Maria Madalena e o ódio histórico à mulher

É verdade que existem várias teorias sobre Maria Madalena. Tem uma até que diz que ela era mulher de Jesus Cristo. Já fizeram livro e filme sobre isso, de modo que essa ideia não é necessariamente uma novidade.

Pra mim a novidade foi outra. Dia desses, numa conversa informal com a minha mãe, ela me falou que tinha lido que Maria Madalena nunca foi prostituta. Segundo mamãe leu, a Igreja Católica teria sido a grande responsável pela mudança de profissão dela. A jovem, camponesa e do lar, virou prostituta de rua.

Resolvi dar uma pesquisada e, de fato, existem teorias que falam que Maria Madalena era uma moça muito próxima de JC. Vários blogs católicos e a própria Opus Dei a confirmam, por sinal. Nessa teoria ninguém fala sobre relacionamento amoroso. O que havia entre Maria Madelena e Jesus era pura amizade. Ela teria se afeiçoado à ele e se tornado sua discípula porque ele era bem gente boa e eles viraram amigos. Só.

Anos depois, mais precisamente em 591, o Papa Gregório Magno teria “interpretado” a Bíblia de uma forma um tantinho diferente. Numa de suas homilias ele disse que Maria Madelena seria, na verdade, uma prostituta. O estranho é que as passagens bíblicas que falam do passado de Maria Madalena (Ls 7, 36-50 e Ls 8, 2-3) só dizem que ela era uma mulher pecadora – joga pedra na Geni – e que vinha de uma cidade chamada Magdala, famosa por sua “imoralidade e libertinagem”.

Eu fico imaginando o essa cidade deveria ter para ser conhecida como a cidade da libertinagem… Enfim. O fato é que o Papa, muito malandramente, achou por bem reclassificar a moça e a tirou da qualidade de camponesa e a tachou como prostituta. Tava feito o estrago.

Veja bem: não há absolutamente nenhum problema em uma mulher ser prostituta. O problema da história de Maria Madalena não é esse.

Veja bem: não há absolutamente nenhum problema em uma mulher ser prostituta. O problema da história de Maria Madalena não é esse. O ponto é que a Igreja, de forma cruel e misógina, selou o destino de uma das mulheres mais importantes na vida de Jesus, imputando-lhe uma condição que ela não escolheu. Ao considerar Maria Madalena uma rameira, o Papa quis tirar a sua credibilidade e diminuir a sua importância histórica. Tudo isso porque ainda hoje prostitutas são vistas como mulheres que não merecem um pingo de confiança. E se isso não é ódio contra as mulheres, eu realmente não sei o que é.

Não é de hoje que o mundo odeia as mulheres. Não é preciso um louco escrever uma carta e sair atirando em 9 de nós na noite de Réveillon pra gente se dar conta disso. Esse ódio já existe de outros Carnavais. Essa ira é histórica.

Mas esse inconformismo tem uma explicação simples: medo. Não é pura maluquice. É medo de perder o poder. É medo de se sentir inferior. É medo de se sentir dispensável.

Enquanto a nossa sociedade achar que mulheres são propriedades de homens, enquanto a nossa sociedade achar que mulheres não tem direito de serem o que quiserem – inclusive prostitutas -, vamos continuar vivendo essa histeria coletiva que insiste em nos matar e nos calar.

Que 2017 seja o ano em que possamos acordar dessa nossa doença. Que em 2017 a gente comece a se tratar, sob pena de seguirmos destruindo a tod@s nós. Avante!

Por Carol Campos
Imagem destacada: representação eurocêntrica de Maria Madalena e Jesus, encontrada via Google

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