Feminismo e prostituição

Eu não tenho opinião formada sobre várias coisas no feminismo. A regulamentação da prostituição é uma delas. E apesar de não ser prostituta e de não estar atrelada a esse ativismo, penso e tento ler sobre o assunto sempre que possível.

Tenho algumas amigas de Facebook que são prostitutas. Tenho amigas-amigas prostitutas também, e esse contato é enriquecedor para a minha formação como historiadora e feminista. Não me interessa e nunca me interessou um feminismo limpinho e coerente, justamente porque a vida real está bem longe disso. Então tento, mentalmente, trabalhar esse caos. Me permito não pôr pontos finais em alguns assuntos, estando sempre aberta ao que pode surgir como novidade.

Não me interessa e nunca me interessou um feminismo limpinho e coerente

Dito isto, me mantenho sempre como espectadora e ouvinte daquelas que possuem uma realidade tão diversa da minha. Eu, mulher branca, cis, hetero, casada e acadêmica, não tenho porque dar pitacos e julgar pessoas que enfrentam outras formas de prazeres e violências.

Fico imensamente feliz ao ver que existe um ativismo das trabalhadoras sexuais falando e se reivindicando feminista. Levando o feminismo para esse cotidiano. Discutindo violência de gênero em um dos grupos mais marginalizados e esquecidos da sociedade. Só isso já me dá motivos para comemorar.

O feminismo não pode esperar o patriarcado e as relações desiguais, estruturais e estruturantes, serem extintos para surgir, tampouco tem regras expostas em uma cartilha perfeitamente coerente. Aliás, já está na hora de queimarmos nossas cartilhas, porque além de estarem desconectadas do mundo real, elas propõem um feminismo higienizado, bonitinho e excludente. O feminismo não pode e nem deve ser um fóssil. Ele está sempre em movimento, sempre em (re)construção.

Nos últimos dias tive o desprazer de testemunhar, em uma postagem da Mídia Ninja, o preconceito, o racha e os ataques a três prostitutas ativistas. Ao lado dos bolsominions de sempre estavam algumas feministas radicais propagando slut shaming, transfobia, putafobia, retirando frases do contexto e chamando uma amiga minha (prostituta e trans) de “pedófilo” (no masculino) por relatar um dos fetiches que surgem nessa atividade laboral.

Deu nojo ver o desrespeito partindo de feministas contra um dos grupos mais excluídos da sociedade. Isso a gente espera de reaça, conservador, fascista. Nunca de quem, teoricamente, deveria estar do mesmo lado.

Por Ana Vitória Sampaio
Imagem destacada: Via chanttalks.com – Amber Rose emulando Rosie The Riveter. Rose é produtora, autora, apresentadora… e uma ex-stripper cujo ativismo feminista é reconhecidamente sex-positive.

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