Dia Internacional da Mulher. (Ou: sobre virar a chave)

Às vezes me parece que os homens gostam mesmo de homens. Eles saem com mulheres, casam com mulheres porque foram ensinados a se aproveitar do que uma mulher tem para lhe oferecer: sexo, cuidados, ouvidos, status (se bonita ou rica). Mas, a admiração mesmo é pelos comparsas.

Homens não lêem livros escritos por mulheres, não assistem filmes, não ouvem podcasts.

Na hora de montar uma equipe de trabalho, saem logo catando outros homens. Se forem brancos, outros homens igualmente brancos. Quanto mais privilegiado, melhor.

O homem branco no topo dos privilégios tem acesso a muitos referenciais, a bens culturais e científicos, produzidos – majoritariamente – por outros homens brancos. É um clubinho, dos sócios do patriarcado.

Por que eu vou chamar um negro, uma mulher, uma lésbica, um indígena para compor a minha equipe, se meus brothers Y, YY e YYY são muito melhores, os mais premiados, têm os melhores equipamentos e “um puta senso estético”? E assim, a reprodução do que é esteticamente bonito e legal para uma elite branca vai se perpetuando, sem nunca contemplar outros olhares e vozes.

Não há multiculturalismo, não há inclusão, há apenas uma reprodução infinita e necessária para a manutenção do – no fundo – frágil ego do homem branco.

Não vai ter espaço se não cavarmos, se não nos rebelarmos, criticarmos, gritarmos num mundo que tenta nos calar. Nossa voz não importa para quem está no poder, mas, em números, somos maioria.

Podemos não ser os detentores (uso aqui o masculino para englobar não só as mulheres como todas as demais – ditas – minorias) dos meios de produção, por isso, precisamos criar os nossos próprios meios.

Não sabe o que fazer? Comece prestigiando estas produções. Vou me limitar à podosfera e à literatura que são as áreas mais presentes na minha vida atual.

Para ouvir

Falo & Falo  É Pau, é Pedra Mamilos Sinuca de Bicos Mathildas Talvez seja isso Baseado em Fatos Surreais

Para ler

Elena Ferrante, Rosa Monteiro, Chimamanda Ngozi Adichie, Rebecca Solnit, Juliana Borges, Cris Lisbôa, Joanna Burigo, Winnie Bueno, Carol Patrocínio, Djamila Ribeiro, Rosana Pinheiro-Machado, Daiara Figueiroa, Rosane Borges, Ana Cardoso, Stephanie Ribeiro, Monique Prada, Avelin Buniacá, Clara Averbuck, Natalia Meinheim, Beatriz Pagliarini Bagagli, Jéssica Ipólito, Márcia Tiburi, Helena Vieira, Natalia Neris, Anaíca GM… a lista é imensa, e textos de muitas destas mulheres podem ser encontrados aqui mesmo neste blog.

Conheça também a Hysteria, um projeto que concentra e divulga produções culturais de mulheres, e  o catálogo Intelectuais Negras Visíveis, coordenado por Giovanna Xavier, da página Preta Dotora.

Por Ana Cardoso, autora do best seller A Mamãe É Rock
Imagem destacada: da Federación Comarcal Sur

Comments

Comentários