Meu relacionamento abusivo não me feriu fisicamente

Meu relacionamento abusivo não me feriu fisicamente. Na verdade, eu estava tão envolvida que só percebi o quão abusivo era alguns meses depois que o relacionamento já tinha terminado… E tinha certeza que era algo saudável, imagina, eu, feminista há anos, empoderando mulheres e amigas, em um relacionamento abusivo? É. Foi.

E demorei um relacionamento depois pra me dar por conta. E senti necessidade de escrever sobre isso, pois essa mesma pessoa continuou com os abusando emocionalmente em relacionamentos posteriores. Abuso emocional é muito mais recorrente do que imaginamos e muito complicado de identificar. Escrevo esse relato pra que se alguém se identifique, consiga observar mais para decidir se vale a pena continuar nessa.

Abuso emocional é muito mais recorrente do que imaginamos e muito complicado de identificar.

Eu estava num relacionamento, conheci essa pessoa que vou chamar de M. Me envolvi de uma forma que não via outra opção que não fosse acabar esse relacionamento. Hoje acho que foi abusivo desde a primeira semana. Com M, sempre foi um relacionamento flexível, acordado em que ambos poderíamos nos envolver com outras pessoas. Mas só ele podia sentir ciúmes, tá? Se eu sentisse ciúmes era louca e vinha aquela resposta que eu passei meses ouvindo “tu sabe que não posso namorar agora”.

Na verdade, foi uma série de abusos. Durante os meses em que me envolvi com M, foram 2 ou 3 vezes que ele pediu para parar de me ver, e quando era conveniente me chamava dizendo que tinha se arrependido. As vezes, dava apenas uma semana durante um “não tenho mais tempo pra nós” e “sinto tua falta, vem me ver”.

Todas as discussões eram coisas da minha cabeça. Eu sempre criava alguma coisa que “invadia” o espaço dele e ouvia “tu sabe que não posso namorar agora”. Ouvi tanto essa frase que me culpabilizava pelos meus pensamentos e meu sentimento por ele. O detalhe é que quando eu precisava reajustar meus pensamentos, ele não me deixava espaço. Daí era só “amor”.

Se não bastasse, alguns dias atrás fiquei sabendo que ele também comentava pelos ventos sobre nossa vida sexual, e que segundo um amigo dele “eu deveria ficar feliz que ele falava bem”. M é um homem pró-feminismo. Ou que se auto intitula assim. É um homem inserido em movimentos sociais. É um homem que abusou do meu psicológico e do meu emocional. Que me culpabilizava e que achava conveniente divagar sobre nossa intimidade com muitas pessoas.

Eu não sei se relatando fica perceptível o quão abusivo foi. Mas deixo um recado, se a gente tem dúvidas se é abusivo ou não, infelizmente a tendência é que realmente seja. O término de fato aconteceu porque conheci uma pessoa que me fez perceber que alguma coisa não fazia sentido naquele relacionamento; e mesmo assim, foi difícil perceber e admitir isso.

Foi difícil sair e é difícil pra mim hoje dizer que eu queria ficar. Foi difícil pra mim, feminista, admitir que era um relacionamento abusivo. Todas estamos sujeitas a entrar num relacionamento abusivo. É difícil, mas hoje eu queria dizer que é possível. Que todas conseguimos sair de um relacionamento que nos faz mal e que temos umas as outras.

Por Ana Cláudia Delajustine
Imagem destacada: daqui

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