#MeToo: lançando luz a uma multiplicidade de vozes

Minna Salami é uma escritora, palestrante e comentarista social. Seu trabalho, que pode ser conferido em Ms Afropolitan (em inglês), combina várias disciplinas, como narrativa pessoal, teoria feminista, cultura pop, estudos africanos e críticas sociais, a fim de explorar novas formas de pensar o mundo. Minna já foi entrevistada por Deise Nunes com exclusividade para a Casa da Mãe Joanna, e agora publicamos um artigo originalmente publicado no seu site, com tradução de Bianca Busato Portella da BBP Tradução de Inglês. (A imagem que ilustra essa mensagem é uma versão daquela utilizada no post original, e é de Michelle Pred.)

Lançando luz a uma multiplicidade de vozes com o #MeToo

Os últimos meses revelaram algo que as feministas sempre souberam e lutaram contra: a dimensão do abuso sexual de mulheres provocado por homens é assombrosa. E isso considerando que a maioria dos abusos sexuais ainda não são denunciados.

Em termos de denúncias de agressão, entretanto, as coisas estão mudando com rapidez. Até certo ponto devido ao #MeToo (#EuTambém), alguns lugares viram um “aumento recorde” em denúncias de crimes sexuais. Cada vez mais mulheres estão não apenas denunciando agressões sexuais, mas também nomeando publicamente seus agressores. O estado de espírito geral entre as mulheres ao redor do mundo é de que elas estão fartas. Embora não seja a primeira vez que o feminismo mundial vive um momento de auge, o momento do #MeToo trouxe consigo uma determinação revigorante para desmantelar o patriarcado. Não me surpreende nem um pouco que a hashtag popular a aparecer após o #metoo foi #timesup (que pode ser traduzido livremente de algumas formas, como #acabouotempo ou #ahoraéagora).

Ainda assim, as maiores vozes que estão moldando o “MeToo” são, em sua maioria, mulheres norte-americanas, brancas e da elite, como também algumas mulheres europeias ocidentais. Isso limitará o sucesso do movimento. A guerra contra as mulheres é mundial e a guerra contra o patriarcado também deveria ser.

“Onde Começa a Liberdade: Sexo Poder Violência #MeToo”, editado pela Verso
O título acima é do novo livro *gratuito* disponível aqui (em inglês). Ele é fantástico. Cativante, o livro retrata a multiplicidade de vozes de mulheres envolvidas no MeToo. Na verdade, os ensaios do livro fazem várias ligações cruciais: entre raça e assédio sexual; entre trabalho, classe e assédio; entre história e modernidade – tecendo eventos que levaram até esse ápice monumental, porém desafiador, do momento feminista em que estamos. É um documento muito importante da nossa era. Espero que surjam muitos mais como esse, conectando o momento também a partir de uma perspectiva global.

A mensagem do título é apropriada – onde começa a liberdade… sexo, poder, violência. Um dos aspectos, especialmente poderoso, sobre as conversas atuais é que elas estão mudando as estruturas de poder em nossos espaços íntimos. Uma coisa (importante) é mudar políticas e leis, mas é diferente (mais sensível, desafiador) mudar relações sociais. Desde que a campanha Me Too, de Tarana Burke, foi popularizada por Alyssa Milano, nossas relações sociais estão definitivamente mudando. Nos últimos meses percebi que hoje tenho conversas, as quais normalmente teria apenas com outras feministas, com qualquer tipo de homem!

Estive na Nigéria a maior parte do tempo desde que as discussões começaram e, assim como muitas discussões na África, vejo que elas são muito mais progressistas que no Ocidente ou muito mais retrógradas. Então, por um lado, acho que as mulheres e os homens feministas de Lagos são geralmente menos educados em relação ao feminismo. Por outro lado, o medo de perder os incontáveis privilégios que os homens nigerianos têm em relação a suas contrapartidas femininas é quase palpável, principalmente entre os homens, os quais defendem seu pavor reivindicando que as feministas nutrem críticas cruéis e irracionais em relação a todos os homens.

CONSELHO: Sempre que os homens começarem a lançar acusações relativo ao feminismo que odeia os homens numa discussão, eles estão apavorados que você, Guerreira Feminista Destemida, possa dizer algo que encerre o debate. É a tática mais simples. Pode apostar que a discussão será seguida pela previsível afirmação de que os papeis de gênero opressores não se trata de machismo, mas sim de biologia. Mais ou menos como quando o Trump disse que a questão dos jogadores da NFL se ajoelharem não tem nada a ver com raça, mas sim com o país e a bandeira.

A minha história com o #MeToo

Falando em documentar as narrativas de mulheres, como uma escritora feminista negra com opiniões contrárias ao patriarcado, ao imperialismo e ao capitalismo, nunca gostei que as minhas ideias existissem, nas mídias sociais ou em outras mídias, isoladas. Um dos vários motivos pelo qual mantive esse blog por quase uma década foi para que eu, pelo menos até certo ponto, fosse dona do arquivo público da minha escrita e pudesse acessá-lo facilmente.

Assim, republico um texto do Facebook/Instagram sobre o #MeToo na Nigéria e minha própria experiência pessoal. Quero “estacionar” a publicação aqui no meu arquivo.

“Das muitas razões pelas quais o #metoo não deslanchou na Nigéria, uma das principais é que ninguém prestaria atenção a não ser que as mulheres se manifestando fossem celebridades ou mulheres da elite, e por outro lado, há muitos homens em seus círculos íntimos (laços familiares ou profissionais) que são culpados por violação sexual contra mulheres. Um dos casos em questão foi quando uma mulher corajosa, conhecida como Sugabelly, falou o nome do seu estuprador, Mustapha Audu, em uma publicação de blog em 2015 e, por consequência, foi verbalmente massacrada por grandes grupos de comentaristas nigerianos misóginos, tanto mulheres quanto homens. Sugabelly estava à frente do seu tempo e me pergunto se o bombardeio de abuso direcionado a ela seria menos criminoso hoje, sob a perspectiva do #metoo. Da mesma forma, quando escrevi sobre ter sido estuprada, em uma publicação de blog de 2013, contei (e sofri) que, por semanas, recebi mensagens de inúmeras mulheres nigerianas (e africanas) que compartilharam suas histórias de estupro comigo. Então me pergunto, por que nenhuma mulher nigeriana está se manifestando, até mesmo agora que a conversa do #metoo se tornou popular através da narrativa mundial? Deixo claro que não defendo que todas as mulheres devam se expor em prol do #metoo, independente do momento influente e radical que a hashtag tenha gerado. Não é uma coisa fácil de fazer! Mesmo no meu caso, embora não me arrependa de ter compartilhado minha história, eu sofri consequências que não desejaria a ninguém e eu nem falei o nome dos meus estupradores (porque não sei o nome deles). Mas, ainda assim, me interesso pelos fatores culturais que fazem com que as mulheres fiquem em silêncio diante de violações sexuais em um país em que a violação sexual é lugar comum. Há algo assustadoramente barulhento nesse silêncio, é como um zumbido. Alguém tem ideia do porquê?”

 

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