Dick Vigarista

Toda feminista conhece pelo menos um machista que é mais nocivo do que a média de machistas nocivos. Esse machista é o que não se contenta em ser machista, ele precisa também deslegitimar o feminismo.

Aqui na ‪#‎CDMJ‬ a gente gosta de chamar esses machistas de “Dicks Vigaristas”. Lembra do personagem da Corrida Maluca? Conhecido por ser o vilão da história – sempre tentando ganhar a corrida com trapaças, emboscadas e impedimentos – Dick Vigarista se preocupava mais em atrapalhar a corrida dos outros do que, necessariamente, em participar dela. Soa familiar? Claro que soa.

Melissa A. Fabello, editora-chefe do Everyday Feminism, recentemente escreveu um texto sobre o que está por trás de quatro atitudes típicas de quem faz o “advogado do diabo” perante argumentos feministas. Fizemos um resumo das atitudes descritas no texto para você, pois os Dicks Vigaristas dessa vida adoram achar que estão ajudando quando fazem o “advogado do diabo”… Mas muito ajuda quem não atrapalha, não é mesmo?, e advogar para o diabo no contexto feminista é puro dickvigaristismo. Conheça o tipo, acione a Penélope Charmosa interior, e sigamos firmes e fortes nessa corrida maluca.

 

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1. Dicks Vigaristas apenas regurgitam – e assim reforçam – o status quo

Chamamos de “status quo” os pontos de vista aceitos pela maioria da população. O fato de um ponto de vista ser popularmente aceito não faz dele um ponto de vista correto – sequer justo. O “status quo” são as estruturas e valores sociais que sustentam uma (qualquer) cultura – e é, basicamente, “o jeito como as coisas são”. O trabalho da maioria das feministas é desafiar o status quo – ou seja, convidar a sociedade para reavaliar “o jeito como as coisas são”, observando como elas são prejudiciais, e trabalhando para erradicá-las. Quando um Dick Vigarista tenta fazer o advogado do diabo nesse contexto, ele está apenas repetindo o status quo e nos falando de coisas a respeito das quais estamos carecas de saber. Nós também vivemos nesse espaço e nesse tempo, e é justamente porque compreendemos as normas dessa cultura e loco histórico que pensamos para além deles. Dicks Vigaristas não costumam oferecer ideias que iluminem o debate. Eles somente atrapalham.

2. Dicks Vigaristas desrespeitam nossas habilidades de pensar criticamente

Quando Dicks Vigaristas regurgitam o status quo para nós – reestabelecendo assim as normas que estamos tentando mudar, e interrompendo nossos processos de pensamento, ao nos pedir para reconsiderarmos idéias que já havíamos contemplado profundamente – isso sinaliza que eles não acreditam na nossa capacidade de pensar criticamente. Isso porque Dicks Vigaristas estão tão acostumado a viver em um mundo que afirma e valida a suas experiências como “a forma como as coisas são” que deles nunca foi solicitado considerar outros vieses. Se ouvissem melhor antes de quererem deslegitimar nossa fala, talvez compreendessem.

3. Dicks Vigaristas acham que seus pensamentos são mais valiosos do que nossas experiências

Adoraríamos estar exagerando, mas uma conversa típica entre uma feminista e um Dick Vigarista costuma ser assim:

— Cantada é ofensivo
— Não, é um elogio
— As mulheres decidem se o que é feito para elas é ofensivo ou não
— Mas quando eu elogio, as mulheres gostam
— Elogio não é cantada
— Mas uma cantada é elogio

(ad infinutum)

Dicks Vigaristas não entendem que suas opiniões (geralmente não-solicitadas) sobre uma forma de opressão não invalidam a experiência de quem sofre aquela opressão. Não importa o quanto nos digam que cantadas não são ofensivas – quem tem a experiência de recebê-las sabe o quanto elas ofendem. Quando um Dick Vigarista interrompe uma conversa construída com base em anos de experiências vividas, o que eles deixam evidente é que eles acreditam que suas opiniões sobre uma opressão são mais válidas do que a experiência de quem reclama sobre ela.

4. Dicks Vigaristas fecham uma conversa ao invés de contribuir para sua progressão

Fomos ensinados – especialmente aqueles de nós em posições de privilégio – que nossas opiniões não são nem certas nem erradas, e que nossa visão de mundo sempre importa e deve ser compartilhada. Isso é uma bobagem. Há momentos em que as nossas perspectivas sobre o mundo não têm tanto valor assim: quando nossas opiniões sobre um assunto não vêm da experiência vivida sobre aquele assunto, mas sim de um hábito de postular o que é certo ou errado de acordo com o nosso próprio umbigo. As opiniões emitidas por Dicks Vigaristas, como já vimos, vêm do, e reforçam, o status quo, além de desrespeitarem quem está querendo, justamente, questioná-lo. Este tipo de opinião apenas ocupa espaço desnecessário, e não adiciona nada para o debate.

Aos Dicks Vigaristas, então, uma demanda: antes de emitir opiniões fundamentadas apenas na suas próprias vivências, tentem prestar atenção não apenas ao que está sendo dito, mas em quais são as experiências de quem sustenta aquele argumento. Nem sempre a sua fala é importante. Mas a sua escuta sempre vai ser.

 

 


 

Por Joanna Burigo

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