Faltou combinar com os homens

Tenho dois amigos da mesma idade: 30 e tantos, quase 40. Um homem e uma mulher. O amigo homem me disse hoje que vai se casar pela segunda vez. Entre o primeiro e o segundo casamento – um período de menos de 5 anos – ele teve vários casinhos e duas namoradas. A amiga mulher continua solteira e não namora pra valer desde os 20 e tantos.
Algumas das mulheres mais interessantes que eu conheço (incluindo a mencionada amiga, que é inteligente, charmosa e bem-sucedida) estão sempre sozinhas. Entre elas, há várias que chegam aos 40 sem terem vivido nenhuma relação monogâmica de longo prazo na última década ou mais, ou mesmo na vida inteira. Nenhuma. Apenas uma sequência de casinhos que começam promissores e terminam rápido, ou relações de baixa densidade, puramente sexuais, com maior ou menor grau de amizade, que se arrastam ao longo de meses, até anos, sem jamais criar raízes.

 

Se é verdade que “ao lado de todo grande homem, existe sempre uma grande mulher”, também é verdade que, ao lado de muitas grandes mulheres, o que existe, infelizmente, é um lugar vazio. Que fique claro que eu não falo, aqui, da solidão por escolha, e sim da solidão imposta pela dificuldade de encontrar um parceiro, dificuldade essa que não parece, nem de longe, acometer os homens com a mesma intensidade. Mesmo em tempos de “modernidade líquida”, para o homem (heterossexual, ao menos), o mais difícil é a decisão individual de se comprometer emocionalmente, não a concretização do compromisso. (A essa altura, minha psicóloga citaria Lacan, dizendo que as fantasias do homem e da mulher são incompatíveis: o homem desejaria ter todas as mulheres do mundo e a mulher desejaria ter um homem só, mas por inteiro).

 

Não faz muito tempo, o casamento era uma espécie de obrigação para a mulher. As que não se casavam eram poucas – geralmente as “esquisitas” (incluindo, nesse grupo, as homossexuais que não podiam se assumir) e as que ficavam com o dever de cuidar dos pais ou dos irmãos. Felizmente, a “obrigação” de se casar (e se manter casada) já ficou no passado. A questão agora é outra: quando as mulheres se tornam mais livres para poder priorizar projetos pessoais antes de comprometer com uma relação afetiva, o casamento deixa de ser obrigação para se tornar um prêmio. Ou seja, disseram que podíamos ter tudo, mas faltou combinar com os homens.

 

As razões para esse descompasso são múltiplas e complexas, passando por questões demográficas, sociais, raciais, econômicas, culturais etc, mas, em meio a isso tudo, há também um novo tipo de discriminação que surge após a ascensão social feminina, em que o foco da mulher no seu desenvolvimento intelectual e profissional, entre os 20 e os 30 anos, é visto por muitos homens como uma renúncia tácita a um projeto afetivo e familiar de longo prazo. Como se a mulher que ousa dispor do próprio tempo para ter acesso a espaços tradicionalmente masculinos perdesse o direito aos sonhos tradicionalmente “femininos”, como o de ter um parceiro estável e formar uma família.

 

Sim, existe a questão biológica, a diminuição da fertilidade (que, aliás, segundo as pesquisas mais recentes, afeta os homens na mesma medida que as mulheres) mas o que assusta mesmo é a autonomia. Homens sempre foram livres para decidir o melhor momento de se casar e ter filhos sabendo que haveria mulheres disponíveis quando esse momento chegasse. Quando as mulheres fazem a mesma coisa, são punidas com a rejeição. A mulher que admite estar procurando um parceiro estável para formar família depois dos 35 anos é logo rotulada de “encalhada” e “desesperada” por homens solteiros da mesma idade. “Se ainda não se casou, algum problema sério há de ter, claro”. Pois saibam, homens: na maioria dos casos, o único problema são vocês.

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Texto: Catarina Brandão  / Imagem destacada: Edward Hopper

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