Mamadeira de piroca, 2018 e histeria

2018 foi o ano da histeria coletiva nacional.

Foi o ano que as pessoas começaram a receber foto de mamadeira de piroca e acreditar, mas acreditar mesmo, que aquilo seria distribuído nas creches pelo país.

Pra mim foi aí que a gente se perdeu, quando a primeira pessoa acreditou na mamadeira e a gente não notou, a gente seguiu rindo porque era pra rir, sabe, a gente não notou que tinha gente levando a sério.

Aí depois disso foi ladeira abaixo com ganho constante de velocidade. Foi “ideologia de gênero”, foi “Venezuela” e “comunismo”, foi tudo, tudo de mais absurdo que se pode imaginar, colado com a ideia de tirar o PT do poder.

Junto com isso uma gente que não entende nada, nadinha de nada, de administração pública decidiu sair dando pitaco na onda do “é só fazer, é só querer, é só ter boa vontade”. E com isso todo mundo começou a acreditar que era só colocar uma pessoa com boa vontade no poder que tudo se resolveria. Aí tamo aí com candidato eleito indo fazer curso pra aprender a governar, mostrando que não entende nem de princípios básicos da república como a repartição de poderes e etc. Coisa feia de ver.

Me lembra muito um dia que eu estava fazendo trilha e o guia nos apresentou pra um homem que dizia conhecer todo tipo de árvore, era só apontar pra uma que ele nos daria o nome e falaria sobre ela. Eu testei e apontei umas 4, ele realmente falou sobre todas, fiquei impressionada. Continuei a trilha meio deslumbrada até me dar conta que, na verdade, ele podia falar qualquer coisa, como eu não entendo nada de árvores a convicção dele me falando que entendia já me impressionava o suficiente.

É muito fácil fazer discurso com promessas vazias

É muito fácil fazer discurso com promessas vazias pra gente que não entende como essas promessas são executadas (e quando podem ser).

E um candidato obviamente iria surfar nessa onda.

O mais engraçado é que quem votou no candidato acreditava em tudo isso, em tudo que foi dito de bobagem sobre outros candidatos e outros partidos, só não acreditava no que dizia, veja só, o próprio candidato.

– Mas gente, ele tá dizendo que vai acabar com a universidade pública.

– ah, ele não vai fazer isso, não vai ter apoio parlamentar suficiente

– Mas gente, ele assumiu compromisso de proibir casamento homoafetivo e disse varias vezes que ninguém suporta gays, que gay tem que apanhar mesmo

-Ahhh, é só o jeito dele falar, não vai fazer

E foi assim, essa coisa louca.

As pessoas que acreditavam nas mil bobagens que foram espalhadas, não acreditavam no que dizia Jair Bolsonaro, e por isso votavam nele (?!).

As pessoas que não acreditavam nas bobagens, acreditavam no que dizia Jair Bolsonaro, e exatamente por isso não votaram nele.

E aí ele foi eleito por um monte de gente que segue dizendo que ele não vai fazer nada do que falou que faria.

E a gente, que acredita que ele vai fazer tudo sim, segue em choque de como pode um monte de gente ter eleito um cara que eles duvidam que vai fazer o que disse que faria.

O fato é que essa gente que acredita nas mentiras mas não acredita no candidato, acha que a gente, que acredita no Presidente, mas não nas mamadeiras e afins, tem que torcer pra dar certo e, ainda, ver a posse, aplaudir e torcer.

Mas aí, francamente né, porque se vocês que tão do lado dele não acreditam que ele vai fazer o que disse, a gente que quer mais é que ele acorde e desista disso tudo tem que torcer pra quê?

Tem que acompanhar posse por qual motivo? Pra começar a sentir a vergonheira nacional de ter uma pessoa assim nos representando, mas que por sorte talvez não vá fazer nada do que disse porque “é só o jeito dele”?

Na boa, se isso não é uma grande loucura coletiva eu não sei o que é.

Por Paula Bernardelli

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