Em nome do pai, da filha e da mãe feminista, amém

 

30 anos e vários formatos, meu relacionamento com o pai da minha filha.

Trinta anos não é pouca coisa, então vou contar a versão resumida. Nasci nos anos 60, vivi a adolescência nos anos 70 e entrei na idade adulta nos anos 80. Não tive namorado na adolescência, o que não era incomum na época. Tinha uma paixão platônica, que deixava mais difícil me interessar por outros. O tal amante ideal, que permanecia perfeito por não ser real. Então rolava só uns beijinhos e uns amassos nas festas e cada um para o seu lado. Ainda mais que eu pretendia ter um relacionamento, encontrar um parceiro para a vida. Talvez até transar só depois de casada, também não tão incomum na época.

Como queria ser mãe, achava que se não achasse um parceiro, poderia me candidatar a ser mãe de Aldeia SOS. Mas não via vocação para tanto comprometimento. Me via mais vivendo sozinha numa casa, com pátio grande e rodeada de cães.

Quando conheci o pai da minha filha, ainda não era sexualmente ativa. Nem ele, cinco anos mais jovem. Pensando bem, acho que auto-satisfação é considerada atividade sexual. Então esquece, erámos bem ativos. Nos gostamos, nos tornamos inseparáveis e o relacionamento foi evoluindo. Ele cobrando comprometimento, eu achando doido aquele menino de brinco na orelha, tão lindinho, tão apaixonado. Quase pulei fora. Mas já era tarde, a simbiose era tanta que não dava para deixar passar. Nos conhecemos em maio, começamos o namoro em setembro e logo estávamos noivos. De aliança no dedo, padre escolhido pro casamento, vestido desenhado, conta conjunta. Sério. Muito tradicional? Pois é, as pessoas são complexas.

Nossa relação era como um conto de fadas naquela época.

Ele é músico, e foi convidado para tocar numa banda que fazia certo sucesso então. Vieram os shows, muitas cidades, muitos hotéis, muita aventura e coisas que eu não queria para a minha vida. Gravação de discos, mais sucesso e eu sendo confrontada com o estilo de vida sexo, drogas e rock’roll. Para mim não fazia sentido. Tudo era tão lógico e fácil antes, agora as novidades não eram legais. Eu tentava entender o que acontecia com ele, achava que eram as cobranças machistas da família e dos amigos, ele tinha se envolvido comigo tão jovem, talvez devesse ter direito a um pouco de liberdade, experimentar algumas coisas. Afinal, quando a gente tava junto, só nós, a gente ainda tinha aquela simbiose. Sincronicidade. Telepatia. Que só a gente entende, até hoje.

Daí ele conhece uma adolescente e se apaixona. Cai meu mundo. Como assim? Tudo isso que a gente é, que a gente tem e ele acha que vale mais a pena partir pra outra? Acho que eu não tinha entendido esse processo que ele tava passando. Eu aqui pensando em ter filho e ele pensando em me dar tchau?

Tudo complicou, eu pirei e precisei terapia para me reinventar e encontrar mecanismos para me proteger das coisas que não posso controlar, mas que afetam minha vida. Para mim, a pior coisa é o livre arbítrio dos outros anular o livre arbítrio da gente. Dá uma sensação horrível de impotência, de não ser dona da sua vida. Mas a gente aprende lições, como saber que numa relação uma pessoa pode estar feliz sem notar que a outra não está…

A vida seguiu. Até tentei me envolver com outros caras, mas tudo parecia tão ridículo que preferi não perder tempo numa busca sem sentido. Eu gosto tanto de mim, de fazer um monte de coisas! Conheci gente legal, colegas de trabalho que eram como uma família, amigos queridos para conversar, diversão, vida.

Durante esses anos a gente continuava se falando, se encontrando de vez em quando e muitas vezes, aos olhos dos outros eu era a louca que não largava do pé do cara. Uma mesma história pode ser contada por tantos ângulos diferentes, ele era bem mais discreto que eu quando me procurava.

Um dia aquele outro relacionamento dele acabou. E eu, já bem crescidinha, viajada e com mais bagagem de vida, resolvi reinvestir nesse relacionamento. Fui lançando a ideia, para depois fazer a sugestão, o pedido. Que tal termos um filho? Mais uma vez, o formato muda. Eu prometo não exigir nada, nunca impedir ele de ver a filha, nunca cobrar ajuda financeira, só aceitar o amor que ele possa dar, aceitar que ele seja o pai que possa ser. E quem conviveu conosco na gravidez e nos primeiros anos sabe que ele se encontrou como pai, minha intuição ainda funcionando muito bem. Eu tinha um emprego na época, ele tinha mais tempo para passar o dia com a nossa filha. Não pedi para ele se mudar lá para minha casa, mas ele não conseguia desgrudar da filha. Eu sempre explicava que era uma produção independente conjunta. Acho que nem existia isso, inventei esse termo.

Quando eu voltei da licença maternidade, ele foi passar um tempo em São Paulo em busca de trabalhos, com todo meu apoio, inclusive financeiro. Bom lembrar que em todas as fases do nosso relacionamento, a gente seguia a regra do quem tem põe, quem não tem tira. Desde que nos conhecemos temos conta conjunta, confiança total, sempre.
Como ele tinha se mudado de mala e cuia para meu apê, as coisas ficaram meio confusas, entendi como um comprometimento dele com a relação. Mas não. Ele acaba conhecendo outra pessoa, de novo. Outra adolescente. Já vi esse filme, que bom que já sei no que vai dar, assim posso pular umas partes para acabar logo com isso. Que acabar nada, não existe acabar quando tem uma filha no meio. Sorte que já elaborei os mecanismos de defesa. Só não contava que essa outra fosse achar que podia ser minha amiga e não entender que as coisas não são assim cor de rosa. Eu não queria essa pessoa na minha vida. Nem na vida dele. Mas não posso mandar na vida nele, né? E ninguém vai mandar na minha também, certo? Parece fácil de entender, mas nem sempre é.

Um dia ele chega muito tenso na minha casa, e acaba desabando e contando, em prantos, que a outra está grávida, que ele tinha dito que não queira ter um filho com ela. Mas ele carrega uma culpa de um aborto com a outra namorada. O que fazer? Eu, louca que sou, só penso em acabar com aquela dor. Não consigo ver ele chorar, isso sempre acaba comigo. Então digo que ele deve pedir desculpas para ela, que é a chance da nossa filha ter uma irmã, que tudo vai dar certo. Sou louca mesmo, acho que as pessoas são normais e racionais. Como, mesmo assim, não quero que a gente seja uma linda família feliz todos juntos, minha filha conhece a irmã – mas acaba sendo privada da convivência com ela. Tudo culpa minha, como sempre.

Todo mundo sabe que a ex (eu) é que é “louca e perseguidora”, então fica difícil de acreditar que seja a atual quem é obcecada pela ex. Que fique rondando meu território, gritando ofensas na rua, fazendo com que eu decida mudar de cidade para ter sossego, acabando com o contato diário de pai e filha, almoços em família?

Anos mais tarde, o filme se repete, outra gravidez indesejada/acidental, choro. Mas a aceitação é mais rápida. Desta vez, ele é proibido de sequer apresentar a irmã para nossa filha. Elas só se conhecem por foto ou gravação de vídeo.

Volta e meia, vem um furacão e expõe alguma prova de que nos encontramos, fizemos contato. Não tenho obrigação de resolver os problemas de relacionamento dos outros, gostaria que ele não prometesse o que não pode cumprir. Nossos acordos foram feitos e são eventualmente renegociados. Fui criada para ser livre e dona das minhas vontades. Não podo as liberdades dos outros, só peço que respeitem minha privacidade.

Não sei quais serão as próximas etapas do nosso relacionamento. Só sei que ele é real, sincero, fácil e livre. Conhecemos o melhor e o pior de cada um de nós, e seguimos em frente.

E hoje vivo numa casa, construída onde pensamos em criar nossa filha. Com a filha, o pátio, e oito cães.

Texto e imagem por Monica Seben de Azevedo.

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