Eu disse, ele disse

Sou feminista! Ele disse que nem feminista eu era.

Sou pesquisadora, ele disse que eu sou pseudointelectual

Sou colaboradora de sites, me chamou de pseudojornalista

Eu errei, me xingou de oportunista

Eu não mencionei minha fonte, ele disse que sou rasa

Eu mencionei referências, ele disse que eu só quero engordar o currículo

Mostrei dados, ele disse que não concorda

Fui aprovada em publicação internacional, “ah, qualquer um publica naquele jornaleco”

Ganhei prêmio literário, grande bosta! Seu texto é muito jornalístico

Trabalhei como intérprete para quadrinista estrangeira, “você gosta de lamber a bunda dos gringos”

Elogiei a moça que faz vídeos sobre quadrinhos, “só porque ela tem uma vagina?”

Apontei fatos, ele disse que são falsos porque ele nunca viu nada parecido

Fui ameaçada, ele perguntou se eu tinha provas

Fui estuprada, ele perguntou que roupa eu usava. “Você só quer aparecer”.

Eu disse que sou liberada sexualmente, ele disse que sou vagabunda

Eu disse que sou reservada, ele disse que sou moralista

Eu sorri, me acusou de ser falsa

Eu discordei, me acusou de ser arrogante

Fui gentil, “puxa-saco! Canalha! Gosta das coisas fáceis.”

Elogiei trabalho do colega, “você quer aplausos, quer biscoito”

Divulguei o trabalho das quadrinistas,” você e sua vaginolatria”

Falei mais alto, “quem você pensa que é? Sua idiota!”

Prestei concurso, “não vai passar. Você é burra”

Passei no concurso,” lógico que passaria, sabe puxar o saco”

Escolhi um tema para escrever, “mais do mesmo, superficial”

Falei de temas em comum,”está me plagiando”

Falei sobre os dados da violência nas varas de família do país, ele disse que ele trabalha no fórum da cidade há muitos anos e que eu uso falsos dados em prol de uma bandeira

Comentei sobre o número de estupros no Brasil, ele disse que eu não sabia fazer contas, apresentando os dados da Secretaria de segurança de um único estado

Recusei a explicação, “você é louca”

Aceitei a explicação,” aceita o machismo quando convém”

Concordei com tudo e disse o quanto ele era inteligente.

Ele acreditou: “é assim que se faz! Você aprendeu. Mas venha aqui, sabe que toda mulher gosta de apanhar, né?”

Eu morri. Ele disse: “Já foi tarde!”

 

Por Dani Marino
Imagem destacada: Punch & Judy, tradicional teatro de bonecos britânico

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