Marta e o abuso

Marta tem 29 anos, um filho de nove, trabalha, é independente, e dizem para ela que ela é linda e inteligente. Marta não acredita muito nisso. Não no momento.

Marta namorava um “cara legal”. O Carvalho. Carvalho é branco, tem olhos claros, é desses cabeludos poéticos que se dizem feministas. Marta se apaixonou. E não era a primeira vez que Marta se via apaixonada por aquele homem.

Da primeira vez, ele disse que não sentia a mesma coisa por ela, e a história não passou de um caso de alguns meses. E já então o cara não trabalhava. Era “artista”, mas do tipo que se acha muito genial pra correr atrás da máquina e garantir o próprio sustento. A paixão aconteceu de novo. E Marta, como sempre, foi compreensiva: ajudava ele financeiramente, e de todas as formas.

Mas ela foi perdendo o brilho no olhar, pois não tinha nenhum reconhecimento. Muito pelo contrário, quando começaram a sair, ele dizia que não podia “se queimar” ficando com ela em público. Segundo ele, a inveja destruiria o amor tão lindo dos dois. Marta aceitava. Ficava calada. Achava que ele tinha razão.

Quando ”assumiram” o relacionamento, não teve foto no Facebook. “Não precisa”, ele dizia. Durante esse tempo Marta ouviu coisas do tipo ”eu sou músico; você precisa se acostumar a não sentir ciúmes; várias minas me dão moral; eu tentei te dar uma chance; você que não está aproveitando”, dentre outras coisas.

Marta foi ficando insegura. Triste. Cansada. Mas continuava ali.

“Oi gatinha, preciso pagar o aluguel , você disse que me ajudaria”, ele dizia, ao mesmo tempo em que dormia até o meio-dia.

“Oi amore, preciso pagar a pensão até o dia 20, não tenho grana, estou chateado por isso”. Marta, triste por ver seu amor triste, saca o dinheiro, arca com o pagamento da pensão do filho dele. Marta paga o aluguel. As contas. O preço.

Marta: primeira-dama da cama e das finanças.

“Eu sou livre, você não vai conseguir me manter em um relacionamento.” Marta ficava cada dia mais triste, não sentia que estava sendo vista no relacionamento.

“Meu ego morreu, você precisa evoluir, se não isso nunca vai dar certo”, Marta dizia, sentindo-se insuficiente… e via aquela outra menina me mandando mensagem, e via ele mandando um “bom dia gatinha” para aquela outra… Marta via tudo, fingia que não via nada.

Vai lá Marta, tem que manter esse relacionamento, você já está com quase 30 anos.

Carvalho pediu um tempo, porque Marta atrasou o dinheiro do aluguel, com o que ele conta pois vive sob o espectro da prisão e do despejo. Marta deu a grana para ele de manhã. De noite ele pediu um tempo. Marta fica triste, mas pensa: ok.

No sábado Marta acordou e viu que aquilo não era para ela. Vai até o apartamento dele, cujo aluguel ela pagara, para pegar suas roupas. Chegando lá encontra Carvalho de cara fechada. Eles iniciam uma discussão. Marta quebra um disco que ela mesma comprou. Carvalho, ao ver aquilo, fica descontrolado e vai ”segurar” Marta, afinal ela é mulher louca!

“Toma aqui vagabunda”. Um soco na cara de Marta, que cai no chão desolada, e seguem as agressões.

“Entra no carro, puta, foi para isso que você veio aqui, né? Para eu me descontrolar e te bater, porque é disso que tu gosta, seu lixo”.

Marta entra no carro. Carvalho arranca Marta do carro, joga suas roupas na calçada, na frente dos vizinhos. Marta não serve mais para nada. Lixo. Puta. Mentirosa. Marta é louca e mentirosa.

As marcas físicas vão embora no dia seguinte, as marcas da alma não se sabe.

Não me chamo Marta, mas Marta sou eu, que escrevo anonimamente por proteção. Este é o retrato de um relacionamento abusivo. Um relacionamento abusivo com um “esquerdomacho”, lindo de bonito poeta coque e flor na barba.

Quantas Martas são preciso para que a sociedade entenda relacionamentos abusivos? Quantos relacionamentos abusivos são preciso para que a sociedade entenda que nada jamais justifica esse tipo de agressão, psicológica ou física?

Imagem: Via Zeen
O trabalho faz referência a uma instrução específica de um livro de Yoko Ono, Grapefruit, publicado em 1964, em que a artista sugere ações que um indivíduo pode ou não realizar. Esta chama-se “Painting to Shake Hands (painting for cowards)” [Pintura  Para Apertos de Mão (pintura para covardes)] 

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