E se todas as pessoas falassem a verdade sobre seus pais?

Hoje é domingo, dia dos pais, progenitores, pagadores de pensão, pagadores de contas, ou simplesmente um nome em branco na certidão de nascimento. O fato é que longe dos pais que aparecem nos comerciais dessa época, a realidade do pai brasileiro tende a ser na maioria das vezes muito diferente.

A data do dia dos pais é uma data completamente artificial, criada para aquecer o comércio em agosto, um período que não tem grande apelo comercial. O comércio vende a imagem do superpai, paizão, o protetor. Nas lojas de ferragem, ou de equipamento esportivo a expectativa é de aquecimento nas vendas, afinal, o homem tem a construção social de ser viril, esportivo, construtor.

Mas das minhas conversas por aí, as queixas que ouço em relação aos pais, não são sobre a falha em representar o modelo de macho provedor, e sim pelo desleixo ou a negação do papel de cuidador. Há pais que mesmo morando com os filhos, os tratam com tanta distancia, que muitas vezes, ouso dizer, não conhecem seus filhos. Pelo menos não de fato.

As queixas que ouço em relação aos pais não são sobre a falha em representar o modelo de macho provedor, mas sim pelo desleixo ou a negação do papel de cuidador.

Da minha parte, eu gosto de entender a simbologia dos presentes, muito mais do que o valor empregado neles. Quando escolhemos um presente, figuramos naquele objeto a representação do que a pessoa presenteada é para nós. E fazemos isso na maioria das vezes de forma até inconsciente. E assim, questiono, porque no dia dos pais não se presenteia com flores?

No dia dos pais, o comércio de flores não vende tanto como no dia das mães, talvez porque flores não combinem com homens, talvez por que eles não participem completamente da celebração da vida. Quem cuidou, cuida ou conhece o mínimo de jardinagem sabe que para que brotem as flores não basta plantar a semente, tem que ser haver cuidados muitos cuidados, tais como: adubar a terra, retirar as ervas daninhas, regar, mover a planta conforme a posição solar, ou conforme a estação do ano, enfim, os cuidados são variados e necessários.

Eu mesma já deixei muitas plantas morrerem por não saber como cuidar delas adequadamente. E não digo que há algum jardineiro perfeito, mas que alguns se esforçam mais e outros apenas abandonam a semente por aí. E o mesmo acontece com os pais. Alguns, diga-se de passagem poucos, cuidam muito bem dos seus filhos; outros apenas fornecem o dinheiro e deixam sob a responsabilidade da mãe todo o cuidado; há também os que plantam a semente, desaparecem nas horas ruins e só aparecem para colher as flores prontas, ainda achando que com a semente fizeram a maior contribuição; e por último há os que somem abandonando filho e mãe à própria sorte, com a desculpa de que não está pronto para aquilo, que tem que viver a vida, não nasceu pra aquilo, tem desculpa de todo tipo.

E não que todas as mães sejam perfeitas; pessoalmente, creio que a maternidade precisa sim ser desconstruída e trazida para a realidade. Entretanto, é fato de que seja por pressão social, seja por vontade própria ou senso de responsabilidade, a mulher se faz muito mais presente no cuidado e criação dos filhos do que os pais.

O fato é que desde pequenas somos treinadas para ser mães, com nossas bonecas que simulam nossos filhos reproduzimos em nossas brincadeiras tudo aquilo que vivenciamos ou idealizamos como maternidade. O que em muitos aspectos ajuda na criação dos nossos filhos reais, em outros incutem na mulher desde a mais tenra idade de que a maternidade será a maior realização da vida dela.

E você enquanto homem, que lembrança pretende deixar na memória de seus filhos? Que tipo de pai você é ou quer ser?

Problematizações à parte com relação à maternidade e a mulher, para os homens não vemos a mesma pressão. As brincadeiras masculinas são diferentes, os personagens masculinos que eles representam também. Desde o herói ao jogador de futebol, nenhum deles é visto em imagens com um bebê preso no seu corpo num canguru. E creio que isso afeta muito na expectativa de vida dos homens com relação a vida, o trabalho e a família.

Afinal, quem é o pai? O verdadeiro pai que no dia de hoje almoçou com seus filhos, recebeu presentes, posou para fotos? É o cuidador que conhece seus filhos intimamente, ou alguém tão distante quanto seu vizinho de quarteirão? E você enquanto homem, que lembrança pretende deixar na memória de seus filhos? Que tipo de pai você é ou quer ser?

Para alguns pais talvez seja tarde demais para consertar a imagem negativa, para outros ainda há tempo. Mas ainda há toda uma, duas, três tantas gerações de pais que virão. E se não tivemos um modelo de pai perfeito, façamos da nossa referência um exemplo do que foi bom e ruim. Vamos ensinar nossos filhos a serem pais, para não precisarmos, no futuro, ficar tão admirados como ficamos hoje quando um pai sai na mídia fazendo o papel – real ou fictício – de bom pai, porque isso não é mais do que a obrigação.

Aos pais que cumprem corretamente o papel de pai, cuidador, amigo e protetor, deixo meus sinceros parabéns, aos demais deixo-lhes com a própria consciência e com o bordão reformulado: pai é quem cuida e cria.

Por Renata Floriano

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