Eleições e o “teto de vidro das mulheres”

Hoje (12/09/2018), ocorre um debate com cinco candidatos ao Senado pelo Rio Grande do Sul para as eleições 2018. Isso, mesmo, candidatOs, no masculino, com O maiúsculo: todos os convidados são homens. Nenhuma mulher foi convidada.

Se, das 15 candidaturas ao Senado do Rio Grande do Sul, 5 são de mulheres candidatas (1/3, portanto) qual foi a razão para convidar exclusivamente homens e excluir as mulheres?

Poderia ser algo relacionado à representação dos partidos na Câmara Federal, critério constitucionalmente utilizado para compor o coeficiente eleitoral; ou, mesmo, o resultado da última pesquisa eleitoral. Só que, vejam só, os dados relativos aos dois critérios não combinam com a lista de convidados. Tanto num quanto noutro critério uma mulher, no mínimo, deveria ter sido convidada. No mínimo. Em três cenários diferentes, conforme esses critérios, três mulheres diferentes poderiam (e deveriam) ser convidadas. Por que não foram convidadas?

Além de haver candidatas mulheres concorrendo às mesmas vagas que os homens convidados, metade da população e do eleitorado gaúchos (arredondando por baixo) é composto de mulheres; e, sem nenhuma razão importante, será promovido um debate só entre homens. Só homens. Então, além do critério excluir as mulheres candidatas, ele exclui, também, mulheres cidadãs e eleitoras. E isto deveria ser inadmissível.

No mesmo dia em que o debate acontecer, simultaneamente a ele, inclusive, as notícias sobre o que disse este ou aquele candidato, imagens dos debatedores e os principais assuntos tratados estarão nas mídias sociais; ao meio dia e à noite, nos jornais televisivos; no dia seguinte, nas capas e colunas dos jornais. E os cinco candidatos homens terão produzido um espaço de visibilidade a mais em meio a uma campanha eleitoral. As mulheres não. Numa disputa eleitoral, desigualdades como esta desequilibram a disputa. Isto também deveria ser inadmissível.

 

 

Este episódio é um de tantos exemplos do que se convenciona chamar de “teto de vidro das mulheres”, que são barreiras impostas às mulheres na ocupação de espaços de poder e decisão, através de mecanismos e estratégias construídos artificialmente e que estabelecem uma desigualdade capaz de inviabilizar apenas as mulheres, de forma injusta e ilegítima. Estas barreiras são naturalizadas (não são naturais, bom que se diga) pela sociedade e, por isso, são invisíveis. A sociedade está tão acostumada a elas que não as enxerga; mas elas existem, operam e impedem que mulheres acessem espaços de poder e decisão conforme suas próprias capacidades e em condições de igualdade com os homens. Por isso é considerado um “teto de vidro das mulheres”. Dele as mulheres não passam porque são injustamente impedidas.

Independente do critério utilizado, ele é sexista e, portanto, machista. E, na eleição que tem a presença das mulheres como fator de destaque, como candidatas e como eleitoras, é, no mínimo, um contrassenso.

Por Izabel Belloc Moreira
Imagem destacada: via Ray Williams

 

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