Crítica, interpretação e misoginia – algumas impressões

 

No meio intelectual e acadêmico é bastante comum que uma mesma atitude ou gesto adquira valores diferentes em função de quem os realiza. Assim, por exemplo, numa banca uma atitude veementemente crítica de uma professora pode ser tomada por “exagero” ou “chatice” enquanto um professor que sustentasse o mesmo tipo de intervenção seria visto como “rigoroso”, “exigente” e “sério”.

Há alguns anos coordenei a mesa de um seminário no qual participavam dois grandes colegas, um ele e uma ela. Ele ultrapassou fartamente o tempo de fala e ela, como era a última a falar acabou sendo prejudicada. Alguns meses depois eu e essa colega estávamos conversando sobre misoginia e ela aproveitou a ocasião para me dizer algo que reproduzo aqui nas minhas próprias palavras: você se lembra daquele seminário em que você deixou fulano estourar totalmente o tempo de fala e eu tive o meu tempo abreviado – pois era tarde e o público começava a dar sinais de precisar ir embora – de modo que tive de correr pra caramba para concluir?

Imediatamente pedi desculpas e me senti profundamente envergonhada. Me sinto envergonhada até hoje. De fato não havia me dado conta antes dessa chamada de atenção para a dinâmica da situação. Nunca mais deixei de notar esse tipo de situação se repetindo em versões semelhantes ou idênticas nos eventos acadêmicos em que participo.

Recentemente em um seminário na França, em um dia no qual tínhamos 10 homens falando e apenas uma mulher, e ela era a última e era uma pessoa absolutamente brilhante, me dei conta de que a articulação formidável a capacidade de síntese daquela mulher não era apenas uma maravilhosa “chave de ouro” em um ambiente masculinista, pelo poder de síntese e de articulação crítica, pela rapidez e eloquência com que aquela mulher falava ficava claro também algo que a gente sabe, mas nem sempre se explicita: mulheres na academia precisam ser “fodonas” para terem direito ao espaço que um acadêmico medíocre ou mediano consegue sem grandes esforço.

Essa é uma realidade geral que se atualiza em menor ou maior grau dependendo do ambiente, do país, da instituição, do evento.

Na academia, a atitude misógina pode ser descrita através de 3 figuras ou tipos: o paternalista, o mijador de poste e o misógino-fogo-amigo: os primeiros admiram a inteligência das mulheres sempre de um lugar de superioridade patética, e essa admiração ou é um tipo de tolerância mal-disfarçada, ou a hipótese de que algo da ordem sexual possa se estabelecer. Os paternalistas fazem questão de usar palavras como “talentosa” (vale igualmente para o campo artístico) e dizer em público à guisa de elogio coisas do tipo “prestem atenção, pois fulana disse agora algo muito inteligente e importante” porque evidentemente é motivo de surpresa que mulheres tenham algo inteligente a dizer e como esse tipo se sente imbuído da missão formativa acha por bem sublinhar e retraduzir o que foi dito, pois fulanas dizem coisas inteligentes mas fulanos são muito mais habilidosos em expor e enfatizar aquela faísca luminosa de inteligência do pensamento de fulanas.

O mijador de poste é imediatamente reconhecível em sua atitude repetitiva e insistência, está sempre ali, não importa o que você diga ou escreva, ele sempre aparece, é uma espécie de oposto complementar do paternalista, em vez de propor um debate vai concentrar os esforços para desqualificar sistematicamente a fala de sua interlocutora.

O mijador às vezes aparece sob o disfarce do cara simpático com quem você pode chegar a acreditar ser possível estabelecer um diálogo, pois inicialmente ele se aproxima para concordar, vai até parecer uma pessoa aberta ao diálogo, afim de debater ideias e posições mas rapidamente revela seu caráter de cão mijão (com o perdão dos cães) e não te deixará sossegar, ele virá ao seu mural para desqualificar suas falas, seu ponto de vista, suas premissas, ele virá muito, virá mesmo, é um tipo que adora vir, mesmo que você não costume visitar o mural ou nem mesmo saiba que ele existe.

A misoginia é também esse jogo constante de revelação e ocultamento.

Ele se regojiza com a sua própria capacidade de ironia soltando piadinhas escrotinhas que partem da hipótese de existência de um clima de cumplicidade e simpatia incondicional. Eventualmente você responderá com o mesmo tipo de piadinha escrotinha, mas onde você acredita no poder do sarcasmo ele verá apenas um espaço oportuno para um tipo de intimidade brincalhona brotar entre vocês.

O terceiro tipo é o seu amigo, seu colega, o cara com quem você de fato gosta de trabalhar e conversar. Um dia ele faz algo semelhante ou pior do que desrespeitar o seu tempo de fala num seminário, em vez de reconhecer a misoginia da própria atitude e entender que a sua irritação não era imotivada, ele te situará no lugar da colega “bacana porém”(completem aqui amigas), outro desdobramento comum é o de acatar a crítica ou observação neutralizando completamente a sua pertinência, assim, naquele tom meio condescendente que conhecemos bem, ele deixará claro que gosta de você e te admira, mas que não consegue te acompanhar na sua crítica feminista, e que portanto não pretende mudar de atitude, ou pelo menos não ainda. Essa atitude pode parecer mais amena mas é igualmente remarcável, ela atesta a persistência de uma enorme distância entre a compreensão da dimensão ética do campo intelectual / acadêmico e a real capacidade de se realizar a autocrítica e mudar de postura nesse mesmo ambiente.

Assim é possível continuar sendo (e ser considerado) um sujeito bacana e sensível às questões éticas no seu meio profissional e simultaneamente perpetuar a ideia segundo a qual as diferenças sexuais e de gênero não são assim tão importantes ou não pesam assim tão fortemente na construção dos enunciados e gestos que se produzem nesse campo.

A diferença que rege ainda a construção simbólica do lugar do intelectual homem e da mulher na partilha dos sabres e dos discursos é ainda uma questão reprimida no interior do meio intelectual e artístico. A misoginia é também esse jogo constante de revelação e ocultamento – seja por meio da condescendência paternalista, da piadinha amiga que visa desqualificar a fala alheia ou da fala de um amigo que se permite esperar um futuro para fazer uma autocrítica.

Essas atitudes se misturam ainda com duas tendências muito fortes da cultura brasileira, o anti-criticismo e o anti-intelectualismo. Das situações que experimento no facebook com alguma frequência, duas me parecem típicas do entremeado entre misoginia e anti-intelectualismo: homens aqui me dizem para estudar ou pensar menos, como se fosse uma piada elogiosa, ha ha ha. Homens (e mulheres) pedem que eu não interprete, como se interpretar fosse um gesto “excessivo” e portanto inapropriado, pedem então que “relaxe” como se criticar ou interpretar fossem sintomas de uma tensão neurótica…

Por Laura Erber
Imagem destacada: McGill Tribune

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