismo é uma grande credulidade dupla. A nossa crença na autocentralidade enquanto homem (como se o mundo das mulheres girasse ao nosso redor) ao mesmo tempo em que nós nos vemos como crédulos diante das mulheres, potenciais otários.

O curioso é que o crédulo parece passivo, mas a fórmula de Bilac tem a vantagem de colocar um componente ativo. Ele quer ser enganado. A credulidade vem justamente de querermos ser enganados, ou antes, de querermos fugir da realidade.

O mágico é o artista da credulidade. A ilusão está em nossos cérebros. Sabemos que não há magia, mas uma parte de nosso cérebro deseja ardentemente por ela e até acredita nela.

Tudo isso para dizer que de tudo o que mais me espanta é ver gente sem aquela assimetria de informação que falei no começo ser crédula. Gente bem formada, sem maiores medos. Com tudo para não serem crédulas. E no entanto o são.

Creio que minha credulidade maior ainda é o ser humano. Continuo a acreditar nele, a despeito de todas as evidências em contrário.

Por Manoel Galdino
Transparência Brasil
Siga: @mgaldino

Comments

Comentários