Gênero e modelos de dominação e parceria

Em nosso texto anterior, assumimos o compromisso de escrever sobre os modelos de dominação e de parceria, explicando as diferenças básicas, interativas e as quais se sustentam mutuamente, além de relacioná-las com as teorias positivista-funcionalista e histórico-crítica. Pois bem, vamos ver onde isto irá nos levar…

Ao final de “O Prazer Sagrado – Corpo, Mito e Político do Corpo”, a historiadora cultural Riane Eisler, expõe, de forma resumida, em uma espécie de apêndice, sete diferenças básicas, interativas e que se sustentam mutuamente. Assim, antes de mais nada, quais são os componentes e quais as diferenças?

O primeiro componente é a Relação dos Sexos. No modelo de dominação (o qual estamos vivendo), ‘O homem ocupa uma posição superior à da mulher e as características e valores sociais estereotipadamente associados com “masculinidade” são considerados superiores aos associados com “feminilidade”.’ A autora, aqui, cuida, de explicar, através de uma nota de rodapé que os termos “masculinidade” e “feminilidade” se referem aos estereótipos sexuais construídos socialmente para uma sociedade dominadora, e não para características inerentes à mulher ou ao homem. Já no modelo de parceria, ‘Mulheres e homens são avaliados igualmente na ideologia que predomina, e os valores estereotipadamente “femininos”, tais como a proteção e não-violência recebem primazia operacional.’

Masculinidade e feminilidade como conceitos – Joanna Burigo no TEDxLaçador 2018

O segundo componente, apresentado por Eisler, é a Violência. No modelo de dominação, “Um grau elevado de violência e abuso é institucionalizado, do espancamento de esposas e filhos, estupro, guerra ao abuso psicológico pelos ‘superiores’ na família, no local de trabalho e na sociedade em geral”. Por outro lado, no modelo de parceria, “A violência e o abuso não são componentes estruturais do sistema, de modo que é ensinado, tanto aos meninos quanto às meninas, a resolução não-violenta de conflitos. Consequentemente, o índice de violência social é baixo”.

A Estrutura Social é o terceiro componente. No modelo de dominação, a estrutura social é predominantemente hierárquica (Eisler ressalta que o termo ‘hierárquico’ refere-se ao que podemos chamar de hierarquia da dominação, ou o tipo de hierarquia inerente ao modelo dominador de organização social, baseado no medo e na ameaça da dor. Tal hierarquia seria distinta de um segundo tipo, que podemos chamar de hierarquia da realização. Um exemplo da hierarquia da realização vem da biologia: a hierarquia de moléculas, células e órgãos do corpo, uma progressão para um nível superior e mais complexo de função. Nos sistemas sociais, as hierarquias de realização concordam com a equiparação de poder com o poder de criar e atualizar o potencial, seu e dos outros) e autoritária, com o grau de autoritarismo e hierarquismo aproximadamente igual ao grau de dominação masculina. Entretanto, no modelo de parceria, “A estrutura social é mais igualitária, com a diferença (quer baseada no sexo, na raça, na religião, na preferência sexual, que no sistema de crenças) não é associada automaticamente com posição social e/ou econômica superior ou inferior”.

O próximo componente é a Sexualidade. No modelo de dominação, “A coerção é um elemento importante na seleção do parceiro, na relação sexual e na procriação, com a erotização da dominação e/ou repressão do prazer erótico através do medo. As funções primordiais do sexo são a procriação e o alívio sexual do homem”; no modelo de parceria é “O respeito e a liberdade de escolha para mulheres e homens caracterizam a seleção do parceiro, a relação sexual e a procriação. As funções primordiais do sexo são a união entre a mulher e o homem através da troca de prazer e a reprodução da espécie”.

O quinto elemento, de acordo com Eisler, é a Espiritualidade. No modelo de dominação, “O homem e a espiritualidade são posicionados acima da mulher e da natureza, justificando sua dominação e exploração. Os poderes que governam o universo são imaginados como entidades punitivas, seja um pai distante cujas ordens devem ser obedecidas sob pena de castigos terríveis, seja uma mãe cruel, ou demônios e monstros que se deliciam arbitrariamente atormentando os seres humanos e que, portanto, devem ser aplacados”. Por r seu turno, no modelo de parceria,  “A dimensão espiritual dos poderes vitalizadores e sustentáveis da mulher e da natureza são reconhecidos e altamente valorizados, assim como tais poderes no homem. A espiritualidade é ligada a empatia e equidade, e o divino é imaginado através de mitos e símbolos do amor incondicional”.

O penúltimo componente é Prazer e Dor que, no modelo de dominação, é “A inflição ou ameaça da dor é parte integrante da conservação do sistema. O prazer do toque, nas relações sexuais e entre pais e filhos, é associado com dominação e submissão, portanto, com dor, seja no chamado amor físico no sexo ou na submissão a uma divindade ‘amorosa’. A inflição e o sofrimento da dor são sacralizados”. Por outro lado, no modelo de parceria, “As relações humanas são mantidas mais pelos vínculos do prazer do que pelo medo da dor. O prazer em comportamentos generosos é apoiado socialmente, e o prazer é associado com empatia. Cuidar do outro, fazer amor e outras atividades que dão prazer são consideradas sagradas”.

Por fim, temos como sétimo e derradeiro componente, Poder e Amor. No modelo de dominação, “O sumo poder é o de dominar e destruir, simbolizado, desde a antiguidade, pelo poder letal da espada. O ‘amor’ e a ‘paixão’ são frequentemente usados para justificar ações violentas e abusivas daqueles que dominam, como no assassinato de mulheres por homens que suspeitam de uma independência sexual por parte delas, ou nas ‘guerras santas’ justificadas como por amor a uma divindade que exige obediência de todos”. Contudo, no modelo de parceria, “O sumo poder é o poder de dar, nutrir e iluminar a vida, simbolizado, desde a antiguidade, pelo cálice sagrado ou o Graal. O amor é reconhecido como a expressão mais elevada da evolução da vida em nosso planeta, e também como o poder universal unificador”.

Expostos os componentes e suas diferenças organizados por Riane Eisler, é a vez de tratar das duas grandes teorias sociológicas, sob a ótica do doutor em Sociologia e Comunicação, Pedrinho Guareschi.

Em “Sociologia Crítica” Guareschi discorre sobre a teoria positivista-funcionalista e a da histórico-crítica.

“O pressuposto (isto é, aquilo que não é dito, mas é aceito) da teoria positivista-funcionalista é de que tudo está organizado, tudo está equilibrado e tudo procura uma harmonia. Para eles o normal (e por isso mesmo, o bom: veja o aspecto ético) é que a coisa funcione. Se funciona é bom. Se não funciona, não é bom; algo está errado, não presta. (…) O ideal é permanecer tudo como está. Mais uma coisa: como os que patrocinam essa teoria veem a mudança? Aqui está um ponto muito interessante. Para eles, só pode haver mudança se a coisa toda mudar, isto é, se a coisa deixar de existir. Mudança, para eles, é sinônimo de morte, e só pode vir de fora. Pois se a sociedade é como um corpo, o normal do corpo é que funcione, isto é, que viva”.

Mais adiante, ele provoca:

“Uma última coisinha, que penso que você já está percebendo: a quem poderia interessar tal teoria? A quem pode ajudar tal teoria? Qual a ideologia por trás dessa teoria? Veja você: se eu digo que a realidade é o que está aí, e o que está aí é o melhor, e isso que está aí deve continuar sempre assim, a quem isso pode interessar? É evidente: interessa a quem está por cima, pois eles estão muito bem, obrigado, e se a coisa continuar sempre assim, será sempre bom para eles que vão continuar sempre assim, será sempre bom para eles que vão continuar no bem-bom. Por isso eles patrocinam tanto essa teoria, pois é a garantia para eles continuarem sempre por cima. E, por isso, se chega mesmo a definir a realidade (veja você, a realidade) como o que está por aí, para que ninguém possa nem tentar imaginar que as coisas possam ser diferentes daquilo que está aí (pois se alguém quiser algo diferente do que está aí, estaria querendo algo irreal e mau, pois o que está aí é o que funciona e, para ser bom, tem de funcionar como está aí)”.

Por outro lado, temos a teoria histórico-crítica cujo “pressuposto é que ‘tudo o que é criado é histórico’. Acho que não há dificuldade em se aceitar tal pressuposto, pois é quase uma definição da coisa mesma: o que é criado, não é eterno, apareceu e vai desaparecer. Por isso mesmo, é precário, transitório, isto é, histórico”.

Além disso, Guareschi lembra que “Nós vimos que um dos nomes que se dá à outra teoria (positivista-funcionalista) é o de teoria absolutista. E isso porque a outra teoria não leva em consideração esse fato importante de que tudo é incompleto, tudo é relativo, tudo é histórico. E, sem querer, a gente vai criando uma mentalidade de absolutizar as coisas e não perceber que ainda precisa ser preenchido. Essa teoria histórica fica, pois, continuamente nos provocando e chamando a atenção para essa coisa fundamental e importante: ainda há algo para ser feito, para ser completado. (…) Às vezes, o que não é dito é muito mais do que o que deveria ser dito para se poder entender a coisa como ela deveria ser entendida ou compreendida”.

O autor acrescenta ainda que “Um outro nome muito bom para essa teoria é o de teoria crítica. Crítica vem do grego ‘krinein’ que significa julgar. Você já assistiu a algum julgamento? Pois em qualquer julgamento você vai ver sempre duas partes: alguém que acusa, e outro que defende. Por definição, é preciso que existam essas duas partes. A justiça é simbolizada, por isso, com uma balança na mão. É verdade que muitas vezes ela é cega, ou se faz de cega, para fazer algum prato da balança pesar mais, mas não deveria ser assim. É impossível imaginar uma balança com um lado só, não é verdade? (…) possui uma visão crítica aquela pessoa que de antemão, isto é, antes mesmo de ver, ouvir ou ler qualquer outra coisa, tem essa convicção íntima e profunda de tudo o que é histórico possui ao menos dois lados: que nada é absoluto, total; que é preciso ver os dois lados da coisa: a versão da polícia e a do bandido. Mas isso é assim por definição. A visão crítica é como se fosse um hábito, um costume, algo que sempre se deve fazer , em qualquer circunstância e em qualquer momento”.

Um pouco mais adiante, Guareschi afirma que “A teoria histórico-crítica incorpora dentro do conceito de realidade o projeto, o futuro. E isso faz das pessoas um tipo diferente de gente: gente aberta ao futuro, gente de visão profética e transformadora. O que virá também faz parte da realidade e é objeto de nosso trabalho e nossa luta. São pessoas totalmente diferentes em suas mentalidades e em suas ações. As pessoas de mentalidade positivista-funcionalista, ou de mentalidade absolutizadora, são de pessoas castradas, sem projeto e sem futuro. Resumidamente ao aqui e agora. Estão cercadas e fechadas no presente. Não conseguirão nunca quebrar o círculo fechado e férreo do sistema em que vivem. As pessoas de mentalidade histórico-crítica, ao contrário, são pessoas que incorporam na definição da realidade o futuro e a mudança. A mudança faz parte da própria teoria. Para essa teoria, a mudança sempre é possível, na medida em que a coisa se completa. Sendo que as coisas não estão nunca prontas, acabadas, elas vão mudando na medida em que vão se aperfeiçoando, em que vão superando a contradição interna que existe em todas as coisas, pelo fato mesmo de não serem totais e acabadas”.

Por fim, da mesma forma que ele questionou em relação à primeira teoria, Guareschi também o faz aqui: “a quem interessa uma teoria histórico-crítica? É evidente que interessa a toda a pessoa que deseja ver a coisa global, a toda pessoa que não está contente com o que está aí apenas, a toda pessoa que deseja algo diferente, melhor. Os que lutam por algo melhor, só poderiam se guiar por uma teoria que incorpora a mudança e a esperança de algo diferente. Quem deseja um mundo novo, encontra nessa cosmovisão os elementos necessários para um trabalho e uma luta de renovação e transformação. Dentro do presente, já estão em gestação as sementes duma nova sociedade”.

Após essa extensa – e necessária – apresentação de elementos teóricos, podemos, pois, fazer as considerações que deram origem a este texto.

Antes de mais nada, por mais que seja óbvio, é preciso recordar que vivemos em um mundo cujo modelo de dominação prevalece, bem como a teoria positivista-funcionalista. A combinação destes elementos é que mantêm o patriarcado como pilar da humanidade em geral. Daí, temos toda uma extensa lista de regulação (política) do corpo das mulheres, por parte dos homens e das religiões (que, convém recordar, nada mais são do que criações humanas) e também a existência dos aparelhos ideológicos, a saber (listo apenas os citados e analisados por Guareschi): Direito, escola, família, igrejas, sindicatos, cooperativas e comunicação. Todos estes mecanismos são usados para a manutenção do funcionamento do Estado calcada na teoria positivista-funcionalista.

Nossa luta, por óbvio, é para modificar o curso da História. Para tanto, com base na teoria histórico-crítica, precisamos substituir o modelo de dominação pelo de parceria, que, aliás, em algum momento de nossa trajetória pela Terra foi suplantado a partir do momento em que o homem se deu conta de que possuía papel ativo na reprodução da espécie e substituiu a Deusa por Deus.

Por Luíza Eduarda dos Santos
Imagem destacada: Vênus de Willendorf, NHM Vienna (Alice Schumacher)

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