Hannah Gadsby e os homens bons

A comediante neozelandesa Hannah Gadsby teve um 2018 e tanto. Seu especial na Netflix, Nanette, deu o que falar, ela roubou a cena na premiação do Emmy, e fecha o ano com contrato assinado para publicação de um livro. Neste 05 de dezembro, em festa de gala do Hollywood Reporter em comemoração às 100 mulheres mais poderosas do entretenimento, ela fez a fala de abertura. E arrepiou, chamando a atenção dos “homens bons” e da linha que eles mesmo traçam para se distinguirem dos “homens maus”.  Você pode assistir o vídeo completo abaixo, ou ler a tradução que fizemos a partir de uma transcrição feita pela Vulture, abaixo.

Eu quero falar sobre o grande problema que tenho com os homens bons, especialmente os homens bons que se encarregam de falar sobre os homens maus. Acho homens bons falando de homens maus incrivelmente irritantes, e isso é algo que os homens bons estão fazendo muito no momento. Não neste momento, nem neste minuto, porque os bons homens não precisam acordar cedo para terem a oportunidade de fazer um monólogo com suas opiniões sobre a misoginia. Eles têm o horário nobre da TV e os talk shows.

Eu vou dizer a vocês, estou cansada de ligar minha televisão no final do dia e encontrar até 12 Jimmys me dando suas perspectivas quentes. Não me entenda mal, não há nada de errado com os Jimmys, os Davids e os outros Jimmys – caras legais, ótimos caras. Alguns dos meus melhores amigos são Jimmy. Mas a última coisa de que preciso neste momento da história é ouvir homens falando sobre misoginia e sobre como os outros homens deveriam simplesmente deixar de ser “assustadores”, como se esse fosse o problema. “Se apenas esses homens maus soubessem como não ser assustadores!”

Esse é o problema? Os homens não são assustadores. Você sabe o que é assustador? Aranhas, porque não sabemos como elas se movem. Rejeitar a humanidade de uma mulher não é assustador; é misoginia.

Então, por que os homens não podem fazer monólogos sobre esses assuntos? Bem, eles podem, e eles fazem. Meu problema é que, de acordo com os Jimmy, existem apenas dois tipos de homens maus. Existem os tipos Weinstein/Bill Cosby que são tão horríveis que podem ser espécies diferentes dos Jimmys. E depois há os ADJs: os amigos dos Jimmy. Estes são aparentemente homens bons que interpretam mal as regras – homens comuns, com dislexia sobre consentimento. Eles têm o livro de regras, mas eles apenas o leram por cima. “Ah, isso é um ponto e vírgula? Minha culpa. Eu pensei que isso significava sexo anal. ” Peço desculpas aos veganos nesta audiência.

Minha questão é que quando homens bons falam sobre homens maus, eles sempre ignoram a linha na areia – a linha na areia que é inevitavelmente desenhada sempre que um homem bom fala sobre homens maus: “Eu sou um homem bom. Aqui está a linha. Para lá estão todos os homens maus.” Os Jimmys e os homens bons não falam sobre essa linha, mas nós realmente precisamos falar sobre essa linha. Vamos chamá-la de Kevin. E nunca mais vamos chama-la disso novamente.

Precisamos falar sobre como os homens traçarão uma linha diferente para cada ocasião diferente. Eles têm uma linha para o vestiário; uma linha para quando suas esposas, mães, filhas e irmãs estão assistindo; outra linha para quando eles estão bêbados e fraturados; outra linha para não divulgação de seus atos; uma linha para amigos; e uma linha para inimigos.

Você sabe por que precisamos falar sobre essa linha entre homens bons e homens maus? Porque são apenas bons homens que conseguem traçar essa linha. E adivinha? Todos os homens acreditam que são bons.

Precisamos falar sobre isso, porque adivinha o que acontece quando apenas homens bons conseguem traçar essa linha? Este mundo – um mundo cheio de homens bons que fazem coisas muito ruins e ainda acreditam, do fundo de seus corações, que são homens bons porque não cruzaram a linha, porque eles movem a linha para seu próprio bem. As mulheres devem estar no controle dessa linha, sem dúvida.

Agora pegue tudo o que eu disse até este ponto e substitua “homem” por “pessoa branca”, e saiba que se você é uma mulher branca, você não que desenhar linhas na areia entre pessoas brancas boas e pessoas brancas ruins. Encorajo-vos a também tomar o tempo para substituir “homem” com “hétero”, ou “cis”, ou “fisicamente capaz” ou “neurotípico”, etc etc.

Todo mundo acredita ser fundamentalmente bom, e todos nós precisamos acreditar que somos fundamentalmente bons, porque acreditar que somos fundamentalmente bons faz parte da condição humana. Mas se você precisa acreditar que alguém é ruim para acreditar que você é bom, você está traçando uma linha muito perigosa.

De muitas maneiras, essas linhas na areia que todos desenhamos são histórias que contamos para nós mesmos, de modo que ainda podemos acreditar que somos pessoas boas.

Ouch. 

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