Feminismo de um só capitulo tem que morrer

Eu vejo o tempo todo, feministas brancas repetindo um mantra, que a propósito concordo inteiramente:
“Ami…não somos rivais! Ami não somos rivais! Somos a revolução!”

Daí eu lembro que, não por acaso, antes de me assumir feminista, e isso só aconteceu a medida em que eu fui conhecendo feministas negras e até indígenas, o que me causava repulsa ao movimento era justamente essa questão, a rivalidade. Eu dizia que concordava com o feminismo mas que ele exista só no primeiro capítulo.

No segundo capítulo chamado “Homem” o feminismo terminava.

Porque mulheres brancas tem uma construção social pautada no separatismo sim, e focada na ilusória necessidade da presença masculina em suas vidas. Isso faz parte da construção da mulher branca, que não deixou o ranço de dependência patriarcal mesmo tendo avançado no mercado de trabalho (guardadas as devidas críticas a esse avanço, claro.).

Poucas vezes pude contar com a mão estendida ou o ombro amigo de mulheres brancas, mesmo amigas…

Por outro lado, a mulher negra, que desde o período colonial se viu sozinha, tendo apenas umas as outras, na ausência forçada de seus maridos, filhos e familiares, desenvolveu um senso de cumplicidade e comunhão, por que realmente com a gente é nós por nós. Poucas vezes pude contar com a mão estendida ou o ombro amigo de mulheres brancas, mesmo amigas, o que me levou a crer que a individualidade também é uma característica branca. Sempre que precisei de colo, era e é colo de preta.

Sempre que precisei de colo, era e é colo de preta.

Mesmo quando mulheres negras não formam vínculos afetivos em alguma instância a presença de outra mulher negra em algum espaço é extremamente reconfortante, evoca o sentimento de segurança, ela representa um contraponto em meio a hostilidade presente em ambientes brancos e que mesmo quando é sutil assimilamos.

Não que mulheres negras não sentem necessidade de relacionamento amoroso com homens ou que somos todas grandes amiguinhas de infância e andamos de mãos dadas o tempo todo. Não, conflitos e discordâncias existem aos baldes, mas estamos mais próximas de exercer o corporativismo velado que há entre os homens, salvo raras exceções.

E a presença masculina em nossas vidas, de tão incongruente e incerta, teve um lado positivo a medida que nos fez instintivamente (ou compulsoriamente) mais independentes ou menos dependentes deles.

Não temos tanto apego ao que historicamente nunca ou pouco tivemos. Durante a minha infância convivi com muitas mulheres negras que amavam, sofriam, se descabelavam, se desesperavam, mas se recompunham e tinham uma relação surpreendentemente desprendida com os seus pares, e a questão era sobrevivência, porque tinham um mundo nas costas pra dar conta.

Não temos tanto apego ao que historicamente nunca ou pouco tivemos.

Elas não dependiam dos homens para se impor ou se fazer respeitar, até porque eles eram sempre ausentes, mesmo quando presentes. Ao passo que as mulheres brancas parece que só existam na presença de “seus homens”. Tudo era feito em função deles. Cada gesto, cada fala e até as amizades eram estabelecidas para o agrado deles, juntamente com as relações familiares, elas só gostam de quem eles gostam (e eles só gostam do que mantém sua segurança…).

E isso em 2016 ainda não mudou. Mulheres brancas formam ou desfazem amizades como estratégia para manter relacionamentos com homens. Assumem opiniões que eles “inspiram”, tomam posicionamentos que acompanham o que eles pensam, se descaracterizam totalmente em nome das relações que querem manter e não pensam duas vezes em passar por cima de quem for por causa deles. Isso é tão triste.

Amiiiiiiiiiissss, entendam e incorporem o mantra “não somos rivais”.

Então, amiiiiiiiiiissss, entendam e incorporem o mantra “não somos rivais”. Exerçam a comunhão fundamental, principalmente quando se assumem feministas. Porque o separatismo de que o feminismo negro vem sendo acusado de promover é a projeção do comportamento natural de vocês. Vocês são essencialmente separatistas entre si e o racismo só faz entornar um caldo ralo e empobrecido pelos comportamentos de submissão internalizada que vocês precisam resolver sob pena de nunca serem levadas a sério. Feminismo de um só capitulo tem que morrer. Pra ontem.

Por Joice Berth
Imagem destacada: Beyoncé Lemonade

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